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Acervo da BN | Dois Mundos, uma literatura

23 dez 2020

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Brasil e Portugal, Intercâmbio Cultural, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Séc. XIX, Secult

Muito antes de nos impingir dúvidas eternas quanto a Capitu e Bentinho, Machado de Assis, expoente da literatura brasileira, bebeu de fontes lusitanas: influência de sua esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes, que, na verdade, o introduziu não só a escritores de seu país, mas também da Inglaterra. Talvez não soubesse, ou não imaginasse até que ponto, mas tal distinta – perdão, distintíssima – senhora contribuiu de forma decisiva para tornar a pena do Bruxo do Cosme Velho, no bom sentido, a mais oblíqua e dissimulada de toda a literatura brasileira, até a atualidade. Pasto e gáudio para nós, esfomeados superlativos que somos pelas letras, hoje e sempre. No mais, a lição: todo intercâmbio cultural vale a pena, desde que uma estética não prevaleça sobre a outra. Por isso mesmo, trazemos hoje um exemplo das não escassas revistas literárias que, no século XIX, borboletearam no eixo Brasil-Portugal, intrépidas cá e lá o Atlântico a deitar inveja aos voantes da TAP. O amigo leitor e a amiga leitora hão de desculpar: se abriram este texto com o fim de descansar a cavatina de ontem para a valsa de hoje, certamente perderão a fleuma ao saber que não temos ideia se Machado de Assis foi leitor do magazine ilustrado que hoje trazemos a público. Mas, como é quase Natal, perdoemos: a sugestiva revista Os Dois Mundos – Illustração para Portugal e Brazil, muito provavelmente fez a cabeça do inventor de Brás Cubas. Adiante com ela.

Impressa e lançada na capital francesa em 31 de agosto de 1877, mas voltada às elites intelectuais brasileiras e portuguesas na América ou na Europa, Os Dois Mundos foi uma sofisticada revista mensal ilustrada de literatura, artes, ciências e variedades. Verdade seja dita: publicava praticamente só autores europeus, como se pouco do produzido cá deste lado do oceano o valesse – ou mesmo fosse possível acessar. Ainda assim, fazia-se a ponte, nos ditames culturais de sua época, influenciando e forjando o gosto do leitor daqui e de lá: escritores brasileiros de diversas safras prestavam muita atenção no que vinha do Velho Mundo.

Dirigida pelo intelectual português de origem argelina Salomão Bensabat Saragga – conhecido por sua participação no movimento político e cultural lusitano chamado habitualmente de Geração de 70, ou Geração de Coimbra –, seu proprietário formal, residente em Paris, a revista tinha David Corazzi como “gerente em Portugal”, localizado em Lisboa, na Rua da Atalaya nº 42, endereço da livraria “Horas Românticas”, que aliás publicava propaganda de seus lançamentos nas páginas da revista, e Francisco Gonçalves de Queiroz como “agente no Brazil”, com escritório no Rio de Janeiro (RJ), ao nº 78 da Rua da Quitanda – este, no entanto, seria substituído em março de 1878 por Serafim José Alves, ao nº 83 da Rua Sete de Setembro. Circulou, aparentemente, pelo intervalo de cerca de um ano, até sua 12ª edição, de 31 de julho de 1878, impressa primeiro pela tipografia Ch. Unsinger, na Rua du Bac, depois pelo maquinário de J. Claye, A. Quantin & Cia., na Rua St. Beoît. Seu formato era 40 x 29cm, com 16 páginas por edição.

Ao longo de sua publicação, Os Dois Mundos veio com crônicas, contos, poemas, ensaios, reportagens, textos contendo curiosidades diversas, perfis, “palestras scientíficas” (estudos mais ou menos aprofundados que iam das ciências sociais às naturais), excertos, referências bibliográficas acompanhadas de curtas resenhas, publicidade e diversas gravuras. Ao todo, publicou colaborações de nomes como Guilhermino de Sá (cronista que assinava a seção “Correio de Paris”), Anthero de Quental, Catulle Mendès, Barão de Roussado, Ramalho Ortigão, João Tedeschi, Pinheiro Chagas, Gomes Leal, Oliveira Martins, Bento Mereno, Léon Gozlan, Luciano Cordeiro, Bulhão Pato, Leopoldo Kompert, Guimoar Torrezão, Mendes Leal, Julio César Machado, Fernando Caldeira, Camillo Debans, Paulo Féval, J. da Camara, Luiz Jardim, entre outros, incluindo autores de línguas francesa e inglesa, traduzidos.

Ao fim de sua provável edição derradeira, o nº 12, de julho de 1878, Os Dois Mundos publicou o seguinte texto, assinado, aparentemente, por Salomão Saragga, dando conta de futuras mudanças, para o aperfeiçoamento do periódico. No entanto, não foi possível precisar se a anunciada 13ª edição da revista chegou a ser de fato publicada:

Agradecemos aos assignantes o auxilio que prestaram à nossa publicação. A edição do primeiro volume está esgotada. Apenas nos restam alguns exemplares de differentes números, mas nenhuma collecção completa. As faltas que houve na regularidade da publicação são devidas à prolongada doença do director do periódico. Sentimos profundamente que essas faltas se fossem reflectir sobre o credito de Sr. David Corazzi. Como editor tem este cavalheiro dado provas de quanto é rigoroso no comprimento das suas promessas; mas o Sr. Corazzi não era editor d’esta publicação. Como gerente é apenas responsável pelas quantias que recebe, e não se exime nem nunca se eximio a reembolsar os assignantes que se julguem lesados com a demora que possa haver na entrega de qualquer numero. (...) Estão tomadas todas as precauções para que taes casos se não repitam. O nº 13 com a data de maio será entregue nos primeiros dias de junho, e d’ahi em deante, cada numero será entregue com escrupulosa exactidão no ultimo dia de cada mez. O papel fabricado especialmente pela casa Mac Murray de Londres será igual ao d’este numero. É muito superior ao que empregámos para os primeiros números. As gravuras serão como até aqui escolhidas com esmero. As publicadas no volume que finda hoje dão-nos o direito de dizer que nenhuma publicação d’este gênero se avantaja à nossa. O texto do novo volume será impresso na Imprensa Nacional de Lisboa, que obsequiosamente se prestou a isso, para maior regularidade e perfeição. As gravuras continuarão a ser impressas em Paris. Todos estes melhoramentes esperamos que não sejam infructiferos e que o agrado com que foi accolhida a nossa publicação em Portugal e no Brazil cresça cada dia mais. Pela nossa parte faremos o possível por merecel-o.

As edições de Os Dois Mundos podiam ser enviadas da França para Portugal, para as colônias portuguesas e para a América do Sul por preços distintos. Na França e nos “estados da União Geral dos Correios”, as edições avulsas custavam 1,50 franco, com assinaturas trimestrais, semestrais ou anuais ao preço de 4, 8 e 16 francos, respectivamente. Para Portugal e colônias, o número avulso podia ser adquirido por 300 réis, com assinaturas trimestrais, semestrais e anuais a 800, 1.300 e 3.000 réis, respectivamente. Já para o Brasil e para a América do Sul, locais de “moeda fraca”, como o periódico fazia questão de ressaltar, os números avulsos custavam 1.000 réis, com as mesmas assinaturas trimestrais, semestrais e anuais a 3.000, 5.000 e 10.000 réis, respectivamente. Resta-nos certa licença poética: no Rio de Janeiro, talvez – e apenas talvez – pudesse ser encontrada no distinto estabelecimento de Ezequiel Escobar.


Capa ilustrada em Os Dois Mundos em 1988.