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Acervo da BN | A discreta volúpia da Vida Nocturna

21 mar 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Boemia, Década de 1920, Melindrosas, Rio de Janeiro, Secult, Vida Noturna

“No meu tempo não havia essa sem-vergonhice”, diz a vovó que teve inacreditáveis 11 rebentos. Enfim. Pudores à parte, cabe reconhecer: não é porque no passado a moralidade pegava mais pesado com costumes e prazeres, digamos, terrenos, quando não descaradamente libertinos, que nossos antepassados não pintavam o sete. Havia que pinta-lo, isso sim, discretamente. Aquilo que hoje é reconhecido como vida noturna, palco de tantos incidentes, loucuras, amores e desamores, na verdade, sempre existiu. Mas, se atualmente, mesmo em tempos em que a aglomeração social não é recomendável, gente de todas as cores, credos, idades e estados civis cisma em marcar uma bebedeira nos pontos mais quentes do balacobaco urbano, revivendo e fazendo jus a toda uma cultura da pândega, entre surreais sabadões à noite por aí, uma pergunta fica no ar: como seria a gandaia em outros tempos? Como eram os prazeres de classes trabalhadoras e aristocráticas há 100 anos? Pois dá para saber, ao menos um pouco. Nos tempos pré-Whatsapp, as informações sobre baladas, casas de espetáculos, boates, cabarés – os de respeito e os de fama –, circulavam pura e simplesmente em jornais e revistas, em mensagens cifradas ou nem tanto, entre uma ou outra fofoca entre habitués. Conheçamos hoje, a título de exemplo, a respeitável – embora editada anonimamente – Vida Nocturna, revistinha mundana do Rio de Janeiro dos anos 1920, quase centenária. Busquemos piteiras, abotoaduras, vestidos de franja, faixas de melindrosa e taças de cristal, para tamanho deleite.

Vida Nocturna foi uma revista ilustrada semanal voltada às novidades do entretenimento e dos espetáculos artísticos da louca e afamada noite carioca. Lançada provavelmente em 1924, aparecia em registro, apenas, como propriedade de F. Marte & Cia. Publicava crônicas (com alguns textos em francês), pequenas notícias, comentários jocosos, artistas de destaque no mundo dos espetáculos noturnos, críticas de teatro e cinema, novidades e fofocas de clubes noturnos e cabarés, caricaturas, versos e prosa, anedotas, retratos de artistas (sobretudo belas mulheres que causavam grandes impressões na vida noturna da capital), anúncios publicitários (normalmente de pensões, casas noturnas, cassinos, etc.), entre outras coisas. Como era um periódico do universo da boemia, seus diretores e colaboradores publicavam ali somente por pseudônimo: a única exceção, talvez, fosse o nome de seu proprietário, F. Marte, e daquele a quem toda a correspondência deveria ser dirigida, J. M. Marte, com redação localizada ao nº 44 da Rua 2 de Dezembro, no bairro do Catete (gente recheada da bufunfa, a julgar pelo endereço).

Embora fosse originalmente um semanário, e da qualidade gráfica com a qual era editado, Vida Nocturna teve periodicidade irregular. Porque, apesar de voltada às diversões, a gestão da revista enfrentou dificuldades geradoras de pouco riso, e muito siso. Sua edição nº 25 do ano 2, de 14 de março de 1925, era um tanto disfarçada: a capa trazia um retrato um tanto comportado da bela Niekita, conhecida na noite como “La Sentimental”, uma “Extraordinaria estyllista criolla que com grande brilho delicia os ‘habitués’ do Palace Club, tendo também já se exibido nos principaes clubs e cinemas desta cidade”. Pois bem: uma “estyllista”, naquela época, não era como uma estilista, hoje. Internamente, entretanto, a revista vinha com imagens diferentes. Nada escandaloso, é bem verdade: era necessário ser discreto quanto à volúpia. Discrição apenas levemente sugestiva, coisa perfeitamente atingida, no caso, na imagem da bailarina Maria Olenewa, estampada com júbilo na página 4 da edição: seu sorriso – tímido ou serelepe? – e seu gestual parecem querer esconder – ou mostrar? – seu corpo. Mais adiante, uma imagem um pouco mais picante mostra “La Salerosa”, uma “extraordinária bailarina hespanhola que com grande sucesso acaba de fazer sua rentree no Club dos Politicos”. Não era qualquer uma. Assim como não era Chocolat, repentista negro então em turnê pelo interior brasileiro, depois de fazer sucesso em palcos europeus, sorridente apesar do nome de palco um tanto racista – veja-o na página 6 da mesma edição. Apesar dos descontraídos sorrisos estampados nas páginas internes de Vida Nocturna, os tempos exigiam cuidado. Logo ao início do nº 25, a revista anunciava que daquela edição em diante iniciava sua segunda fase, por conta de uma interrupção aparentemente curta na publicação regular. Na terceira página da mesma, o editorial “Resurgindo” atribuía o hiato da revista ao fechamento de clubes noturnos e à perseguição às casas de jogo pelas autoridades municipais, naquele momento um “choque de ordem” da administração de Alaor Prata, então prefeito do Distrito Federal, e destacava o seguinte (repare o leitor na fineza do escriba):

Eis-nos novamente na luta, forças cohesas a serviço da “gandaia”, alma e pensamento entregues à faina dignificante de collocar bem alto os interesses e aspirações da bohemia, deste mundo que vive independente da força diária. Sabemos que a muito(s) parece que nós renascemos outra “Vida Nocturna”, independente daquella que um dia susteve o surto que levava, surto glorioso que já nos havia collocado favoravelmente na admiração da mocidade pujante que vive a vida do amor. Tal não se dá, porém. A “Vida Nocturna” que hoje levanta um hymno de luta em prol de aspirações reaes é a mesma de outr’óra. Teve unicamente em sua vida uma dessas interrupções bruscas, dessas mesmas que às vezes produz na vida do homem um lapso momentânea (sic), que deriva em apathia. E houve razão bastante para tal. O fechamento de diversos clubs nocturnos da cidade produziu na mocidade que os freqüenta um protesto surdo, protesto que se manifestou com um afastamento em massa. Nós sentimos o effeito desse cataclysma. (...) Izolados, portanto do centro da “gandaia”, o bom senso nos aconselhava um intervallo curto em que nos refizéssemos de energia para novas lutas. (...) Arrojamos de nós elementos perniciosos, adquirimos novas forças, campos mais vastos. Voltamos à luta. Voltamos promptos a desmentir aquelles que dizem que no seio da bohemia não há ideaes, não há sentimentos. Em nossas folhas encontrareis semanalmente, mais do que nunca o mysticismo dos sentimentos da alma, a alegria amena que deve adornar nossas acções e uma lança sempre prompta a combater falsos ideaes, ideaes mephisticos. Ave pois, “Gandaia”!...

E ponha-se gandaia nisso. Eram tempos em que, para a mulher, a alcunha de “artista”, sobretudo de ordem cênica, significava, implícita e necessariamente, outra coisa: prostituição. Embora atrizes e bailarinas fossem louvadas pelo periódico, o mesmo não conseguia se desvencilhar dos preconceitos da época. Ao lado de elogios a interpretações e à beleza de certas figuras femininas do showbiz, nas edições de Vida Nocturna havia mesmo uma seção dedicada a “Pensões Chics”, voltadas a, digamos, “íntimas diversões”, conforme um dos próprios anúncios revelava. Localizados na Praia da Lapa ou em ruas como Senador Dantas, Santo Amaro, Santa Luzia, tais estabelecimentos propagandeavam o que tinham de melhor: “cosinha internacional”, “fala-se todos os idiomas”, “prix modérés”, “luxuosos apartamentos para artistas”, alguns até “com águas correntes em todos eles”. A Pension d’Artistes, conduzida com mão de ferro por certa Mme. Janyne Lessy, vendendo seu peixe, fritava logo a concorrência: “É a mais conhecida e preferida pelas artistas da escól”. Detalhe: era a preferida “pelas” artistas, e não “pelos”. Abaixo do anúncio, uma despudorada ilustração de dois marmanjos engravatados, babando em torno de duas beldades da época, legítimas melindrosas, uma das quais com os seios de fora – a outra não dá para saber, pois está de costas. De resto, Vida Nocturna publicava ainda um pequeno recado a Mme. Lessy e suas colegas, apelidadas, carinhosa e jocosamente, de mamães:

Nesta nossa segunda phase de vida, cremos poder pedir ás proprietárias de pensões que sejam menos severas com “Vida Noctuna”. Já mostramos que a casa que annuncia em nossas páginas faz um beneficio a si própria e á “gandaia”. Agora, é preciso que as “mamães” se convençam disso e nos olhem com olhos mais amigos e... generosos. Confiamos nas “bôas” mamãesinhas.

Resta saber se o pedido para menos severidade se resumia à relação meramente profissional entre revista e anunciantes.

Explore o documento:

Capa de Vida Nocturna nº 25, de 14 de março de 1925

Maria Olenewa

Chocolat

Página dupla da seção “Clubs e Cabarets”, com “La Salerosa”: http://memoria.bn.br/DocReader/367931/8 e http://memoria.bn.br/DocReader/367931/9

Pensões Chics



Capa do n. 25 de Vida Nocturna.