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Rio de Janeiro | O papel civilizador da rua do Ouvidor

06 set 2020

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e marcado com as tags Brito Broca, Dom João VI, Intelectuais, Joaquim Manuel de Macedo, Rio de Janeiro, Rua do Ouvidor

"Vós que tendes a cargo o aformoseamento da cidade
alargai outras ruas, todas as ruas, mas deixai a do Ouvidor assim mesma,
uma viela, como lhe chama o Diário, um canudo, como lhe chamava Pedro Luiz.
Há nela, assim estreitinha, um aspecto e uma sensação de intimidade."


(Machado de Assis, Rua do Ouvidor)


A rua do Ouvidor não é só a mais conhecida rua do Brasil mas, também, uma das mais antigas. Suas origens remontam aos anos de 1586-1672. Nasceu de um desvio da antiga rua Direita (hoje Primeiro de Março) e se chamou, então, rua "Desvio do Mar". Em 1590 passou a chamar-se Rua Aleixo Manuel e, em seguida, levou 120 anos com o nome de Rua Padre Homem da Costa. Houve, posteriormente, necessidade de dar um novo nome à rua e por pouco ela escapou de ser "rua do Lobisomem", "rua do Amotinado", "do Cabido", "da Sé Nova". Mas quando chegou de Portugal (1780) o Ouvidor da Comarca, Dr. Francisco Berquó da Silveira, e se instalou na rua, ela logo começou a ser chamada de "rua do Ouvidor".

A famosa rua, que vai do largo de São Francisco à margem da baía, beneficiou-se da abertura do Brasil ao mundo promovida por Dom João VI, tornando-se rapidamente um centro de novidades intelectuais, destronando a rua Direita. A 8 de março de 1808 ela assistiu metida nos cantos à passagem da família real portuguesa que nesse dia desembarcou na cidade do Rio de Janeiro. (Cf. Joaquim Manuel de Macedo, Memórias da Rua do Ouvidor, capítulo IX: http://memoria.bn.br/DocReader/364568_06/18049). Em muito pouco tempo, a rua tornara-se tão claramente o coração da cidade que, em meados do século XIX, Joaquim Manuel de Macedo devotou todo um volume às suas “Memórias da Rua do Ouvidor” (1878).

As “Memórias”, publicadas no jornal do Comércio, em folhetins semanais, reconstrói a longa e curiosa história da "mais passeada e concorrida", a "mais poliglota e enciclopédica de todas as ruas do Rio de Janeiro", desde o século XVI, quando era apenas o Desvio do Mar.
O passado fala dela com exultação, chamando-a de salão de visitas do Rio de Janeiro. É Debret quem lembra que ela é uma transposição da Rua Vivienne, de Paris, para o Rio, comparação repetida centenas de vezes depois que ele a fez. (Ver aqui)

Os relatos, as crônicas e as correspondências dos viajantes fizeram frequentemente dessa rua a metonímia de um Brasil ideal. Um jovem vindo do Ceará para ingressar na Escola Militar em 1879 assim descreve aos pais suas impressões da capital: "O Rio de Janeiro é o Brasil e a rua do Ouvidor é o Rio de Janeiro. Tudo aqui é muito bonito." Aos olhos dos brasileiros, essa rua comprida parecia o canal por meio do qual a civilização irrigava seu país. (Cf. Armelle Enders, A história do Rio de Janeiro. Gryphus Editora, 2015)

Nessa estreitíssima rua de uma dezena de quarteirões e de quase um quilômetro de extensão foi que se robusteceu, em grande parte, a campanha abolicionista. Era nessa rua apertada que pulsava a vida intelectual do país. Ela recebia de fora as ideias, as refletia para todos os cantos do país. Era o coração da vida nacional, o estuário que recebia todas as correntes, o centro para onde convergiam todas as forças ativas da nação e donde se escoava a seiva intelectual.

Na Ouvidor tinham seus escritórios e oficinas o Jornal do Commercio, a Gazeta de Notícias, O Paiz, o Diário de Notícias, a Reforma, a República, o Diário do Commercio, o Globo e o Correio do Povo. Suas redações serviam de ponto de encontro para poetas, políticos e jornalistas. Os cafés, onde se reuniam os políticos e os homens de letras, estavam sempre lotados. A Ouvidor era ainda a rua das principais livrarias. No período imperial, as principais livrarias da cidade estavam instaladas nela, como a Laemmert e a Garnier. Nos anos 30, abrigava algumas das mais famosas livrarias da cidade. Lá estavam a Francisco Alves, a Civilização Brasileira, a Guanabara e a Casa Jackson.

Todas as encrencas econômicas, sociais, políticas e literárias, zumbiam na livraria do número 110, a Livraria José Olympio, ponto de encontro de escritores: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Adalgisa Nery, Dinah Silveira de Queiroz e muitos outros. A história dessa livraria é a matéria do excelente livro da jornalista Lucila Soares, neta do famoso livreiro e editor. (Ver)

A Rua do Ouvidor foi sempre notícia no século passado. Escritores e jornalistas nacionais e estrangeiros dela se ocuparam, anos seguidos, em livros, crônicas, folhetins , peças de teatro. Para Brito Broca, a emblemática rua era o ponto quente da cidade, a prova de sua civilização:

“Bem longo foi o período de hegemonia da rua do Ouvidor, durante o qual desempenhou ela um grande papel social, figurando como elemento altamente civilizador na vida brasileira. [...] A função transcendente da rua do Ouvidor começou verdadeiramente depois de 1815 com o Congresso de Viena quando a sombra de Napoleão deixou de ameaçar o mundo e Portugal fez as pazes com a França. D. João VI mandou logo contratar um grupo de artistas para lançar as bases da nossa Academia de Belas artes. [...] Com as modas e os perfumes parisienses, começaram a chegar ali as últimas novidades literárias. [...] Livrarias como a Garnier, também francesa, foram-se estabelecendo na rua do Ouvidor, carregando para ali os intelectuais e homens de letras, atraídos, ao mesmo tempo, pelas mesas das confeitarias e dos cafés. Ali se instalam os principais jornais, as principais confeitarias, as principais livrarias, formando os pontos de união onde se tramam as intrigas, criam-se e destroem-se as reputações, conquista-se, afinal, a popularidade no Brasil inteiro. [...] "O Rio civiliza-se" - apregoava Figueiredo Pimentel no "Binóculo"”. (Brito Broca, O papel civilizador de uma rua, Letras e Artes, 27-7-1954: http://memoria.bn.br/DocReader/114774/3803 e http://memoria.bn.br/DocReader/114774/3806)


Ver ainda:

Rua do Ouvidor, quatro séculos de tradição

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/2593

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/2594

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/2595

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/2596

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/2597