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Acervo da BN | A imprensa suburbana carioca no início do século XX

14 maio 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Cultura Suburbana, Imprensa Suburbana, Rio de Janeiro, Secult, Subúrbio Carioca, Subúrbios

No momento em que eram editados, não davam a entender que, no fundo, poderiam se dirigir à posteridade. Pelo contrário, pareciam mais do que calcados nas necessidades mais gritantes do agora. Pareciam ser simples jornaizinhos de âmbito local, repletos de efemérides, ofertas das casas comerciais dos arredores, programas de clubes e associações beneficentes de bairro, matéria da paróquia mais próxima, fofocas a respeito de quem estava mais risonho ou corado do que de costume durante a missa do domingo passado, e mesmo pleitos por melhorias de infraestrutura, estes devidamente dirigidos à prefeitura – que iam de simples pedidos por melhor iluminação nas ruas até súplicas por retirada de porcos e cavalos das já enlameadas vias públicas locais. Estamos, afinal, num perfeito cenário de romance de Lima Barreto: o subúrbio carioca, bem na virada entre os séculos XIX e XX, tempo de muitas mudanças tanto na cidade quanto no país. E, sim, caro leitor, exporemos hoje aquilo que, atualmente, se faz valioso conjunto documental a respeito de como determinadas práticas sociais – sobretudo aquelas de engajamento popular, urbanidade e progressos material e moral – se davam em comunidades rudimentares, relegadas pelo poder público, no passado (e talvez ainda hoje). Prato cheio para pesquisadores, cá apresentamos 15 integrantes da imprensa suburbana carioca do início do século XX, presentes em nossa Hemeroteca Digital e organizados cronologicamente. Foi um tipo de imprensa efêmero, criado aos poucos, aqui e ali, com dificuldades, em momentos em que, pelos deslocamentos provocados pela urbanização da capital, o Rio de Janeiro passava a ter, forçosamente, outras feições. Ao fim do século XIX, com o advento da República, começou um verdadeiro boom de jornais de bairro pela cidade – atingindo mesmo (ou sobretudo) os então considerados rincões mais distantes do Centro, territórios muitas vezes de “roça”, sub urbanos, onde tudo era penoso e precário. Como eram suas associações culturais e de filantropia? Como seus habitantes viviam? Eles dialogavam com as autoridades? Até que ponto tais jornais refletiam a economia e a urbanização dos bairros suburbanos? Tinham caráter religioso, ideológico ou comercial, ou quem sabe tudo junto e muito mais? E o que é, de fato, o subúrbio? Estudiosos do subúrbio, contemplem: essas e outras perguntas podem, talvez, ser respondidas a partir da leitura dos seguintes periódicos.

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O Suburbano – Orgam dos interesses locaes (1900)

Dirigido por Antônio Hilarido da Rocha, Manoel Cândido da Silva Castro, Antonio de Mattos Ferreira e Pio Dutra da Rocha, O Suburbano foi um tabloide engajado nos interesses do bairro do Zumbi, na região administrativa da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro (RJ). Lançado em 1º de março de 1900, circulou em intervalos quinzenais, mas, possivelmente, só até sua edição nº 19, de 1º de dezembro daquele ano. Propriedade da firma A. Rocha & Cia., possuía quatro páginas por edição, impressas nas oficinas da Imprensa Gutemberg, no nº 16 da Rua dos Andradas, no Centro carioca. Apesar de sua curta duração, chegou a ter planos de assinaturas, semestrais ou anuais, aos preços de 4 mil ou 6 mil réis, respectivamente.

Em sua edição de lançamento, O Suburbano se dizia apartidário, voltado apenas ao progresso da Ilha do Governador. Em suas páginas,

Nenhum grupo partidário achará (...) guarida para defender seus ideaes, salva na secção paga e com a competente responsabilidade. Tratar do progresso da Ilha do Governador, pedir a attenção dos poderes competentes para suas necessidades, ser emfim um órgão dos interesses de toda a população insulana que, pode-se dizer, luta presentemente com todas as difficuldades; – eis o seu fim, que julgamos muito nobre e muito sufficiente para sua sustentação. (...) Com effeito, a 10 ou 12 kilometros da cidade do Rio de Janeiro, é esta ilha um dos melhores arrebaldes: – possue optimas praias para banhos, é constantemente ventilada e no tempo das maiores epidemias de febre amarella ou varíola, quase sempre ella fica immune. (...) É pois provável que um jornal aqui fundado desperte o interesse por este lugar digno de ser comtemplado como a formosa Ilha de Paquetá. Se O Suburbano for avante, será uma glória para nós, insulanos, e talvez consigamos, ainda que paulatinamente, o engrandecimento da Ilha do Governador; se naufragar, ficar-nos-há a consolação de termos feito pelo nosso bairro tudo que humanamente foi possível.

Em suas duas primeiras – e talvez únicas – edições, O Suburbano veio com textos informativos a respeito da Ilha do Governador, curiosidades históricas, reivindicações voltadas à utilidade pública local (escolas, saúde pública, infraestrutura, questões quanto à fiscalização da pesca na ilha, abusos de autoridade e melhora no diálogo com o poder público, especificamente), questões concernentes à administração municipal carioca em geral, efemérides (incluindo uma nota, em sua edição nº 2, de 15 de março de 1900, que aponta a posse do médico Arthur Magioli como inspetor escolar da Ilha, substituindo Olavo Bilac, transferido para outro bairro), ocorrências policiais, informes voltados à área comercial local (sobretudo a pesca), movimentação cultural e carnavalesca na Ilha, indicadores, aforismos e artigos com ensinamentos morais, folhetim (“Uma aventura”, por Faustino Xavier de Novaes), versos, anedotas, transcrições de outros periódicos ou de pequenos trechos de obras de grandes autores, obituários e aniversários, cartas de leitores na seção “A Pedido”, anúncios publicitários, entre outras coisas.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 1º de março de 1900, ao nº 19, ano 1, de º de dezembro de 1900.

O Echo Suburbano – Publica-se aos sabbados (1901)

Propriedade de Ernesto Nogueirol, que também o redigia, O Echo Suburbano foi um tabloide semanal que circulou no Rio de Janeiro (RJ) entre 3 de agosto e 26 de outubro de 1901, num total de 12 edições. Foi um dos diversos representantes da imprensa suburbana carioca editada entre o fim do século XIX e o início do século XX, sendo voltado, sobretudo, aos interesses do bairro de onde era redigido, Engenho de Dentro. Sua administração e sua redação funcionavam no nº 22 da Rua Dr. Manuel Victorino, sem tipografia própria, algo que, segundo o expediente do jornal, fazia com que sua periodicidade fosse irregular: embora semanal, o jornal não tinha dia fixo para circular, saindo, de início, aos sábados, conforme seu próprio subtítulo anunciava, mas, em seguida, caindo na irregularidade. Impresso provavelmente pela Papelaria Leandro, no nº 74 da Rua do Ouvidor, e editado com “parcos recursos”, aparentemente depois que seu proprietário fora demitido de um emprego nas Estradas de Ferro Central do Brasil (conforme textos na terceira página de todas as edições do jornal), o periódico era vendido avulsamente por 100 réis, com assinaturas anuais, semestrais e mensais a 5 mil, 3 mil e 500 réis, respectivamente. O Echo Suburbano de Ernesto Nogueirol não deve ser confundido com uma folha homônima, editada cerca de dez anos depois por José Cardoso, no bairro de Madureira.

Em seu texto de apresentação, O Echo Suburbano firmava que

(...) tomando o mais modesto dos lugares entre a imprensa, espera representar o mister do soldado designado para sentinella avançada afim de dar alarma a aproximação do inimigo; e como taes serão considerados: – o abuso da força contra a fraqueza, da mentira contra a verdade, da opulencia contra a miseria, do mal contra o bem, do vicio contra a virtude, do poder autoritário, emfim, contra os seus concidadãos. Fora disto O Echo Suburbano não tem programma: o seu lemma será a deffesa dos que precisarem d’ella. Banindo de suas columnas a política, não deixará no entretanto de emittir a sua opinião quando for preciso.

Em linhas gerais, O Echo Suburbano vinha com notícias e curtos informes de utilidade pública local, reflexões e questões de interesse das classes trabalhadoras, informações quanto à movimentação de clubes e agremiações suburbanas, reivindicações pontuais a respeito de falhas infra estruturais nos subúrbios, denúncia de abusos cometidos pela direção das Estradas de Ferro Central do Brasil, notícia de mobilizações de comerciantes suburbanos para a resolução de problemas, questões de higiene e de segurança públicas, crônicas, versos, artigos sobre espiritismo, homenagens, cobertura de festas e eventos locais, publicidade, indicadores, enigmas, entre outras coisas, como folhetins: “A velha da mantilha”, do próprio Ernesto Nogueirol, e “Dulce”, de P. P. de Miranda.

Alguns dos colaboradores literários de O Echo Suburbano foram Julio Camisão, F. P. de Carvalho, J. P. Maia, entre outros, em geral, aparentemente, autores moradores dos subúrbios. Em outro plano, no expediente de suas edições, o jornal avisava: “São nossos agentes: viajante nos Estados do Rio, Minas e S. Paulo o sr. Hippolyto Pattoret Dorange, e em Santa Cruz, Guaratyba, Itaguahy e suas adjacências o sr. Manuel Pinto Martins”. Adicionalmente, eram enumerados como representantes de O Echo Suburbano Antonio Augusto Maia Maciel, Antonio Augusto de Ferreira França Junior, Alfredo Martins, João Pedro Máximo Cordeiro, Thomaz Augusto, Joaquim Delamare, A. Alcantara, Alfredo Gomes da Silva, Reginaldo Gomes da Silva, Arthur Carlos de Oliveira, atuantes “junto ás sociedades e corporações para cujas reuniões formos convidados”. O jornal julgou necessário citá-los como precaução, já que “diversos indivíduos tem abusado do nosso nome para penetrarem em várias sociedades”.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 3 de agosto de 1901, ao nº 12, ano 1, de 26 de outubro de 1913.

Progresso Suburbano – Orgão noticioso, recreativo e litterario (1902 – 1910?)

Com escritório e redação no nº 15 da Rua Dona Maria, no bairro carioca da Piedade, o Progresso Suburbano foi um periódico quinzenal de cultura e variedades, voltado aos interesses e ao melhoramento da zona suburbana do Rio de Janeiro (RJ), sobretudo no âmbito comercial. Lançado em 2 de março de 1902, teve vida curta, sendo extinto em sua 15ª edição, de 24 de outubro do mesmo ano. De início, Luiz José de Vasconcellos era seu redator-chefe, com A. Pinto da Costa como redator-gerente e Manoel Marques Balbino como redator-secretário, este somente até o nº 4, de 16 de abril de 1902. A partir da 7ª edição do jornal, de 4 de junho de 1902, F. Barreto P. Pinto passou a ser identificado em expediente como o detentor do cargo anteriormente de Balbino. O fim de Progresso Suburbano seu fim deu-se pela fusão do jornal com outra folha, O Parlamentar, de Pedro Napoleão Carlos de Azevedo; antes disso, Manoel Balbino havia saído de sua redação para editar temporariamente o jornal Commercio Suburbano, de vida efêmera.

Trazendo notícias e notas opinativas, textos denunciativos de descaso das autoridades para com o subúrbio carioca em geral, novidades e entretenimento na zona em questão (envolvendo clubes e demais agremiações locais, por exemplo), efemérides, informações de utilidade pública, curtos informes do interior do estado ou de fora do Rio de Janeiro, prosa, poemas, coluna social, folhetim, máximas, charadas, variedades, anúncios, indicadores de serviços, entre outras coisas, Progresso Suburbano se apresentava da seguinte forma, no editorial de sua edição inaugural:

O Progresso Suburbano vem pugnar pelos interesses da população dos subúrbios, dará o grito de alarma todas as vezes que for necessário para despertar as nossas autoridades e pôl-as alerta. Procuraremos por meio de publicações, tornar bem conhecido o nosso commercio suburbano, afim de lhe dar maior impulso e desenvolvimento para que possa nivelar-se ao do centro commercial. Não trataremos de política; procuraremos deleitar nossos leitores com boas poesias, contos amenos, sciencias, litteratura e diversões. Eis o nosso programma.

Além do ressaltado, em determinadas ocasiões Progresso Suburbano abordou assuntos morais, religiosos, educacionais, de saúde, de segurança pública e de ordem trabalhista – especificamente de interesse do proletariado em geral. Alguns dos colaboradores do jornal foram Luiz Nóbrega, Symphronio Cardoso, Bento Ribeiro Júnior, Raul A. de Vasconcellos, J. Masques da Silva Cardoso, W. Barata Monteiro, Miguel Caldas, Vicente Avellar, Eduardo Magalhães, Cândido A. Pereira, L. E. Júnior, Pedro Napoleão Carlos de Azevedo, entre outros.

Vendido avulsamente a 100 réis, com assinaturas semestrais a 3.000 réis, Progresso Suburbano era impresso na Typographia A. Gerard, no nº 17 da Praça da República, e vinha em edições de quatro páginas, diagramadas em quatro colunas. Sua tiragem chegou a bater a marca de 3 mil exemplares por edição. Seus pontos de venda eram as estações de trem do Méier, da Piedade, do Engenho Novo, de Cascadura, e da Central do Brasil.

Progresso Suburbano despediu-se da seguinte forma de seu público leitor, em nota “ao público e aos nossos assignantes” publicada na primeira página de seu nº 15, de 24 de outubro de 1902:

Será este o último número do nosso jornal sahindo com este título, pois resolvemos dar maior expansão ao nosso programma, que até o prezente se achava circumscripto á zona suburbana. Resolvemos fazer fusão com a empreza jornalística O Parlamentar, que sahirá no dia 6 de novembro próximo, sob a direcção do distincto moço o Sr. Napoeão de Azevedo sendo semanal a sua publicação. (...) Por accordo feito com os nossos collaboradores elles passarão a prestar seus relevantes serviços nas columnas do nosso successor; assim como declaramos que os nossos compromissos com os assignantes serão satisfeitos pelo O Parlamentar, restando-nos agradecer as gentilezas com que fomos cummulados pela imprensa e pelo povo.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 2 de março de 1902, ao nº 15, ano 1, de 24 de outubro de 1910.

Commercio Suburbano – Tudo pelo povo (1902)

Redigido por Manoel Marques Balbino, seu proprietário, contando com Benedicto da Fonseca como secretário, Commercio Suburbano foi um órgão da imprensa suburbana do início do século XX. Lançado em 15 de maio de 1902 no bairro da Piedade, com sede inicial ao nº 3 da Rua Amazonas, seu empreendimento se deu a partir da saída de Balbino de outro jornal do mesmo gênero, e do mesmo bairro: o Progresso Suburbano, lançado no início de março de 1902. O novo jornal de Balbino foi, de início, um quinzenário, mas, logo após sua fundação, passou à periodicidade semanal, com tiragens de 5 mil exemplares aos sábados. Engajado no progresso material e nos interesses de comerciantes locais, englobando não só a Piedade, mas do subúrbio em geral (especialmente Cascadura, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Inhaúma, Bonsucesso e Jacarepaguá), em linguagem crítica e sincera, Commercio Suburbano dava destaque, ainda, ao cotidiano da colônia portuguesa local, comumente empregada no comércio, e a assuntos de interesse da classe operária. Sua edição se deu ao menos até seu nº 6, de 15 de julho de 1902, ocasião em que, em expediente, revelava ter estabelecido sua redação no nº 336 da Rua Goiás, também na Piedade. Vendido avulsamente por 100 réis, o jornal podia ser adquirido por assinaturas trimestrais, semestrais ou anuais, aos preços de 4 mil, 6 mil ou 10 mil réis, respectivamente.

Em sua edição de lançamento, Commercio Suburbano publicou um editorial de apresentação, assinado por Manoel Marques Balbino, que expunha o seguinte:

Apresentamo-nos (...) a esse publico intelligente, digno e independente, particularisando o commercio, essa classe de trabalhadores infatigáveis, cuja posição, por melindrosa em sua natureza, requer o maximo critério, a mais elevada consideração. (...) Deixamos, mui voluntariamente, e de commum accordo a parte honrosa que, de modo immerecido, occupamos n’O Progresso Suburbano, para levantar nossa tenda á sombra do Commercio Suburbano que, dia a dia, se desenvolve tornando-se da Cidade do Rio de Janeiro, uma poderosa parcella cuja importância, em futuro muito próximo, pesará consideravelmente nos seus destinos. Merece-nos uma attenção especialmente a concurrencia intelligente do publico e por isso aceitamos todos os trabalhos que estiverem na altura da dignidade do pessoal, preferindo sempre os que feriram o escopo do nosso programma – O Commercio Suburbano. Não somos exclusivistas; incluímos, no numero de nossos cuidados, os dignos operários moradores nesta área immensa e, em geral, os que soffrem pela prepotência de seus superiores ou pela inveja dos inúteis dos inválidos moraes. Será nosso jornalsinho imparcial, noticioso, recreativo, proporcionando a seus amáveis leitores, e gentis leitoras, uma pequena distracção com que minore as agruras da vida, ou de tréguas á preocupação com os negócios.

Em suas seis primeiras edições – talvez a totalidade do periódico –, Commercio Suburbano publicou sobretudo reivindicações, queixas, reflexões e informes gerais voltados à utilidade pública local, no tocante à educação, saúde pública, infraestrutura, degradação do espaço público em decorrência do descaso das autoridades, estabelecimento de guardas noturnas, coleta de lixo, questões ligadas à Estrada de Ferro Central do Brasil, ocorrências policiais, destaques e informes voltados à área comercial local, grêmios literários e artísticos e sociedades musicais em proveito da movimentação cultural nos bairros do subúrbio, clubes operários locais (como a União Operária do Engenho de Dentro), animais perambulando livremente pelas ruas, conduta censurável de certos moradores de Piedade, falta d’água, avisos à praça, etc. Em segundo plano, o jornal dava grande destaque à poesia e a alguma literatura em prosa, com a publicação de trabalhos de escritores como Jayme Bahia, Luiz José Vasconcellos, Sarah Rezende, Candido A. Pereira, J. Marques da Silva Cardoso, Rubião Diniz, Manoel d’Abreu, F. F. da Silva Rodriguez, Lino Andrada de Almada, Virgilio Luso, entre outros, anônimos. Por fim, Commercio Suburbano vinha ainda com efemérides, textos voltados à classe operária, versos, anedotas, charadas, visitas de figuras ilustres a Piedade, palpites para o jogo-do-bicho, cartas de leitores, felicitações e obituários, ensinamentos morais, curiosidades locais, indicadores e anúncios publicitários, entre outras coisas.

Além de seus regulares colaboradores literários, Commercio Suburbano contava com Jacintho José d’Aquino, Antônio de Paiva Britto e Antonio Alves de Moura, representantes do jornal em Irajá, Inhaúma e Jacarepaguá, respectivamente.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 1º de 15 de maio de 1902, ao nº 6, ano 1, de 15 de julho de 1902.

A União Operária – Orgão da “União Operária do Engenho de Dentro” (1904 – 1905)

Lançado no subúrbio do Rio de Janeiro (RJ) em uma edição única, não numerada, em 1º de maio de 1904, em comemoração ao Dia do Trabalho, A União Operária foi um tabloide político e trabalhista editado em defesa dos interesses do proletariado, pela União Operária do Engenho de Dentro (UOED), então presidida por Antonio Augusto Pinto Machado, mas fundada em 14 de julho de 1899, com sede no nº 3 da Rua Dr. Niemeyer. De início, sua editora e redatora, aparentemente, foi Elisa Scheid, associada e relatora da comissão de redação e instrução da UOED. Além da edição única de 1º de maio de 1904, o jornal chegou a lançar outras duas no ano seguinte, os números 1 e 2, de 8 e 22 de outubro de 1905, ambos com algumas diferenças da edição original, rodada em teste: ambas as edições tardias, vinham com o subtítulo “Orgão da ‘União Operária do Engenho de Dentro’ e do ‘Partido Operário Independente’”, fundado em 19 de março de 1905, no nº 4 da Rua Aguiar, em Cascadura, e presidido pela mesma Elisa Scheid. A primeira edição de 1905 aparecia com Scheid e Pinto Machado sinalizados em expediente como redatores do jornal, contando com Benjamin Moysés Prins como responsável financeiro, mas, a segunda – e aparentemente derradeira do periódico – vinha só com o nome do presidente da UOED. Embora a edição de teste de 1904 tenha vindo sem indicativos de periodicidade e sem preço de capa, as de 1905 sinalizavam intervalos quinzenais de edição, custando, avulsamente, 100 réis – e mesmo sem terem circulado por muito tempo, possuíam planos de assinatura anual, ao preço de 4 mil réis para moradores da capital federal e 5 mil réis para os demais estados. Segundo uma nota na edição nº 1 de 8 de outubro de 1905, A União Operária nascera a partir do momento em que a UOED passou a ser proprietária do jornal O Trez de Abril, extinto, na ocasião.

Crítico, libertário e reivindicativo, A União Operária veio a lume, em 1904, em edição de oito páginas, impressa pela Typographia Silva Ferreira & Cia., no nº 16/18 da Rua Nova do Ouvidor. Publicava, sobretudo, análises de conjuntura e textos de incentivo à luta operária por melhores condições de trabalho (e de vida, em geral), normalmente no tocante à educação do proletariado. Adicionalmente, publicava discursos e conferências da diretoria da UOED, bem como informes a respeito da entidade, entre outras coisas. Alguns de seus colaboradores – que sobretudo mandaram cartas de saudação à União Operária na edição inicial de 1º de maio – foram os associados Appolonia Thereza Leite da Silva (bibliotecária da UOED), Antonio Alves de Carvalho (alfaiate e agente de informações da UOED a sócios residentes no interior), César Augusto Ferreira (pedreiro, representante da união “na pedreira de S. Diogo”), Deolinda Cardoso (sócia moradora de São Geraldo, em Minas Gerais), Benjamin M. Prins (primeiro orador oficial da UOED), Carlos Fontella (segundo orador), Euzébio de Sant’Anna e Silva (representante em Porto Novo do Cunha, no atual município fluminense de Além Paraíba), Custodio Scheid (representante na “Estrada de Ferro Sapucahy”), Appolinario Martins de Oliveira (pintor, tesoureiro da UOED), Joaquim José Rodrigues (vice-presidente da associação em 1904), Damásio Gomes da Silva (presidente do Centro Operário de Campos dos Goytacazes), Victor Américo Nunes, Ernesto Godinho, José Rodrigues da Silva, Orlando Fausto, João Serapião Palm, Francisco Nunes Lobo, Pedro Gonçalves Maia, entre outros. Nessa edição de 1904, A União Operária se apresentava da seguinte forma:

Tudo que se apurar com este jornal é em benefício das victimas da secca do Norte. As despezas de impressão são á custa da “União Operaria do Engenho de Dentro”. Cada um dará o que quizer. A “União Operaria do Engenho de Dentro” é uma associação exclusiva de operários e operarias, sem distinção de nacionalidades (...).

As edições de 1905, por outro lado, davam mais ênfase à publicidade do Partido Operário Independente, com artigos de mobilização classista destacando a importância da articulação dos trabalhadores para finalidades eleitorais – sem deixar de lado textos sobre a necessidade da União Operária e de entidades afins, reivindicações para mais moradias populares no Rio de Janeiro, análises de movimentos grevistas, denúncias das condições de vida do operariado, “Máximas e reflexões moraes”, “Scenas da vida operária”, versos, destaques da imprensa operária, natalícios e anúncios publicitários (incluindo a propaganda das “Escolas Operárias Elisa Scheid, “em favor dos alumnos pobres”, mantidas na sede de UOED). Ambas as edições vinham com quatro páginas e formato 35 x 25 cm, impressas pela Companhia Litho-Tipographia, no nº 55 da Rua do Lavradio.

V. de Mello, Amélia M. da Rocha, Benjamin M. Prins e E. Faria de Souza foram alguns dos colaboradores das duas edições, majoritariamente redigidas por Elisa Scheid e Pinto Machado. Ambas as edições de 1905 de A União Operária traziam, em suas páginas 4, a relação completa dos membros da diretoria da União Operária do Engenho de Dentro e do Partido Operário Independente, este, composto apenas de Elisa Scheid na presidência, César Augusto Ferreira na vice-presidência e Antonio Augusto Pinto Machado na secretaria geral.

Fontes: edição não-numerada de 1º de maio de 1904 e edições nº 1, ano 1, de 8 de outubro de 1905, e nº 2, ano 1, de 22 de outubro de 1904.

O Suburbio – Semanario dos interesses do povo (1904 – 1905?)

O Suburbio foi um dos diversos jornais da imprensa suburbana do Rio de Janeiro (RJ) do início do século XX, cobrindo a região do atual Grande Méier. Lançado em 2 de julho de 1904, circulou, provavelmente, até seu nº 33, de 25 de fevereiro de 1905, como propriedade de J. Vigier & Cia., dirigido por Américo de Albuquerque e com Xavier Pinheiro como secretário de redação e Guilherme Tell da Silva como gerente comercial. Sua experiência, aparentemente, inspirou o lançado de outro semanário chamado O Suburbio, também do Méier, editado, entretanto, como propriedade de Xavier Pinheiro, também seu redator, entre 27 de julho de 1907 e 2 de setembro de 1911, sempre com o mesmo diretor (Américo de Albuquerque, todavia, foi colaborador da nova folha, que foi mais longeva). Medindo cerca de 55 x 35 cm, com quatro páginas por edição, O Suburbio de J. Vigier e Américo de Albuquerque tinha redação instalada inicialmente no nº 2B da Rua Lucídio Lago, no Méier, mudando-se, posteriormente, para o nº A-2 da Rua Carolina Meyer. Seus exemplares eram vendidos avulsamente por 100 réis, com assinaturas trimestrais e semestrais ao preço de mil ou 1,5 mil réis, respectivamente.

Em linhas gerais, O Suburbio tratava de assuntos caros aos moradores do subúrbio e à classe operária carioca: focava assuntos relativos (muitas vezes em postura reivindicativa) ao desenvolvimento do comércio e da infraestrutura locais, sem deixar de abordar instrução pública, agremiações culturais e filantrópicas de bairro, efemérides suburbanas, literatura em prosa e verso produzida por autores suburbanos, postura das autoridades quanto aos melhoramentos na região de interesse, etc. Seus redatores foram Vital Fontenelle, Fabio Luz, Ricardo de Albuquerque, Júlio Camisão, Silva Nunes, Patrocínio Filho e F. Pinheiro de Carvalho. Ainda assim, o jornal anunciava ter um considerável corpo de colaboradores regulares: Elisa Scheid (da diretoria da União Operária do Engenho de Dentro, fundadora do Partido Operário Independente, estabelecido em 19 de março de 1905, e uma das editoras do órgão suburbano A União Operária), Guimarães Passos, Lima Campos, Ennes de Souza, Curvello de Mendonça, Luiz Murat, Pinheiro Viegas, Sergio de Carvalho, A. de Oliveira Menezes, Alfredo Soares, Dr. Vinelli, Solfieri de Albuquerque, Monteiro de Barros, Cordeiro Gitahy, Henrique Silva, Luiz Edmundo, Luiz Caetano de Oliveira, João Barboza, Pedro Couto, Luiz dos Reis, Cândido Jucá e João Paulo da Rocha.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 2 de julho de 1904, ao nº 33, ano 2, de 25 de fevereiro de 1905.

O Suburbio – Jornal independente, noticioso, literário e consagrado aos interesses locaes (1907 – 1911?)

Lançado no Rio de Janeiro (RJ) ao início de julho de 1907, provavelmente no dia 6, O Suburbio foi um dos representantes da imprensa suburbana carioca do início do século XX, válido pela região do atual Grande Méier. Dirigido e redigido pelo seu próprio dono, Xavier Pinheiro, que contava com Cruz Sobrinho como secretário e Isaías de Assis como gerente comercial, o jornal remontava a uma publicação homônima que circulou no Méier entre 2 de julho de 1904 a 25 de fevereiro de 1905, propriedade de J. Vigier & Cia., dirigida por Américo de Albuquerque e com Xavier Pinheiro como secretário de redação: O Suburbio, um “Semanário dos interesses do povo”. A folha lançada por Pinheiro em 1907, que não deixa de ser herdeira do jornal comandado por Albuquerque, todavia, também era um semanário, publicado aos sábados, contando, aliás, com Albuquerque em seu corpo de colaboradores. No entanto, a publicação originada em 1907 circulou, a rigor, por mais tempo: aparentemente, O Suburbio de Xavier Pinheiro circulou até sua edição nº 209, de 2 de setembro de 1911, sempre com o mesmo diretor.

A primeira redação d’O Suburbio funcionou no nº 1 da Rua Matheus, perto da estação de trem do Méier, então sob a responsabilidade das Estradas de Ferro Central do Brasil – mas, na virada para 1908, o endereço do periódico passou a ser o nº 29 da Rua Dias da Cruz. Embora não explicitasse isso em suas páginas, O Suburbio provavelmente era impresso por um de seus anunciantes: a Papelaria Brasil, de Costa & Pereira, localizada no nº 80 da Rua da Quitanda. Medindo 55,5 x 37 cm, seus exemplares, de quatro a oito páginas, eram vendidos por assinaturas trimestrais ou anuais, ao preço de 3 mil ou 5 mil réis, respectivamente.

A linha editorial de O Suburbio era variada, abordando, sobretudo, efemérides suburbanas, requisições por melhoramentos na infraestrutura dos subúrbios, política nacional e seus desdobramentos na realidade suburbana e cultura. No âmbito da política nacional, cabe ressaltar que, em 1909, em pleno mandato de Nilo Peçanha, o jornal se mostrava imensamente favorável aos que ainda seriam presidente da República: além de tomar partido da candidatura do marechal Hermes da Fonseca ao Palácio do Catete em uma série de artigos assinados por Joaquim Rocha, fazia ainda o elogio ao então presidente de Minas Gerais, Venceslau Brás, que seria, a partir de 1910, vice do militar, antes de iniciar seu próprio mandato à frente do país. Eleito Hermes da Fonseca, o periódico continuava em sua defesa, atacando sobremaneira o líder opositor Ruy Barbosa. Outra figura da República Velha vista com bons olhos pelo semanário era Campos Salles.

Independentemente de suas crenças políticas governistas, que ecoavam na forma como o jornal desenvolvia suas críticas ao abandono vivido nos subúrbios cariocas, O Suburbio trazia, em suas páginas, crônicas, artigos, notícias de ordem política, informes de utilidade pública, poemas e lundus, retratos de autoridades e figuras ilustres no campo da cultura, indicadores e informes de interesse comercial local, assuntos voltados ao público operário, textos transcritos de outras publicações, folhetim (“O castello da morta”, um “romance passional” de Charles Merouvel traduzido especialmente para o jornal), humor, ilustrações, anúncios, cartas a pedidos e pronunciamentos oficiais, etc. Num segundo momento, o periódico passou a contar também com uma seção infantil e uma seção esportiva. De qualquer maneira, pontualmente, o semanário tratou de eleições para juntas comerciais locais (onde se defendia a candidatura de Carlos de Suckow Joppert no pleito de 4 de setembro de 1907), assuntos ligados aos transportes pelas Estradas de Ferro Central do Brasil ou pelos bondes da Light & Power, comentários sobre a administração pública em bairros específicos (às vezes fora do Grande Méier, e em geral favoráveis à gestão do então prefeito Souza Aguiar), vida religiosa local, cotidiano militar, noticiário policial, homenagens a figuras de importância para o subúrbio, agenda cultural, movimentação de clubes e agremiações culturais suburbanas, comentário a respeito de outros órgãos de imprensa, saúde pública, espiritismo, variedades, entre outras coisas.

Alguns dos redatores d’O Suburbio foram Américo de Albuquerque, Henrique de Magalhães, Ataliba Reis, Ricardo de Albuquerque, Joaquim Tanajura e Teixeira e Silva. Outros nomes também figuravam nas páginas do periódico, talvez como colaboradores: casos de Paganini Filho, Aristides dos Passos Costa, Noronha Santos, Horácio Ribalta, Almeida Júnior, A. Cardoso, Áurea Correa, Aurélio Polonio, Julio Dantas, Angelo Tavares, S. de Menezes, Lucas A. Boiteux, Joaquim Rocha, Paula Maria, Carlos Maul, frei João, Manoel do Paraizo (provavelmente um pseudônimo de um dos editores), Augusto de Menezes, Lacerda de Almeida, Julio Verim, Luiz da Gama, Luiz Rosa, entre outros. Isaías de Assis havia sido o primeiro gerente comercial da folha, em 1907, substituído no ano seguinte por Eduardo Magalhães; o cargo ainda ficaria com o redator Julio C. Braga em 1910. Em 1911, Rocha Pinto chegou a ser redator-secretário de O Suburbio, aparentemente por pouco tempo.

Fontes: edições do nº 4, ano 1, de 27 de julho de 1907, ao nº 209, ano 6, de 2 de setembro de 1911.

Tribuna Suburbana (1910)

Redigida do nº 87 da Rua Lopes, no bairro de Madureira, a Tribuna Suburbana foi um periódico vespertino de política e de pleito por melhoramentos na zona suburbana carioca, tendo ainda abordado assuntos variados ao longo de aparentemente sua curta existência. Lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 17 de janeiro de 1910, é possível que tenha circulado somente até sua 10º edição, do dia 28 do mesmo mês. Inicialmente, o acadêmico de Direito Raphael Henriques era seu diretor, com Antenor S. Pereira assinando como secretário e redator e Mário de Paula Fonseca como integrante prestigiado da redação ou como principal colaborador textual. Num segundo momento, já ao fim de janeiro de 1910, Henriques dividia a direção do órgão com A. Roméro, com Antenor Pereira ficando exclusivamente na secretaria e Herberto Roméro assumindo como redator – ademais, em expediente, nesse momento Maurício Barbosa aparecia como o gerente do empreendimento. A periodicidade do jornal pretendia ser diária, mas acabou sendo irregular.

Na página inicial da primeira edição da Tribuna Suburbana, a mesma se apresentava extremamente crítica e politicamente engajada: denunciando desde “os desordeiros que pululam” no subúrbio e os “exploradores políticos” que trabalham “ardilosamente para amarrarem a República ao carro da tyrannia militar”, o jornal preocupava-se com as eleições presidenciais marcadas para o março de 1910, fazendo explicitamente a defesa de seu candidato, Ruy Barbosa. Na edição seguinte, de 18 de janeiro de 1910, a Tribuna não só lamentava a morte do “grande diplomata” Joaquim Nabuco um dia antes, como atacava mais explicitamente o governo vigente de Nilo Peçanha, “este governo déspota”, que “dezeja organizar alguma manobra nas eleições de março”. Em editorial, tanto no nº 1 quanto no nº 2 a folha se apresentava da seguinte forma:

Teremos por objectivo a defeza intranzigente da República Civil; patrocinar ardentemente os interesses do povo, quando prejudicados violentamente pelo poder, trabalhar muito e muito pelo desenvolvimento material e intellectual da zona suburbana. Em synthese: queremos a liberdade para o povo, o desenvolvimento para a pátria.

Trazendo notícias e notas opinativas de teores políticos, textos denunciativos de descaso das autoridades para com o subúrbio carioca em geral, informes sobre novidades e entretenimento na zona em questão, efemérides, informações de utilidade pública, curtos informes internacionais (na seção “Telegrapho”), ilustrações, versos de troça (assinados pelo “Diabinho”), um folhetim (“O crime do médico”, de Paulo Rouget), anúncios, indicadores de serviços, entre outras coisas, as edições da Tribuna Suburbana podia ser assinadas por 14.000 ou 25.000 réis, por semestre ou ano, respectivamente. Cada exemplar vinha com quatro páginas, diagramadas em quatro colunas. A impressão do jornal se dava na Typographia da Luz, que funcionava em seu próprio endereço, na Rua Lopes.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 17 de janeiro de 1910, ao nº 10, ano 1, de 28 de janeiro de 1910.

Echo Suburbano (1910)

Lançado no Rio de Janeiro (RJ) em abril de 1910, Echo Suburbano foi um dos representantes da imprensa suburbana carioca do início do século XX, voltado, sobretudo, aos interesses do bairro de Madureira. Disposto em quatro páginas de 48 x 33 cm, era propriedade de José Cardozo, inicialmente com Manoel Simas como diretor, Silvio Simas como secretário de redação e Luiz Del Valle como “photogravador”. Sua primeira redação funcionou no nº 1 da Rua Araújo. Ao menos em 1911, sua periodicidade foi semanal, embora, em certos momentos, sua circulação, tenha se dado duas vezes por semana; neste mesmo ano, mais especificamente a partir de sua edição nº 178, de 31 de julho, tanto a sua direção passou dos Simas para Antonio Augusto Pinto Machado, com Victorino Tosta (que havia editado de outro efêmero periódico suburbano em Madureira, lançado em 28 de junho de 1911) como secretário, quanto sua redação passou a funcionar no local onde era impresso, no nº 105 da Rua Marechal Rangel. Echo Suburbano, afinal, circulou, pelo menos, até seu nº 269, de 8 de junho de 1913. Tal periódico não deve ser confundido com outro, editado cerca de dez anos antes por Ernesto Nogueirol, no bairro de Engenho de Dentro.

Vendido por assinaturas trimestrais de 2 mil réis, Echo Suburbano trazia, sobretudo, curtas informações de interesse local, reivindicações de melhoramentos urbanísticos no subúrbio e de melhoria nas condições de vida da classe trabalhadora (maior parte da população suburbana), indicadores comerciais, anúncios e serviços, movimentação em clubes e agremiações culturais locais (incluindo cinemas), literatura em prosa e verso, homenagens, curiosidades científicas, textos informativos com relação à política nacional ou acontecimentos no exterior, pensamentos e máximas morais. Como colaboradores ou redatores, assinaram textos no jornal nomes como Luciano Pedreira, Braz Correa Sampaio, entre outros. Em outro plano, alguns dos representantes do Echo Suburbano foram Emílio Sampaio, em “Corôa Grande, ramal de Itacurussá”; Arthur Paes Leme, “Nos subúrbios, até Engenho de Dentro”; Antonio Borges de Freitas, “Em Anchieta”; Bento Gonçalves de Souza, “Em Maxambomba”; e Manoel Felippe Thiago, “Em Santa Cruz”.

Fontes: edições do nº 160, ano 2, de 24 de abril de 1911, ao nº 269, ano 4, de 8 de junho de 1913.

Gazeta Suburbana – Semanario critico, litterario, noticioso, dedicado aos interesses da zona suburbana (1910 – 1920)

Lançada no Rio de Janeiro (RJ) em 8 de setembro de 1910, a Gazeta Suburbana foi jornal da imprensa suburbana carioca do início do século XX. Voltava-se, sobretudo, aos interesses do bairro de Todos os Santos, na Zona Norte do Rio, de onde era editado, mas abordava, na verdade, questões diversas também de Engenho de Dentro, Engenho Novo, Inhaúma, Piedade, São Cristóvão, Cascadura, Cachambi, São Francisco Xavier, Riachuelo e redondezas – como a área pertencente ao atual Grande Méier –, Olaria, Bangu, Encantado, etc. Com redação instalada no nº 52 da Rua José Bonifácio, o jornal foi, de início, propriedade de uma sociedade anônima, indicando apenas, em cabeçalho, que era administrado por Ernesto Mattoso, J. Luiz Anesi e Alcebíades A. Mello; no entanto, seus donos e seu endereço mudariam sucessivas vezes, ao menos até 25 de dezembro de 1920 – data da última edição do periódico consultada nesta pesquisa, momento em que J. R. Vieira de Mello assinava como o principal responsável pelo empreendimento. Sabe-se que entre 1883 e 1885 um outro jornal com o mesmo título, também representando Todos os Santos, também fora editado, mas, aparentemente, não existem relações entre este e a folha vinda a lume em 1910.

Na sua edição de lançamento, a Gazeta Suburbana apresentava seu programa da seguinte forma:

Com o progressivo augmento da população do Districto Federal, com o grande desenvolvimento do nosso commercio, os subúrbios, outrora abandonados e desprezados, tornaram-se ultimamente procurados e conhecidos. Tudo tem augmentado nos subúrbios: a população, o commercio, a industria. Tão grande é o desenvolvimento actual da zona suburbana que, quasi todos os jornaes diários, viram-se na necessidade de, ao noticiário geral, accrescentar um supplemento consagrado unicamente aos subúrbios. Apezar, porém, desde desenvolvimento patente, os subúrbios continuam desprezados da parte das auctoridades municipaes; emquanto a renda da Prefeitura é empregada em melhoramentos da zona urbana e dos arrebaldes chics, os subúrbios vivem no mais completo abandono. (...) Conscia de que tudo empenhará para ser útil ao povo suburbano, a redacção da Gazeta há de procurar convergir todas as energias, de que poder dispor, em proveito dos opprimidos.

Após uma primeira fase, quando a Gazeta Suburbana era editada pelo seu trio fundador, Ernesto Mattoso, J. Luiz Anesi e Alcebíades A. Mello, em seu nº 33, de 10 de maio de 1911, o periódico sinalizou mudanças: com o desligamento de Mattoso e Mello do empreendimento, sua redação passou a se instalar no nº 11 da Rua Dr. Bulhões, em Engenho de Dentro, ao passo que Silva Marques passou a ser indicado como seu redator-chefe, J. Luiz Anesi como redator-secretário, J. Augusto Anesi como redator-gerente e Annibal Passos da Costa como representante geral – na ocasião, o jornal anunciava ainda avanços, propagandeando que, dali em diante, teria suplementos ilustrados. Logo em seguida, Luiz Anesi seria o nome principal no expediente da Gazeta Suburbana, como diretor. Até que, na 46ª edição, de 15 de novembro daquele ano, momento em que a redação da folha já funcionava no Centro, na Rua da Carioca nº 44, o próprio Anesi publica aviso, explicando que, por motivos de força maior, se desligaria temporariamente do jornal, ficando, na ocasião, Eugenio Bethencourt da Silva e Luiz Madureira Barbosa à frente da publicação, então com D. Ruy como redator-chefe e Raul Segadas Vianna como fotógrafo. Ao fim da década de 1910, o periódico teria ainda outra configuração: com redação no Méier, no nº 13 da Rua Lia Barbosa, onde era impressa em tipografia própria, seus proprietários novamente se revelavam uma sociedade anônima, com Manfredo Liberal como redator-chefe. Logo depois passar a identificar seu endereço como o nº 13 da Rua Amaro Cavalcanti, em seu nº 515, ano 10, de 15 de novembro de 1919, a Gazeta Suburbana passou a ser propriedade de C. Costa, com J. R. Vieira de Mello como redator-chefe e Jarbas Lopes da Costa como agente comercial. Tal quadro mudaria quase um ano depois. No nº 557 do jornal, de 8 de setembro de 1920, o semanário já era propriedade de Vieira de Mello, também seu diretor, ficando Octavio Guimarães como seu gerente. O jornal se manteve assim ao menos até dezembro de 1920 – momento em que pode ter deixado de circular, embora isso não possa ser confirmado.

Vendida avulsamente por 100 réis, com assinaturas anuais ou semestrais custando, respectivamente, 5 mil ou 3 mil réis, a Gazeta Suburbana vinha, de início, em edições de quatro páginas, e formato tabloide. Sua tiragem, ao menos ao fim de 1910, era de cerca de 5 mil exemplares. Na virada das décadas de 1910 para 1920, tanto os preços das assinaturas quanto a quantidade de páginas do periódico, no entanto, dobraria.

Internamente, o semanário dava destaque sobretudo a crônicas e efemérides locais, articulações entre o mundo político e os interesses do subúrbio, atividades promovidas por agremiações e associações suburbanas (de essências variadas: artísticas, instrutivas, trabalhistas, de lazer ou filantropia), questões de infraestrutura, informes de utilidade pública (incluindo indicadores, serviços, meios de transporte e horários de bondes, missas e festas especiais, notas sobre melhoramentos urbanísticos, decretos e textos oficiais de interesse, etc.), literatura produzida por autores suburbanos, destaques do comércio suburbano, acontecimentos de vulto na política nacional, preocupações com relação à segurança e à saúde públicas, implementação de sociedades e clubes locais, notas informativas e cobertura de eventos culturais e festividades no subúrbio, reflexões sobre questões morais, destaques da alta sociedade e de grandes empreendimentos capitalistas cariocas, comentários e curiosidades, crítica teatral e agenda cultural, charadas, anedotas, homenagens, cartas de leitores, publicidade do comércio local, coluna social, publicações a pedidos, etc.

Alguns dos redatores e colaboradores literários da Gazeta Suburbana foram Moreira Guimarães, Alvaro Fontes, Nestor Guedes, Flavio Gontrand, Américo Albuquerque, Alfredo Nunes, Guilherme Pastor, Florencia Garien, Nerval Bernardes, Fernando Lage, Joanna Castellar, Max Gomes, entre outros.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 8 de setembro de 1910, ao nº 47, ano 2, de 30 de novembro de 1911; edições do nº 486, ano 9, de 5 de abril de 1919, ao nº 572, ano 11, de 25 de dezembro de 1920.

Jornal Suburbano (1911)

O Jornal Suburbano foi um dos efêmeros representantes da imprensa suburbana carioca da virada do século XIX para o século XX. Tabloide engajado nos interesses do bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), e, por extensão, nas demandas da classe operária carioca, tinha redação instalada no nº 10 da Rua Carolina Machado, com tipografia própria. Seu lançamento se deu em 28 de junho de 1911, e, ao que consta, pode ter circulado somente até sua segunda edição, do dia 8 de julho seguinte. Tinha Victorino Tosta como diretor, H. Dias da Cruz como redator secretário e José Cardoso como gerente (os três eram militares e faziam parte da agremiação conhecida como Centro Republicano de Irajá). Em expediente, o periódico vinha com a marca de “Apparece aos sábados”, tendo venda disponível por assinatura: as anuais custando 5 mil e as semestrais 3 mil réis. Seu fim se deu, provavelmente, porque Victorino Tosta passara a ser secretário de redação do Echo Suburbano, também de Madureira, propriedade de José Cardoso.

Em seu editorial de lançamento, o Jornal Suburbano expunha o seguinte, lembrando que, à época, Madureira pertencia à freguesia de Irajá:

Os que tomam a si redigir este semanário não trazem para a luta outra aspiração senão elevar e engrandecer a zona suburbana, notadamente a abandonada freguezia de Irajá, no seio da qual vivemos, nasceram nossos filhos e temos nossas famílias. Não trazemos programma Um programma não é uma obediência passiva, e nós não nos curvaremos a potentados, não applaudiremos senão o que merecer applausos, o que for bom e para o bem geral. Pobres, sem querermos mesmo obter grandes lucros da empreza que agora fundamos, reservamos o direito de dizer as cousas como as cousas são, sem peias do convencionalismo tacanho. Resta-nos esse consolo ao menos, a nós que vamos combater seriamente para que alguém tome a serio a existência d’esta parte dos subúrbios – Irajá, e toda a zona que se divide com o Estado do Rio.

Ao abrir sua edição nº 2, o Jornal Suburbano vinha com o texto inicial da coluna “A Situação”, sinalizada como a principal do jornal, que se propunha a analisar a conjuntura da administração do Rio de Janeiro de então, com seus desdobramentos à classe trabalhadora, maioria residencial em Madureira. Neste texto inicial (e talvez único, já que provavelmente o periódico não continuou sendo publicado depois do lançamento deste nº 2), dizia-se:

A situação para nós tem uma cor muito especial, muito differente, muito em contraposição aos modos de ver de quasi todos. Não somos apaixonados em demasia, não somos ligados aos altos e elevados que actualmente dominam, mas também não somos iconoclastas, eternos descontentes e atacantes. Mas, porque convivemos com a massa anonyma do proletariado, porque escutamos o pulsar do coração do povo, porque lhe conhecemos as aspirações e os anhelos, é que, parte desse povo soffredor que somos, poderemos naturalmente steriotypar o sentir dos que labutam e cooperam para a grandeza da nossa pátria. E dito ao que vem esta secção, entremos hoje a discutir um pouco o actual estado da Estrada de Ferro Central do Brasil. Porque muito veneramos e prezamos o actual director desta via férrea, o notável e benemérito engenheiro dr. Paulo de Frontin, é que nos sentimos perfeitamente á vontade em fallar com a franqueza que nos é natural, livremente, porque nunca solicitamos um favor ao illustre mestre da engenharia nacional.

Em suas duas primeiras – e provavelmente únicas – edições, ambas com quatro páginas, o Jornal Suburbano veio com textos reivindicativos com relação a problemas vividos em Madureira e a respeito de questões trabalhistas do operariado carioca, colocações a respeito da pedagogia e da instrução pública, pleitos às autoridades com relação à melhoria da segurança pública nos subúrbios, assuntos voltados ao desenvolvimento do comércio local, censuras ao acolhimento de “mulheres de vida alegre” em sociedades de amparo e instrução suburbanas, crônicas e efemérides locais, notas e curtos comentários a respeito de outros periódicos de circulação restrita, novidades em clubes e sociedades como o Centro Republicano de Irajá, felicitações, publicidade, entre outras coisas. Alguns de seus redatores ou colaboradores foram Orlando Marçal (“collaborador efectivo” e e “illustre presidente da Academia de Coimbra”), Pinto Machado, o professor Álvaro A. Domingues Gomes, Carlos Costa e Baptista Leal.

Fontes: edições nº 1, ano 1, de 28 de junho de 1911, e nº 2, ano 1, de 8 de abril de 1911.

O Suburbano (1912)

Lançado por Esdras de Moura Magalhães, seu proprietário, administrador e diretor editorial, O Suburbano foi um jornal do subúrbio carioca, editado do nº 79 da Rua Mathues Silva, no bairro de Inhaúma. Apenas seu nº 4 do ano 1, de 10 de maio de 1912, foi recuperado – uma edição em formato tabloide de quatro páginas, diagramadas em três colunas de texto –, impossibilitando maiores conclusões quanto a sua periodicidade, sua data certeira de lançamento e demais aspectos editoriais. O jornal contava com assinaturas semestrais, de 500 réis.

O nº 4 de O Suburbano trazia com destaque uma homenagem – bem como o retrato – ao responsável pela seção de teatro do próprio jornal, José da Silva Guedes. Adicionalmente, discutia uma polêmica envolvendo a Gazeta Suburbana e a administração do Cemitério de Inhaúma, entre ensinamentos morais cristãos, um texto em prosa de Santos Lima (“para a graciosa senhorita Izaura Bié”), a notícia de uma sessão cívica no Centro Alagoano (com a publicação de diversos integrantes do mesmo, militares), versos e outros textos poéticos, comentários a respeito de O Suburbano no restante da imprensa, listas de periódicos recebidos pela redação (onde, de acordo com o Diário de Notícias, Esdras Magalhães é apontado como figura bem conhecida do jornalismo suburbano), natalícios, publicidade do comércio local, entre outras coisas. Além do Centro Alagoano, o jornal publicava ainda notícias relativas aos clubes locais 4 de Novembro, Modesto Club Dramático, Pepinos Carnavalescos e Rezidentes da Piedade.

Fontes: edição nº 4, ano 1, de 10 de maio de 1912.

Revista Suburbana (1918)

A Revista Suburbana foi um modesto periódico lançado no Rio de Janeiro em 6 de julho de 1918, propriedade de J. R. Vieira de Mello. Editada no bairro do Engenho Novo, no nº 5 da Rua Barão do Bom Retiro, vinha com em média 16 páginas, custando inicialmente 200, depois 300 réis a edição. Editada com dificuldade, teve periodicidade irregular: depois do lançamento de seu nº 1, seu nº 2 veio a lume mais de dois meses depois, em 15 de setembro de 1918. Na ocasião, Vieira de Mello continuava sendo seu diretor, mas Costa & Mello passava a aparecer em cabeçalho como proprietário. Em seguida, o nº 3 foi lançado em 30 de setembro daquele ano, o nº 4 em 31 de outubro e o nº 5, o derradeiro, em 15 de novembro. Nestas apenas cinco edições, a revista abordou a vida no subúrbio carioca, destacando a situação de abandono de bairros e localidades periféricas, notadamente operárias e rurais, em relação ao poder público – fazia isso, aliás, sem deixar de prestar homenagens a figuras da classe política que pudessem ajudá-las, como o então prefeito Amaro Cavalcanti ou o engenheiro Paulo de Frontin. Esta Revista Suburbana não deve ser confundida com três publicações homônimas lançadas no Rio em momentos distintos: a primeira em 1906, no bairro do Méier, por Clemente & Cia., tendo Ferreira Júnior como redator; a segunda também no Méier, propriedade da firma Leão, Vianna & Cia., lançada em 1922, com apenas três edições; a terceira em 1933, por Levy Cerqueira, tendo circulado até sua 12ª edição.

Trazendo notas opinativas, perfis de autoridades, mensagens oficiais, versos, crítica literária, serviços, anúncios, fotografias, entre outras coisas, a Revista Suburbana abordava, sobretudo, mais ou menos sob o prisma da realidade suburbana carioca, assuntos de ordem política e econômica. Em segundo plano, focava-se questões de assistência social, a realidade da classe operária (na página “Pelo operariado”), necessidades infraestruturais do subúrbio, saúde pública, educação, literatura, eventos suburbanos, a ação de centros comerciais beneficentes e os chamados “centros republicanos”, acontecimentos no meio militar carioca, efemérides, variedades, entre outras coisas. Ao longo de suas edições, sob o título “Concessão suspeita”, a Revista Suburbana abordou supostas irregularidades envolvendo a concessão de um terreno na explanada do Morro do Senado à Cruz Vermelha Brasileira, para a construção de sua nova sede, a ser construída pelo empresário Pachoal Segreto.

Com relação ao restante da imprensa, a Revista Suburbana costumava demonstrar apreço pelo diário carioca O Paiz, muito por sua coluna voltada ao subúrbio. Por outro lado, criticava um jornal de linha ideológica distinta: o Correio da Manhã (ver edição nº 2, de 15 de setembro de 1918). Sálvio Dias, Mário Reis, Angelo Tavares, Leôncio Correia, Luciano Pedreira, Pinto Machado, Praxedes Costa, Olegário Tavares, Xavier Pinheiro, Eduardo Nazareno e Eduardo Magalhães foram alguns dos redatores, ou colaboradores, da Revista Suburbana.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 6 de julho de 1918, ao nº 5, ano 1, de 15 de novembro de 1918.

Revista Suburbana (1922)

A Revista Suburbana foi um periódico de pleito por melhoramentos na zona suburbana carioca e de assuntos variados. Ilustrado e com periodicidade irregular, foi lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 20 de agosto de 1922, editado pela firma Leão, Vianna & Cia., com base nº 158 da Rua Dias da Cruz, no bairro carioca do Méier, e teve, provavelmente, apenas três edições, tiradas com dificuldade, cada uma contando 20 ou 28 páginas. Cada exemplar da revista custava inicialmente 300 réis, depois 500 réis, com assinaturas anuais e semestrais a 15$000 e 8$000, respectivamente. Esta Revista Suburbana não deve ser confundida com outras três publicações homônimas lançadas no Rio em momentos distintos: a primeira em 1906, também no Méier, por Clemente & Cia., tendo Ferreira Júnior como redator; a segunda em 1918, propriedade de J. R. Vieira de Mello, editada no Engenho Novo, tendo circulado em apenas cinco edições; e a terceira em 1933, por Levy Cerqueira, que chegou a tirar 12 números.

No editorial da primeira edição da Revista Suburbana, a mesma se apresentava da seguinte forma:

A “Revista Suburbana”, modesto hebdomadário, surge hoje, num dos pontos mais adiantados dos subúrbios – o Meyer – núcleo humano de quasi uma vida á parte, em meio de uma grande quietude bucólica. (...) Nas suas columnas não terá guarida a vasia rhetorica dos que escalam as posições políticas por processos de fraude eleitoral nos pescaros da política. Todas as intrigas da politicalha, com suas innominaveis orgias e que tanto desprestigio tem trazido á nossa civilisação e deturpado o nosso systema representativo, não farão objecto de ponderação da nossa penna e serão excluídos com desdém. O nosso exame consistirá apenas no modo imparcial de estudar os candidatos que directamente possam aproveitar, pela sua correcção e ideas, os núcleos suburbanos. Entretanto, não abriremos mão do descortino de nossos pro-homens que se tenham elevado por seus méritos, acima do nível commum, honrando as sciencias, as lettras, as artes e a sã política.

Em paralelo, o mesmo texto ainda dá conta de seu programa: cobrar das autoridades a eficiente urbanização do subúrbio carioca:

Á desídia e a incompetência imperdoáveis dos poderes públicos municipaes, com raras excepções, cabem a responsabilidade desse crime contra a nossa incomparável belleza natural tão mal aproveitada, emmoldurando vivendas sem luz, sem espaço, sem ar ozonado, privados de exgoto e água, de sombras salutares, de jardins florestaes, sem enfim, o conforto da vida moderna, pittoresca e sã.

Pontualmente, a Revista Suburbana publicou, em seguida, “Cousas que o povo suburbano não deve esquecer”: além do descaso geral do poder público para com a região em questão e da “desmoralisação” do Conselho Municipal, “A falta de calçamento e illuminação e a falta de esgoto nos subúrbios da Central e Leopoldina” e o “desvio das rendas dos subúrbios que é applicada em obras sumptuarias nos bairros chics da cidade, emquanto a zona suburbana precisa de melhoramentos uteis e necessários”. Por outro lado, apesar do teor da apresentação do periódico, e apesar de sua coluna “Vida operária”, que tratava de questões caras à classe operária, nem tudo na revista girava em torno de uma verve crítica e politicamente engajada: cultura, entretenimento, moda, humor, esportes, pontos comerciais de destaque e vida mundana, temas considerados mais amenos, eram os assuntos recorrentes em suas páginas, quase sempre com foco no subúrbio. No futebol, atenção era dada aos times locais, como o Yolanda F.C., ou o Magno F.C., ambos de Madureira, bem como a resoluções da Liga Suburbana de Foot-ball. Na seara política, ainda assim, na mesma edição inaugural do periódico, louvava-se a figura do senador André Gustavo Paulo de Frontin (e na religiosa, também o cardeal D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti). Nas edições nº 2 e nº 3 da Revista Suburbana, de 3 e de 26 de setembro de 1922, respectivamente, duras críticas eram feitas à companhia de energia elétrica Light & Power.

Trazendo notas opinativas, perfis e homenagens a autoridades, prosa, versos, coluna social, crônica teatral, crítica literária, indicadores de serviços, efemérides locais e mesmo internacionais, variedades, anúncios, fotografias, entre outras coisas, a Revista Suburbana vinha com colaborações de Lima Barreto (no texto “Meditem a respeito”, página 8 do nº 2), Gomes Leite, A. Fernandes, Alcides de Araújo, Barros Vidal, Raphael Secioso de Sá, Luiz Loureiro, Renato Lacerda, Gabriel de Andrade, Octavio da Rocha, Leôncio Marinho, Catullo de Castro, Miranda e Horta, Ernani Rosas, entre outros.

Fontes: edições do nº 1, ano 1, de 20 de agosto de 1922, ao nº 3, ano 1, de 26 de setembro de 1922.

Revista Suburbana – Magazine mensal das aspirações suburbanas (1933)

Sob a direção e a chefia de redação de Levy Cerqueira, com Clery Leão Cerqueira como secretário de redação e Hugo Mósca como diretor-gerente, a Revista Suburbana foi um periódico mensal ilustrado de variedades lançado no Rio de Janeiro em fevereiro de 1933, durante o Governo Provisório encabeçado por Getúlio Vargas. Propriedade inicialmente da Hugo, Levy & Cia. Ltda., que tinha capital social de 200.000$000, e depois da Revista Suburbana Ltda., focava, como seu título e seu subtítulo apontavam, a vida no subúrbio carioca, destacando tanto a situação de abandono de bairros e localidades periféricas em relação ao poder público quanto as qualidades do subúrbio. Editada no 1º do nº 44 da Rua 7 de Setembro, no centro carioca, tinha em média 40 ou 44 páginas por edição, vendida avulsamente por mil réis, com boa qualidade gráfica e inúmeras páginas a cores. Esta Revista Suburbana não deve ser confundida com três publicações homônimas lançadas no Rio alguns anos antes: a primeira em 1906, no bairro do Méier, por Clemente & Cia., tendo Ferreira Júnior como redator; a segunda no Engenho Novo, em 1918, por J. R. Vieira de Mello, tendo durado apenas cinco edições; e a terceira novamente no Méier, propriedade da firma Leão, Vianna & Cia., lançada em 1922, com apenas três edições. Ainda assim, à semelhança destas outras duas revistas, mantidas com dificuldade, a de Levy Cerqueira também teve vida curta, tendo circulado até sua 12ª edição, de janeiro de 1934. Por breve momento, Affonso de Araújo Serra chegou a desempenhar a função de diretor na Revista Suburbana, junto de Cerqueira, assim como Mario L. Netto dos Reys chegou a ser o gerente, quando Hugo Mósca havia se desligado do empreendimento.

No editorial de sua edição de lançamento, a Revista Suburbana revelava que buscava ser “o reflexo da vida social” do suburbano, “que há muito reclama dos dirigentes dos melhoramentos a que tanto faz jus e que sempre lhe foram negados”. Nesse sentido, destacava e justificava a importância que pretendia dar às iniciativas locais que não faziam parte do poder público, em especial o comércio: o desenvolvimento comercial, industrial e agrícola do subúrbio, foco principal do periódico, acarretaria a melhoria geral da área em questão.

Infelizmente, os dirigentes municipaes, preoccupados com o embellezamento da zona urbana, talvez por ser esta mais attingida pelos olhares curiosos e não raro maliciosos dos estrangeiros que aqui aportam em busca de sensações mais ou menos extravagantes, pouca ou nenhuma attenção têm dispensado aos subúrbios. Resulta dahi que grandes cidades como Meyer, Engenho de Dentro, Cascadura, Madureira, Jacarepaguá, Ramos, Penha, Braz de Pina, etc., estejam á míngua de favores officiaes, entregues inteiramente aos próprios recursos, vivendo quasi que exclusivamente da iniciativa particular. Na verdade, é á iniciativa particular que os subúrbios devem a sua prosperidade.

Ainda assim, logo em seguida, a Revista Suburbana não perdia tempo em cobrar pontualmente o que esperava do poder público, tanto nas áreas de infraestrutura quanto de saúde, assistência social e educação. Necessitava-se:

– o saneamento geral, que retarda; – a rede de esgotos, que já devia ser um facto; – pavimentação de suas ruas; – maior numero de escolas e distribuídas conforme os núcleos de população; – meios de transportes, construcção de rodovias, e sua conservação para intensificar as relações locaes; – assistência publica, instituição de postos e hospitaes em vários bairros, maternidades, etc.; – canalisação de água potável para todas as localidades, ainda as mais longínquas; installação de luz electrica farta e perfeita, mesmo nos mais recônditos lugarejos; finalmente, a electrificação da Central para maior commodidade de sua população.

Cabe ressaltar que, no âmbito político, o principal diretor da revista, o escritor e jornalista Levy Cerqueira, à época do lançamento da Revista Suburbana, tinha suas conexões políticas. Era autor do livro “Pela democracia”, constantemente anunciado nas páginas da revista. Prefaciado pelo ministro da Agricultura Joaquim Francisco de Assis Brasil, o livro fazia propaganda do programa político do Partido Democrático Nacional (PDN), presidido pelo mesmo Assis Brasil, legenda que anos antes fez parte da Aliança Liberal para a candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República. Em paralelo, a revista também expressou simpatia, em mais de uma ocasião, ao Partido Autonomista do Distrito Federal, fundado em 1933 com a convocação das eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Este último foi organizado por uma comissão que contava com o interventor no Distrito Federal Pedro Ernesto Batista, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, João de Mendonça Lima e João Alberto Lins de Barros, tendo apoio de Vargas por conta de Pedro Ernesto junto a forças tenentistas, com as quais o presidente pretendia se reconciliar, e entre a população do Distrito Federal.

Em outro texto da edição nº 1 da Revista Suburbana, na página 6, falava-se mais da própria publicação. Ali eram expostas partes de seu planejamento administrativo e editorial, coisas que, todavia, não se pôde precisar se foram cumpridas:

O subúrbio merece uma publicação de largo programma, e o nosso intuito é dotal-o com um magazine luxuosamente impresso e litterariamente empolgante, para o que contamos com o concurso de escriptores brilhantes. Dentro de poucos dias, pois, “Revista Suburbana” terá sua officina própria, com linotypos, secções de gravura e de desenho e também machinaria apropriada e moderna, que servirão para a sua feitura e também para a confecção de trabalhos typographicos, executados com arte e luxo, que o commercio nos confiar. Nossas officinas serão installadas no Meyer, onde também faremos a redacção e administração d’este magazine. Avisamos, com particular interesse, aos nossos leitores, que “Revista Suburbana” não acceita assignaturas; a sua irradiação será feita simplesmente pela venda avulsa.

Em notícias, comentários, artigos de opinião, recomendações de leitura, versos, crônicas, indicadores, anúncios publicitários, ilustrações, fotografias, mapas, uma coluna social, entre outras coisas, a Revista Suburbana focava problemas infraestruturais gerais do subúrbio (ou pontuais, conforme a realidade de determinados bairros), a articulação entre as necessidades do subúrbio com os interesses da classe política, assuntos em pauta na política nacional, questões legais, questões agrárias, economia, efemérides, personalidades do subúrbio (educadores, artistas, comerciantes), educação e cultura no subúrbio, saúde pública, concursos e eventos locais, a vida da alta sociedade suburbana, história de pontos específicos do subúrbio, feminismo (ver edição nº 4, de maio de 1933), moda, esportes, atividades de instituições de ensino e agremiações diversas (inclusive esportivas), etc.

Apesar de sua linha combativa com relação ao progresso socioeconômico e urbanístico do subúrbio carioca, a Revista Suburbana também buscava valorizar as belezas naturais e os destaques culturais suburbanos: em outras palavras, a publicação contava com bom suplemento literário, com prosa, verso, e fotos e ilustrações de paragens suburbanas e de respeitosas senhoras, crianças e matrimônios locais (de certa forma, por seu teor mais “leve”, tal faceta da revista buscava o público feminino). Ali, Agrippino Grieco, Brant Horta, Berillo Neves, Diomedes de Figueiredo Moraes, Belmiro Braga, Jurandyr Paes Leme, Pereira de Assumpção, Cícero Mendes, Cecy Jerôme, Isidro Nunes, Patricia da Silva, Alves d’Almeida, Maria da Cunha, Dyla Sylvia de Sá, Gomes Leal, Gonzaga Mello, Octavio Severo, Virginia Victorino, Álvaro Ribeiro, Maria Carmen, Abel Hermeto, Rosa do Valle, Leopoldo Pereira, José de Andrade, Theoderick de Almeida, Moneró Júnior, Barros Vidal, Araújo Quintela, Lourdes Werneck, Adrien Vely, Nazareth D’Albergaria, Joaquim Teixeira de Novaes, Antônio Teixeira Affonso, Paulo Magalhães, Kruger Mattos, Eugenio Carneiro, Almeida Garrett, Else Mazza Nascimento Machado, Silveira de Menezes, Agnello de Oliveira, Oscar Rodarte, Queiroz Sobrinho, Jacobino Freire Júnior, Abelardo Cunha, Wilson Palmedo, Dalmyr Ramos, Ricardo Paranhos, Mario de Haristal, Dogelina Caldas, Céres de Oliva, Lilinha Fernandes e Catullo Cearense foram alguns dos colaboradores literários do periódico.

Fontes:

- Edições do nº 1, ano 1, de fevereiro de 1933, ao nº 12, ano 2, de janeiro de 1934.

- Partido Autonomista do Distrito Federal. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/partido-autonomista-do-distrito-federal. Acesso em: 26 abr. 2018.

- Partido Democrático Nacional. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/partido-democratico-nacional-pdn-1927-1929. Acesso em: 26 abr. 2018.

Explore os documentos:

O Suburbano (1900)

O Echo Suburbano (1901)

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Commercio Suburbano (1902)

A União Operária (1904)

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Gazeta Suburbana (1910)

Jornal Suburbano (1911)

O Suburbano (1912)

Revista Suburbana (1918)

Revista Suburbana (1922)

Revista Suburbana (1933)



O Suburbano (1912)