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25 de março | Dia Nacional da Comunidade Árabe

25 mar 2021

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Para muitos, 25 de março é menos data do que nome de rua. Que o diga quem já deu um bordejo pela Sé, no centrão de São Paulo, sobretudo nas semanas que antecedem o Natal. A data nomeia uma das mais movimentadas vias públicas da capital: aquela considerada, singelamente, o maior centro comercial popular da América Latina. Lá, de fato, tem de tudo: eletrônicos, roupas, armarinhos, artigos religiosos e para festas, centros de estética, pet-shop, decoração, chapelarias e muitas, muitas, infindáveis lojas de bijuteria, do atacado ao varejo, quando não atacarejo, e do shopping ao camelô. Curiosamente, no centro do Rio de Janeiro existe um complexo comercial semelhante, no entorno da Rua da Alfândega, equivalente carioca às redondezas da Rua 25 de Março – no Rio, a famosa Saara não é referência ao deserto, mas sigla para Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega. De qualquer maneira, seja numa capital ou na outra, quem foi o ator social que construiu isso tudo? Quem deu reputação e base material para que lugares assim se estabelecessem? Ora, foi o imigrante. Figura que, literalmente, ergueu boa parte do Sudeste e do Sul brasileiros, ao lado de seu correlato nacional, o migrante, sobretudo oriundo do Nordeste. Mas, aqui, hoje, não falamos de quaisquer imigrantes, das diversas nacionalidades que ajudaram a compor o Brasil de hoje: nos referimos, particularmente, às colônias árabes de nosso país, formadas principalmente por gente de origens síria e libanesa – sem deixar de lado os de ascendência palestina, jordaniana, iraquiana e egípcia, em menor número. Gente que, ao passar do tempo, se mostrou crucial para o estabelecimento da tônica comercial paulistana, paulista e, afinal, nacional. Não se pode ignorar que as comunidades portuguesa, judaica e, mais recentemente, chinesa também contribuíram com o vigor econômico de pontos como a 25 de Março, a Saara e o comércio popular brasileiro em diversas cidades. Mas hoje, todavia, é justamente quando se comemora no Brasil o Dia Nacional da Comunidade Árabe.

Segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e o Consulado Geral do Líbano em São Paulo, entre dados discrepantes, em 2020 entre 8 e 11 milhões de brasileiros se declaravam de origem árabe. Só a colônia libanesa no país é maior que a população do próprio Líbano. Tanta gente justifica: o IBGE ressalta em sua página que entre 1895 e 1971 foram publicados no Brasil nada menos que cerca de 160 periódicos dirigidos à colônia sírio-libanesa no país. Apenas um exemplo é o jornal Al-Adl (A Justiça), editado pelo sírio Checri Jorge Antun no Rio de Janeiro, de 1901 até ao menos 1924, com a colaboração de Nacim Ibrahim Kuri; na mesma rua em que o jornal, a da Alfândega, mas em outro logradouro, funcionava então um hotel também chamado Al-Adl, que, aliás, anunciava nas páginas do periódico, sendo altamente provável que ambos os empreendimentos pertencessem ao mesmo dono, ou à mesma família, talvez Antun, talvez Kuri, talvez parentes. Fato é que, até que se chegasse na proporção populacional que demandava tamanha procura por informação especializada, em árabe, muita água correu.

Existem registros de árabes na tripulação da esquadra de Pedro Álvares Cabral, composta por 13 embarcações, quando do ponto de partida da colonização portuguesa na América. Mas a chegada árabe cá por estas bandas do Atlântico começou no século XIX, aos poucos, tanto por iniciativa própria quanto pela escravização de etnias oriundas do nordeste africano, como a dos malês, negros muçulmanos costumeiramente altivos, instruídos e insubmissos. Em 1858, um acordo migratório foi devidamente firmado entre os impérios do Brasil e Turco-Otomano. No início, sobretudo imigrantes libaneses, com sírios em menor quantidade, estabeleceram uma então tímida comunidade árabe no país, com quase só homens vindo para cá, para tentar ganhar a vida e ajudar a família. Tudo ganhou força com a política de imigração bolada pela coroa no Segundo Reinado, já nos respiros finais da monarquia, tonificada, inclusive, por duas viagens diplomáticas de Dom Pedro II pelo Oriente Médio, em 1871 e 1876: o imperador voltou impressionado com a cordialidade árabe, divulgando a imagem do Brasil por lá e abrindo os portos brasileiros a quem quisesse se estabelecer por cá. Havia, no Brasil, necessidade de colonização de terras de difícil acesso e de paulatina substituição da força de trabalho escrava, então em vias de acabar, pela assalariada: ao menos em tese, uma mão lavaria a outra. Questões agrárias, com a crônica falta de terras cultiváveis no Oriente Médio, já seriam razão suficiente para a diáspora árabe, mas havia ainda o atrito religioso: cristãos árabes, perseguidos em terras otomanas, acharam melhor vir para a América Latina, majoritariamente católica, além de parecer um paraíso de solo fértil, pela propaganda.

A partir de 1880 o êxodo sírio-libanês aumentou em direção ao Brasil: foi aí em que a imigração sírio-libanesa começou, de fato, para cá. Ainda assim, muitos árabes, de origem humilde e agrária, desembarcaram nos portos de Santos ou do Rio de Janeiro acreditando que estavam indo para outra América, a do norte: Eldorado errado. Por outro lado, boa parte dos que vinham miravam a terra brasilis intencionalmente, estimulados por parentes aqui já estabelecidos e dispostos a fortalecer a colônia local. Segundo o acadêmico norte americano Jeff Lesser, no livro Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil, desembarcaram no Porto de Santos por volta de 130 mil pessoas de origem libanesa e síria entre 1884 e 1933, sendo mais da metade católicos maronitas ou melquitas – em menor número, ortodoxos e muçulmanos (estes cerca de 15% do total) não deixavam de vir.

Mas como eram e o que faziam os primeiros árabes tupiniquins? Muito do imaginário em torno dos imigrantes do Oriente Médio – ou de seus descendentes – se constituiu a partir do momento em que, recém chegados ao Brasil, viram que o cultivo de terras, por aqui, não era nenhuma maravilha: preferiam atividades comerciais, sobretudo pelo interiorzão, onde (quase) ninguém chegava para o mercadejo. Isso era, de fato, um “nicho” de mercado. Reconhecidos genericamente como “turcos”, já que naquela época tanto a Síria quanto o Líbano faziam parte do Império Turco-Otomano, árabes aqui desembarcados eram em geral de origem camponesa, preferindo manter distância das agruras da lida rural tanto por ingrata experiência em seus torrões natais quanto por não conhecerem muito bem a terra deste novo, selvagem e duro país, tão vasto quanto pitoresco. Ademais, notavam que, por aqui, imigrantes de outras nacionalidades, no campo, muitas vezes eram passados para trás. Foi assim que muitos dos primeiros árabes no Brasil se tornaram inicialmente mascates, caixeiros-viajantes, permanecendo constantemente em trânsito – tanto em cidades movimentadas quanto em fazendas em todos os rincões –, ofertando mercadorias, às vezes de forma exclusiva. Vendiam, em lombos de animais, tudo quanto é tipo de coisa, variedade admirável que anunciava os tempos atuais, de Saara e Rua 25 de Março: roupas, adornos, remédios, artigos para o lar, ferramentas, quinquilharias, publicações, tecidos. Conforme juntavam o cascalho, iam se aprimorando: alguns começavam a aparecer com carroças, ofereciam mercadorias importadas de melhor qualidade, ou mesmo se davam o luxo de possuir ajudantes.

Para os colonos europeus presos na lida com a terra era melhor comprar dos árabes, já que a economia do Brasil agrário de então teimava em manter costumes da escravidão. Camponeses em geral se endividavam nos únicos lugares onde podiam comprar o básico para seu sustento, as vendas da fazenda, que pertenciam aos latifundiários que os empregavam. Melhor fechar com ao árabes, inclusive pelo dedo de prosa, mesmo ambos arranhando um português pior do que o outro. As idas e vindas dos mascates entre pequenas vilas e sítios onde Judas perdeu as botas (apenas para encontrar um sorridente vendedor ambulante de bigodes grossos a lhe oferecer um novo par), tiveram grande papel comunicador: eram eles, muitas vezes, as únicas formas de contato do camponês com o mundo exterior, levando e trazendo não só mercadorias físicas, mas informações. Noticiavam: a monarquia caiu, a guerra começou, Getúlio Vargas chegou ao poder à bala. E vendiam, a uma boquiaberta audiência. Foi, de fato, um bom negócio, o do caixeiro-viajante, apesar da pelintrice inerente a tal vida: com o tempo, muitos imigrantes árabes nesse ramo conseguiram juntar capital suficiente para abrir pequenos estabelecimentos comerciais em centros urbanos variados. Seu objetivo não era apenas enriquecer: havia os que poupavam o suficiente para conseguir o ideal, trazer o restante da família, tanto para ajudar na loja quanto para fincar raízes. Surgiam, assim, os clássicos armarinhos e lojas de tecidos comandados por árabes, ou seus filhos, ou seus netos e sobrinhos (quando não por todos). Em 1901, diz o IBGE, a capital paulista já contava com mais de 500 casas comerciais na região de concentração sírio-libanesa; seis anos depois, outro levantamento apontou que de 315 firmas desses imigrantes, 80% eram lojas de tecidos a varejo e armarinhos. Casas de dentro e de fora desse ramo cresceram consideravelmente com a eclosão da I Guerra Mundial, que interrompeu a importação de produtos europeus.

O fluxo inicial de sírios e libaneses para o Brasil se deu até a década de 1910. Outra onda, maior, se deu depois da Primeira Guerra Mundial – que trouxe, aliás, a extinção do Império Otomano, que havia malfadado uma aliança com a Alemanha. Nesse segundo momento, processos de industrialização e urbanização corriam a todo o vapor no país, dando o tom na busca por melhores condições de vida, não só entre imigrantes: os ciclos da borracha, na Amazônia, e do café, no Sul e no Sudeste, atraíram trabalhadores de todas as origens. Mascates, armarinhos e casas de secos e molhados eram, então, mais do que necessários, ao passo em que certas figuras da comunidade árabe, com seus devidos contatos internacionais, calcavam fama como importantes agentes de importação. Nessa época, foram eles que introduziram o sistema de pagamento a prestações no país (e jogue a primeira pedra quem nunca deu graças por poder parcelar!), passando a se estabelecer no comércio em geral, além do ramo dos tecidos e dos armarinhos: começaram a aparecer árabes administradores de hotéis, restaurantes, clubes, associações, hospitais, quando não médicos e políticos. Eram tempos de altos e baixos, na verdade. Deu-se a crise econômica de 1929: a quebra da bolsa de Nova Iorque naquele ano gerou um efeito dominó que, quando bateu na colônia sírio-libanesa brasileira, fez com que muitos imigrantes que tinham alguma reserva a investissem em propriedades, para a abertura de casa comerciais. Menos mal: era isso ou amargar a desvalorização da moeda. Nos primeiros anos da Era Vargas, iniciada em 1930, a remessa de dinheiro do Brasil para o Líbano e para a Síria diminuiu significativamente. E os negócios de médio e pequeno porte foram sendo cautelosa e rigorosamente passados de pai para filho, sem novidades ou sobressaltos.

Nem tudo foi ruim, no pós-1930. Muito pelo contrário, para alguns. Com o fim da Segunda Guerra Mundial deu-se o crescimento dos processos de substituição de importações no Brasil, via industrialização. Era uma oportunidade, para quem podia dar um passo à frente. Uma seleta parcela da colônia árabe que soube se manter durante o tempo de vacas magras usou a deixa e prosperou o suficiente para migrar do pequeno e médio para o grande comércio, quando não para a indústria – e por vezes, para grandes empreendimentos industriais. Tal façanha, claro, não foi regra aplicada a toda a comunidade árabe no Brasil. Mas, provavelmente, tamanho sucesso, certamente oriundo de tinos comerciais notáveis, mas também de concepções morais valorizadoras da família e da riqueza acumulada com prudência de geração em geração, motivou algum descontentamento em boa parte da população não árabe, chegada num disse-me-disse mais que venal: parente do “judeu”, o “turco” seria em geral dinheirista, pão-duro, capaz de vender até a alma. Melhor deixá-los falar: devia ser inveja. Teve, de fato, gente que chegou ao Brasil com quase nada e, por diversos caminhos, foi capaz de viver o sonho americano – e não exatamente na América certa. Realidade liberal e meritocrática dos sonhos de qualquer capitalista, claro. Mas que esteve ao sabor dos ventos políticos e contextos sociais no pós-Guerra. E que contrasta com a realidade do mais recente fluxo árabe para este país: a partir dos anos 1970, conflitos armados no berço religioso da humanidade fizeram com que iraquianos, libaneses, sírios, palestinos e jordanianos, dessa vez num fluxo majoritariamente islâmico e minoritariamente judaico, também começassem a enxergar o Brasil como lar. Muitas vezes, como no caso dos sírios a partir de 2011, pisando em terras tropicais com o amargo status de refugiado.

No que pese à habilidade financeira normalmente imputada aos povos semitas, há que sublinhar: todo sujeito que se assunta em estereótipo está viajando. A lista de brasileiros proeminentes de origem árabe é vasta, abrigando gente de diversas ideias, díspares matizes e variadas áreas profissionais, não só da comercial. O respeitado Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, afinal, não leva seu nome em vão. Fato é que para um Jacob Safra temos um Tárik de Souza. Para um João Sayad um Joãozinho Trinta. Para uma Carol Gattaz um Michel Temer. Ou um Arnaldo Jabor para um Carlos Ghosn. E outros tantos, ilustres, controversos, brilhantes ou polêmicos, alguns amados ou odiados, quando não amados e odiados, para o bem e para o mal. Gente do naipe de Antônio Houaiss. Ibrahim Sued. José Maria Alkmin e seu sobrinho neto, Geraldo. Raduan Nassar. Paulo Salim Maluf. Milton Hatoum. Alex Atala. Hélio Turco. Aziz Ab-Saber. Michael Naify. Luciana Gimenez. Mário Chamie. Adib Jatene. Tony Kanaan. Nami Jafet. Os três Haddads: Jamil Almansur, Amir e Fernando. Ezequiel Nasser. Jorge Zahar. Roberto Abdenur. João Jorge Saad. Edmundo Safdié. Dionísio Azevedo. José Francisco Rezek. Fábio Sabag. Gilberto Dimenstein. Matry Bacila. Glória Kalil. Demócrito Rocha Dummar. Ivone Gebara. Éder e Emir Sader. Marilena Chauí. Henry Maksoud. Ibrahim Abi-Ackel. Guilherme Boulos. Rosinha Garotinho. Tasso Jereissati. Alfredo Buzaid. Carlos Latuff. Augusto Cury. Benjamim Abrahão Botto. Andréia Sadi. Carlos Moche Dayan. Frejat. Lista enorme, que tem até Beto Carrero e Fagner, vejam bem. Frutos de raízes fortes, de grossos e múltiplos ramos.

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Álbum fotográfico “Árabes: usos e costumes”



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