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Acervo da BN | A Idade d’Ouro do Brazil, de Manoel Antonio da Silva Serva

17 maio 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Bahia, Conservadorismo, História da Imprensa, Idade d’Ouro do Brazil, Imprensa Áulica, Monarquia, Pioneirismo na Imprensa, Secult

Recentemente falamos aqui sobre Hipólito José da Costa, o pai da imprensa brasileira ao fundar o primeiro periódico nacional ainda em nossos tempos de colônia – o célebre Correio Braziliense, lançado em junho de 1808 em Londres, já que, crítico ao absolutismo ibérico, era uma pedra no sapato das cortes de Lisboa. Com a invasão francesa em Portugal, promovida pelo grande e diminuto Napoleão Bonaparte, Dom João VI e o restante da corte lusitana tiveram que buscar refúgio no Brasil, gerando, consequentemente, cá por este lado do Atlântico, alguns avanços: a vinda da Biblioteca Real para a terra brasilis, por exemplo, ocasionou o primeiro acervo de nossa atual Biblioteca Nacional. Passou a funcionar por aqui a Impressão Régia, que, apenas três meses depois do lançamento do “incômodo” Correio Braziliense, trouxe a lume a Gazeta do Rio de Janeiro, lançada na capital a 10 de setembro de 1808, como órgão oficial do governo português, editada primeiro pelo frei Tibúrcio José da Rocha e, depois, pelo primeiro jornalista “profissional” do Brasil, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães. Até a década de 1820, quando já estávamos às portas da Independência, apenas publicações da Impressão Régia e de poucos impressores ligados ao poder tinham licença para circular no Brasil. A coroa orquestrava como podia a reação a órgãos de liberalismo incendiário como o Correio Braziliense. Fundadora e patrona da chamada imprensa áulica no Brasil, a Impressão Régia era dirigida por uma junta, composta por José Bernardes de Castro (oficial da Secretaria de Estrangeiros e de Guerra), Mariano José Pereira da Fonseca e José da Silva Lisboa, trio que deveria se certificar de que nada fosse impresso atentando contra a religião, o governo ou os “bons costumes”; para todos os efeitos, contavam com o exame prévio dos censores reais: o frei Antônio de Arrábida, o padre João Manzoni, Carvalho e Mello e o próprio José da Silva Lisboa. Mas não apenas a Impressão Régia trabalhava a favor dos interesses da coroa: a iniciativa privada também o fez, e muito bem. Longe da corte, na direção nordeste, sob o sol da cálida capitania da Bahia de Todos os Santos, Manoel Antonio da Silva Serva impunha firme o jogo da metrópole através de seu jornal: a polêmica e conservadoríssima Idade d’Ouro do Brazil.

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Quando lemos a “História dos jornais no Brasil – da era colonial à Regência”, de Matías M. Molina, percebemos que existem controvérsias em relação ao início da imprensa na Bahia. O casal de pesquisadores Cybelle e Marcelo de Ipanema afirmava que lá pelos idos de outubro de 1810 certo Alexandre José Vieira de Lemos teria instalado um prelo importado de Londres em Salvador, pedindo licença ao poder para “imprimir conhecimentos mercantis”, afinal concedida quatro meses depois. Não muito longe dali, segundo escrevia o jesuíta Serafim Leite, a biblioteca do colégio de sua ordem em Salvador possuiria, durante a Colônia, milhares de exemplares impressos no local, sabe-se lá como. Nada disso foi provado. O que é líquido e certo é que Marcos de Noronha e Brito, o oitavo conde dos Arcos, que por acaso também era o governador da capitania baiana, dera uma forcinha para instalar, nas dependências de um importante comerciante local uma prensa e uma oficina gráfica, no ano de 1811. O nobre impusera a criação de um jornal que defendesse suas ações e políticas, irmanadas com as da coroa, haveria que sair ainda naquele ano, fizesse sol, fizesse chuva? Sim e não. Ocorre que o importante comerciante local era, naturalmente, o português Manoel Antonio da Silva Serva, “negociante de grosso trato”, o que de forma alguma significava que fosse grosseiro como o estereotipado portuga do botequim da esquina: significava, mesmo, que era um comerciante de elevado calibre, dado a tratar com grandes quantidades, na compra e venda de mobiliário, caros itens de decoração e utilidade doméstica e, afinal, livros. Homem de tino, ideal para um empreendimento inédito naquelas paragens, Silva Serva era ainda administrador da Real Fábrica de Cartas de Jogar, e já havia ido à Inglaterra para comprar uma impressora em 1809, por iniciativa própria, antes mesmo de o conde dos Arcos assumir a capitania. Adquirira, afinal, um prelo Stanhope de ferro, o mais moderno da época, que depois ainda serviu de modelo para a fabricação de uma prensa semelhante, de madeira, fora a variedade de tipos de elegante fundição. Ocorre que, em dezembro de 1810, dois meses depois do início da administração de Noronha e Brito tomar conta da Bahia, o empreendedor seria atendido em seu pedido de autorização para lançar um jornal, devidamente governista. Dois interesses se juntavam: nas ordens ideológica e comercial, pública e privada, uma mão lavando a outra. E ambas lavando o rosto da coroa.

Naquele tempo, uma Carta Régia do príncipe regente d. João era necessária para aprovar o funcionamento da tipografia e a publicação de um jornal: o sinal verde foi obtida por Silva Serva em 5 de fevereiro de 1811, com a ajuda do conde dos Arcos. Nascia assim a segunda oficina tipográfica da história do Brasil, depois da Impressão Régia, instalada no Rio de Janeiro, em 1808, e a primeira de iniciativa privada. Acertar todos os detalhes para o empreendimento não foi nada simples: colocar uma tipografia assim em operação exigiu um acordo prévio, sem precedentes, com oficiais da Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, os medalhões que detinham o monopólio da impressão tipográfica na colônia. Mas, com a devida “mão invisível” do Estado, eles deram o aceite. A 14 de maio de 1811, começava então a circular a Idade d’Ouro do Brazil. Seu belo nome vinha da crença de que a vinda da família real portuguesa cá para os trópicos representava o início de uma nova era, no melhor dos sentidos, para a colônia. No mais, resta dizer que a Carta Régia que possibilitara a nova empreitada não era uma simples autorização: por via das dúvidas, exigia ao governador baiano que nomeasse um revisor para o jornal, um sujeito “de reconhecida capacidade, luzes e fidelidade, e de cujos princípios nada haja a recear”. Dados o ineditismo da situação e a falta de gente de confiança para a tarefa, o próprio conde dos Arcos resolveu assumir o pepino da revisão, nos primeiros meses do novo jornal; só em janeiro de 1812 José Francisco Cardoso passou a figurar como revisor da folha, sendo mais tarde uma Comissão de Censura, composta por cinco membros, capacitada para a função.

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Em tiragens de quase duzentos exemplares por edição, a Idade d’Ouro do Brazil vinha, de início, com quatro páginas impressas em formato diminuto, chamado in-quarto, e depois in-fólio pequeno, circulando nas quartas e sextas-feiras, ao preço de sessenta réis o exemplar – assinaturas anuais e semestrais podiam ser feitas por oito mil e quatro mil réis, respectivamente. Empreendimento caro e difícil. Quase não havia mão de obra para o serviço: Silva Serva tinha que treinar às pressas aprendizes, qualquer rapazote que soubesse ler, escrever e contar. O empresário acabou escrevendo a Dom João VI, pedindo ajuda, ao que o regente respondeu dispensando seus empregados de servir ao Exército e mandando habilitar e instruir “na Arte da Composição e da Imprensa todos os moços de préstimo que voluntariamente quisessem abraçar esta profissão”, segundo Matías M. Molina. A oficina tipográfica de Silva Serva, diz o autor, “tinha um impressor chefe, um revisor de provas, seis aprendizes de composição entre doze e quinze anos, quatro impressores e um encadernador”.

O que nem todos sabem é que o conde dos Arcos, cumprindo com suas funções de revisor censor da Idade d’Ouro do Brazil, acabou gerando o primeiro manual de redação da história da imprensa brasileira – precedendo em muito, obviamente, práticas que se notabilizariam em diários de grande circulação do século XX, como O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil; aí, naturalmente, os devidos contextos devem ser observados. O documento preparado pelo governador baiano poucos dias antes do lançamento da folha dava conta de que ela deveria publicar documentos ministeriais, fazendo menção a despachos civis e militares, em especial concernentes à Bahia. Pudera: a redação do jornal não era centralizada, ficando entre figuras como o bacharel português Diogo Soares da Silva de Bivar, o professor de filosofia e latim Gonçalo Vicente Portela e o padre Ignacio José de Macedo, este ligeira e discretamente liberal, embora nada emancipacionista. Todas as novidades deviam ser apresentadas de forma simples e sucinta, sobretudo as notícias de ordem política, sem dar margens à livre interpretação da opinião pública. No âmbito moral, os textos do novo periódico deveriam sempre deixar claro o quanto a nação ganha ao colaborar com seu governo e sua religião oficial. “Com graça e pico”, por outro lado, os mesmos poderiam desenvolver o quão nocivos seriam os exemplos de pátrias contrárias a tal visão. Uma ou outra descoberta útil poderia ser publicada, em caso de falta de assunto. Notícias da Corte e do exterior eram constantemente publicadas no jornal de Silva Serva, basicamente tiradas das publicações que chegavam ao porto, ou mesmo conseguidas por intermédio da tripulação dos navios que aportavam – jornais estrangeiros e cartas de leitores eram boas fontes de informação. As casas comerciais baianas tinham nas páginas da Idade d’Ouro, aliás, excelente publicidade, tudo em nome do progresso material (da elite) local.

No balanço, afinal, cabe dizer que, na apaixonada defesa dos conservadores interesses portugueses no Brasil, o pioneiro da imprensa baiana nem sempre teve a esperada fleuma, caindo na polêmica e no puro arranca rabo ideológico repetidas vezes contra seus antagonistas, incendiários liberais de ênfase emancipatória, como o Correio Braziliense. Editorialmente, a Idade d’Ouro procurava justificar a escravidão como um “mal necessário” ao bem do Brasil, mas totalmente dispensável na metrópole lusitana. Em 1817, abominou com todas as forças a Revolução Pernambucana, que aliás custou em noticiar. Por essas e outras, os publicistas que duelavam nas lides impressas contra a Idade d’Ouro lhe criaram um singelo apelido: Idade de Ferro.

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Embora a Gazeta do Rio de Janeiro fosse fonte de informações para a Idade d’Ouro, suas notas oficiais não podiam ser replicadas pela folha baiana, já que lesariam o monopólio da Impressão Régia. Em consequência, o periódico encabeçado por Silva Serva sob o olhar do conde dos Arcos vinha com mais espaço para artigos de opinião do que seu irmão áulico carioca, ou melhor, para artigos de determinado tipo de opinião. Adicionalmente, o segundo jornal oficial de nossa história abordava o comércio, a agricultura, as artes e a literatura, fora as efemérides baianas, temas que sequer saíam na Gazeta da corte joanina. As Variedades ou Ensaios de Literatura, primeira revista de caráter predominantemente literário lançada no Brasil, foi parida pelo mesmo Silva Serva em 1812, a partir da experiência na Idade d’Ouro; mas, sem assinantes, foi um fracasso comercial e logo fechou. É bem verdade que, no frigir dos ovos, o editor também se queixava da receptividade da própria Idade d’Ouro na Bahia em seu torrão natal, apesar de ser vendida em oito pontos da capital e também no sertão da capitania, como na região da Cachoeira, de longe a mais desenvolvida até aquele momento. Na corte, o livreiro Paulo Martins vendia exemplares da folha de Silva Serva, mas teve que suspender as remessas: encalhavam.

Apesar de suas dificuldades no mercado tipográfico, Silva Serva chegou a pedir ao regente Dom João financiamento para a montagem de prelos de madeira e treino de mão de obra, para expandir o empreendimento da imprensa áulica pelo país. Deu em nada. Tentou obter licença para cortar e exportar pau brasil, com a finalidade de financiar tal ambicioso projeto. Deu em nada também. Solicitou mesmo licença para instalar uma nova fundição de tipos para compor. Nada, nada e nada. Até que pintou um empréstimo de quatro contos de réis, conseguido em 1815 por meio da Junta da Fazenda, para investimento na empresa gráfica. Mais experiente no riscado, Silva Serva comprou novo material tipográfico na Europa, trazendo de Lisboa uma novidade: um mestre livreiro, disposto a treinar jovens interessados em sua arte. Na viagem, acumulou um apanhado de periódicos europeus, de onde se extrairia conteúdo para a Idade d’Ouro. Os esforços renderam algo: Silva Serva se tornou também editor de livros. Sua tipografia aumentou a oferta e a variedade de impressos para o escasso público leitor na Bahia colonial. Por muito tempo o único impressor baiano, o empreendedor chegou a anunciar seu trabalho no Rio de Janeiro, conseguindo boas encomendas graças ao salgado preço de tiragem da Impressão Régia – um sonho para qualquer capitalista avesso ao Estado, ou quase.

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Aos poucos, a Idade d’Ouro foi minguando. Em janeiro de 1819, o jornal anunciou que só seria publicado até a metade daquele ano, pela redução em seu número de assinantes. Em agosto daquele ano, ademais, Silva Serva bateu as botas, no meio de uma viagem à corte, no Rio. O estabelecimento tipográfico acabou herdado por sua viúva. A até então Typographia de Serva & Carvalho (sócio aparentemente minoritário do impressor) passou a se chamar Typographia da Viúva Serva & Carvalho, botando-se todos os pingos nos is. Em seguida, tendo-se em vista a promessa de suspensão na publicação e a turbulência administrativa do momento, o jornal parece ter realmente deixado de circular. Mas só por um tempo: novas edições saíram em 1821, quando a Idade d’Ouro do Brazil reapareceu como diário, para poucos meses depois se tornar, novamente, um bissemanário.

No campo das paixões políticas e dos interesses por trás de toda administração pública, a Idade d’Ouro, em sua segunda fase, era praticamente a mesma que a da primeira – talvez até um pouco mais combativa. Em agosto de 1820, a Revolução Liberal que eclodiu na cidade portuguesa do Porto, gerando a instauração das Cortes Constituintes em Lisboa já em 1821, parece ter deixado o jornal com a macaca: tornou-se ainda mais polêmico e aguerrido, num sentido a favor da Constituição, aliás. Liberalismos à parte, que ninguém se engane: seu apoio se dava em relação à nova Carta portuguesa, que ia contra os interesses da Independência que se desenhava com firmeza pelo Brasil; na prática, ela levava o florão da América de volta à condição de colônia, obrigando cada província deste lado do Atlântico a prestar contas diretamente a Portugal, e não ao Rio de Janeiro. Uma tentativa de esculhambar a coesão do novo império aos poucos articulado.

Em outubro 1822, denunciando o “embuste” que seria a Independência, a Idade d’Ouro viu a chegada de tropas portuguesas à Bahia com bons olhos, assegurando que elas não vinham contra o Brasil, mas para apoiar a Constituição do Reino de Portugal e a própria figura de Dom João VI, contra seu filho, o desobediente príncipe que há pouco passara a atender por Dom Pedro I, e contra os petulantes decretos do regente pirralho. A Idade d’Ouro chegou a lamentar que seu antigo desafeto, o Correio Braziliense, até então favorável à manutenção do laço entre Brasil e Portugal, passara a defender a loucura que seria a empreitada da Independência. Foi aí que o jornal perdeu a linha, atacando inclusive seu antigo benfeitor, o conde dos Arcos, que num piscar de olhos passou ao status de “inimigo”, com todas as letras.

Em seus últimos suspiros, a Idade d’Ouro foi publicada até 18 de abril de 1823, como ferrenho órgão de resistência lusitana à Independência, imposta em Salvador pelas tropas brasileiras. Ao lado do Semanário Cívico, o pioneiro da imprensa baiana morreu lamentando o sangue português derramado vilmente, na tomada da cidade. Mas a tipografia da viúva Serva, no fim das contas, continuou, firme e forte – fechou apenas em 1846, depois de várias mudanças de nome e de proprietário. Ao longo da década de 1820, se manteve como importante casa impressora, dando lume a boa parte da imprensa local: Minerva Bahiense, Espreitador Constitucional, Idade do Ferro, Echo da Patria, O Grito da Razão, Correio da Bahia, entre outros periódicos, foram tirados por lá. Mas essas, no entanto, já são outras histórias: que nasceram graças à Idade d’Ouro, ou a ela remetem.

Nelson Werneck Sodré, em sua “História da imprensa no Brasil”, destaca negativamente o servilismo da Idade d’Ouro do Brazil a Portugal. Mais: o historiador desce a lenha com firmeza no jornal. No entanto, Matías M. Molina coloca panos quentes no debate quanto ao papel que uma folha como a de Silva Serva exerceu, em seu tempo: “Em suas páginas encontra-se um rico caleidoscópio da sociedade”, onde expõem-se “hábitos, cultura, crenças, comércio e economia” da Bahia oitocentista. Acha mesmo que “para a Bahia foi melhor contar com um jornal do que ficar sem ele”. E arremata: “Como diz Nizza da Silva, os habitantes do Brasil na época viam o aparecimento das folhas periódicas como um benefício do qual tinham sido excluídos durante séculos”.

Explore o documento:

A Idade d’Ouro do Brazil

Marcos de Noronha e Brito, o oitavo conde dos Arcos

Documento manuscrito pelo governador Noronha e Brito, dirigido ao conde das Galvêas, e anexado junto ao envio de exemplares das gazetas produzidas na cidade da Bahia em 1811

Catálogo de livros à venda no estabelecimento de Silva Serva, na Rua de São Pedro nº 17, em 1811



Efemérides selecionadas | 14 de maio | 1811 – Início da circulação do periódico “Idade d’Ouro do Brazil”, primeira gazeta da Bahia, segunda do Brasil; e independência do Paraguai.