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Acervo BN | A xilogravura em claro-escuro

14 abr 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Antonio da Trento, Biblioteca Nacional, Chiaroscuro, Xilogravura

A xilogravura “Martírio de São Paulo e condenação de São Pedro”, realizada por Antonio da Trento entre 1527 e 1530 a partir de um desenho de Parmigianino, apresenta os apóstolos Paulo e Pedro ajoelhados no centro da cena e, à direita, o imperador Nero rodeado por guardas. O desenho de Parmigianino está relacionado à tradição de que o martírio dos dois apóstolos foi ordenado pelo imperador romano no mesmo dia: Pedro seria crucificado de cabeça para baixo e Paulo decapitado.

Esta xilogravura em claro-escuro de três matrizes (dois tons de marrom e preto) teria sido o primeiro trabalho colaborativo entre Parmigianino e Antonio da Trento. A obra tem relação com a gravura a buril de Gian Jacopo Caraglio sobre o mesmo tema, embora sejam baseadas em desenhosdistintos de Parmigianino. Na xilogravura a composição é simplificada, de modo que as chaves (atributo do apóstolo Pedro)no primeiro plano são excluídas, assim como vários elementos do plano de fundo, na escadaria do templo. Por outro lado, na xilogravura é acrescentado um anjo na parte superior da composição.

Antonio da Trento viveu na primeira metade do século XVI e foi o principal colaborador de Parmigianino durante sua atividade em Bolonha nos anos de 1527 a 1530. É possível que o gravador tenha aprendido a técnica do claro-escuro com Ugo da Carpi em Roma.

O termo claro-escuro deriva do italiano chiaroscuro, chiaro (claro) e scuro (escuro), uma vez que a técnica explora o uso de valores e contrastes tonais, de luz e sombra. Nas xilogravuras em claro-escuro as imagens são formadas a partir de duas ou mais matrizes que são impressas em tons diferentes da mesma cor ou de cores similares, havendo a possibilidade de que uma delas delineie a estrutura linear principal da composição, impressa em preto ou no tom mais escuro. A gravura é obtida a partir da impressão sucessiva das matrizes, sobrepostas umas às outras, cada qual com uma gradação de cor, conferindo à imagem os tons intermediários. Os efeitos cromáticos assim obtidos remetem à pintura en camaïeu e também aos desenhos em duas ou três cores em papel colorido, realçados com alvaiade. A técnica também é conhecida como gravura em camafeu ou pelo termo francês camaïeu.

Uma característica evidente desta técnica é a participação ativa do papel na composição, tal como afirma Orlando da Costa Ferreira, autor de Imagem e Letra, em sua própria definição de gravura. Segundo o autor, o branco ou a cor do papel participam ativamente da ordenação e surgimento da imagem integral e autônoma que é a estampa (a imagem impressa), não sendo o papel um suporte inerte e passivo. Outra característica da xilogravura em claro-escuro é a possibilidade de imprimir a mesma imagem variando-se a paleta de cores (por exemplo, a xilogravura de Antonio da Trento impressa em tons de azul pode ser vista na coleção da National Gallery of Art, Estados Unidos).

Diversos autores, entre os quais o já citado Costa Ferreira, referem-se aos termos “gravura em camafeu” e “gravura em claro-escuro” como designações da mesma técnica. Outros autores, no entanto, atribuem cada termo a processos semelhantes, porém distintos quanto à sua origem histórica, ao número de matrizes empregadas e ao seu grau de autonomia compositiva. Assim, a gravura em camafeu teria sido realizada principalmente por artistas do norte da Europa, entre os quais Jost de Negker, Hans Burgkmair e Hans Wechtlin, nos séculos XV e XVI, e consistiria na sobreposição de duas matrizes, uma fornecendo a tonalidade uniforme do fundo e os reflexos de luz e a outra, os contornos, detalhes e sombras. Esta matriz com os contornos e linhas fundamentais da composição também poderia ser impressa com autonomia, como se fosse a matriz de um desenho linear de uma xilogravura tradicional em preto e branco. Já o claro-escuro italiano, cuja invenção foi alegada por Ugo da Carpi em 1516 em um documento remetido ao Senato veneziano, empregaria três ou mais matrizes, de forma que nenhuma delas conteria todos os traços da gravura, sendo imprescindível a impressão de todas as matrizes superpostas de forma articulada, tom sobre tom, desde o claro até o escuro, em uma abordagem tonal capaz de oferecer efeitos mais pictóricos.




“Martírio de São Paulo e condenação de São Pedro”, de Antonio da Trento, 1527-1530