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Acervo da BN | Verde: o modernismo maduro do interior mineiro

22 nov 2020

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Cataguases, Minas Gerais, Modernismo, Movimento Verde

Ora, se não é bela a cidade mineira de Cataguases, bem no miolo da Zona da Mata. É bem verdade que se trata de um polo industrial: coisa importante, mas que, não raro, deixa um pouco feiosa a paisagem local. São outros aspectos cataguasenses que nos interessam. A linha de ferro da antiga Estrada da Leopoldina. O santuário de Santa Rita de Cássia. E o próprio apelido do município, aromatizando o mesmo com borrifos de alta cultura: tomem tento, que Cataguases é a “cidade modernista”. Bom, engana-se quem, ao ouvir falar de modernismo, pensa automaticamente na Semana de Arte Moderna de 1922 e em artistas das letras e dos pincéis enraizados em São Paulo, crendo que a corrente estética se restringiu a grandes centros urbanos. Além de ter sido lar de Humberto Mauro, um dos pioneiros do cinema brasileiro, também lá pelos idos de 1920, Cataguases foi lar do chamado Movimento Verde. Nada ambientalista, claro está. Sob a batuta de Francisco Inácio Peixoto e José Pacheco de Medeiros Filho, o grupo pode não ser muito lembrado hoje, mas alcançou grande projeção na literatura de seu tempo, tendo carregado pelas mãos, aliás, grandes nomes da arquitetura e das artes visuais brasileiras para a cidade mineira: deixaram por lá seu traço Cândido Portinari, Burle Marx, Oscar Niemeyer, Djanira da Motta e Silva, Joaquim Tenreiro, José Pedrosa... Mas, foquemos nas estrelas mineiras. E, ratos de biblioteca de somos, voltemos nossos narizes às letras: conheçamos, portanto, Verde, a revista cultural do movimento de mesmo nome.

Verde foi, segundo seu próprio subtítulo, uma “Revista mensal de arte e cultura”, especializada em literatura. Lançada em Cataguases em setembro de 1927 através da Verde Editora, com redação no nº 53 da Rua Cel. Vieira, foi dirigida por Henrique de Resende, com Martins Mendes e Rosário Fusco como redatores. Não era café pequeno: teve repercussão no meio artístico nacional, sendo um dos mais importantes periódicos culturais ligados ao modernismo brasileiro. Por intensa correspondência, motivadora e aconselhadora, trocada com os escritores de Cataguases, Mário de Andrade e Antônio de Alcântara Machado acabaram sendo considerados os maiores animadores do grupo Verde, sem, no entanto, pertencerem ao mesmo.

Em sua edição inaugural, Verde se apresentava da seguinte forma:

Remy de Gourmont costumava dizer que se as discussões literarias interessassem ao povo, haveria tantas guessas mortiferas – entre intellectuaes, quanto as guerras civis e religiosas. Interessante, não acha você? Pois é. A principio parece paradoxo. Mas não é paradoxo nem cousa nenhuma. É, simplesmente, uma verdade. (…) Esse negocio ocorreu-nos á memoria a proposito do apparecimento deste primeiro numero da nossa revista, Verde. “Apparecemos para um publico que não existe”. Vamos ser incompreendidos e criticados. É certo. Mas, que esse publico ainda virá a existir, é certo tambem. É certo e é um consolo... Portanto, conversar muito é bobagem! Somos novos. E viemos pregar as ideas-novas da Nova-Arte. (…) Abrasileirar o Brasil – é o nosso risco.

Como não poderia faltar, a 3ª edição de Verde, de novembro de 1927, publicou o manifesto do grupo Verde, assinado por Henrique de Resende, Ascânio Lopes, Rosário Fusco, Guilhermino César, Francisco Inácio Peixoto, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta e Camilo Soares:

Este manifesto não é uma explicação. Uma explicação nossa não seria compreendida pelos criticos da terra, pelos innumeraveis conselheiros b. b. que dogmatizam empoleirados nas columnas pretensas importantes dos jornaes mirins do interior. (…) Mas é uma limitação entre o que temos feito e o monte do que os outros fizeram. Uma separação entre nós e a rabada dos nossos adesistas de ultima hora, cuja adesão é um desconforto. Pretendemos tambem focalisar a linha divisoria que nos põe do lado oposto ao outro lado dos demais modernistas brasileiros e extrangeiros. Nós não soffremos a influencia directa extrangeira. Todos nós fizemos questão de esquecer o francês. (…) O logar que é hoje bem nosso no Brasil intellectual foi conquistado tão somente ao dionisiaco empreendimento do forte grupo de Bello Horizonte, tendo á frente o enthusiasmo moço de Carlos Drummond, Martins de Almeida e Emílio Moura, com a fundação da A Revista, que embora não tendo tido vida longa, marcou epoca na historia da innovação moderna em Minas. Apesar de citarmos os nomes dos rapazes de Bello Horizonte, não temos, absolutamente, nenhuma ligação com o estilo e vida litteraria delles. Somos nós. Somos Verdes. E este manifesto foi feito especialmente para provocar um gosto[sí]ssimo escandalo interior e até vaias íntimas. (…) Acompanhamos S. Paulo e Rio em todas as suas innovações e renovações estéticas, quer na litteratura como em todas as artes bellas, não fomos e nem somos influenciados por elles, como querem alguns. (…) O nosso movimento Verde nasceu de um simples jornaleco da terra – Jazz Band. Um pequeno jornalsinho com tendencias modernistas que logo escandalizaram os pacatissimos habitantes desta Meia Pataca. (…) E dahi nasceu a nossa vontade firme de mostrar a esta gente toda que embora morando em uma cidadesinha do interior, temos coragem de competir com o pessoal lá de cima.

Ao fim do texto, o manifesto resumia seus principais pontos, frisando a independência do grupo literário tanto quanto a outros movimentos quanto “no sentido ‘escolástico’”, seu objetivismo, a bem-definida linha divisória entre si e os demais modernistas e a pouca importância dada à “crítica dos que não nos compreendem”. Para constar, não era só na literatura em que os esverdeados não eram compreendidos: na segunda edição de Verde, seus editores se regozijavam ao constatar que sua revista havia sido um “delicioso escândalo” em Cataguases. Como era possível que saíssem sem publicar retratos pomposos das respeitáveis autoridades mineiras, e sem fazer os devidos salamaleques verbais a tais figurões? E pior: sem os instantâneos das melindrosas da terra, à saída da missa? Oh, desolação, as Alterosas já não eram mais as mesmas.

Os mais incomodados podiam ficar tranquilos: Verde teria vida curta. Foi editada regularmente de seu nº 1, de setembro de 1927, ao seu nº 5, de janeiro de 1928. Nesta sua 5ª edição, o periódico publicou um suplemento “relativo aos meses de fevereiro, março, abril e maio de 1928”, com numeração distinta. Após o nº 5 a revista fechava a sua fase inicial, interrompendo temporariamente sua circulação. Verde voltou quase um ano depois, com um novo nº 1 datado de maio de 1929, veiculado sem o subtítulo “Revista mensal de arte e cultura” e totalmente dedicado a Ascânio Lopes. No entanto, a publicação não foi mantida a partir desse ponto. Esta edição derradeira, curiosamente, possuía apenas um anúncio de publicidade, da tipografia A Brasileira, responsável pela impressão de Verde – as outras, em contrapartida, propagandeavam de tudo: macarrão, lojas de vitrolas, armarinhos, pensionatos, oficinas mecânicas, bancos locais e por aí afora. Ao longo de sua curta existência, afinal, Verde publicou prosa, versos, artigos culturais, ensaios, críticas literárias, trechos de obras, ilustrações, notas e comentários de cultura (sobre música, cinema e arte em geral), recomendações de serviços e profissionais locais. O número de páginas de cada edição variou entre 24 e 32 e as capas das cinco primeiras edições manteve o mesmo padrão gráfico. Cada exemplar da revista custava mil réis, com assinaturas anuais a 11 mil – esquema leve 12 pague 11.

Em 1978, em virtude da comemoração do cinquentenário do Modernismo no Brasil, a Metal Leve S. A. imprimiu edições fac-similares da Verde, republicando-as acrescidas de uma introdução de Guilhermino César (“Os verdes da ‘Verde’”), de um estudo crítico de Cecília de Lara (“A ‘alegre e paradoxal’; revista Verde de Cataguases”) e do trecho referente à revista em “História de revistas e jornais literários”, de Plínio Doyle, contendo notas bibliográficas das seis edições de Verde e indicações de livros e textos da imprensa em geral falando sobre a revista. A coleção completa pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros foi utilizada nesta reprodução.

Além de seu diretor e de seus redatores, a revista modernista publicou trabalhos de figuras de expressão na cultura brasileira, ligados ou não ao grupo Verde de Cataguases: Martins de Oliveira, Ascânio Lopes, Emílio Moura, Carlos Drummond de Andrade, Guilhermino César, Christophoro Fonte-Bôa, Antônio Gabriel de Barros Vale (que assinava com o pseudônimo de “Edmundo Lys”), Teobaldo de Miranda Santos, Camilo Soares, Francisco Inácio Peixoto, Aquiles Vivacqua (“Roberto Theodoro”), Osvaldo Abrita, Antônio de Alcântara Machado, Abgar Renault, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, A. C. Couto de Barros, Ribeiro Couto, João Fernandes de Almeida Prado (“Yan de Almeida Prado”), João Alphonsus, Frédéric Sauser (“Blaise Cendras”), Wellington Brandão, Prudente de Moraes Neto, Ascenso Ferreira, Godofredo Rangel, Sérgio Milliet, Ildefonso Pereda Valdés, Ildefonso Falcão, Pedro Nava, Marcos Fingerit, Edi Dias da Cruz (“Marques Rebello”), Afonso Arinos Sobrinho, Pimenta Veloso, Guilherme de Almeida, A. Fonseca Lobo, Dulce Amaral (“Dolour”), João Dornas Filho, Peregrino Júnior, Ubiratã Valmont, Paulo Prado, Saul de Navarro, Augusto Frederico Schmidt, Willy Levin, Jorge Fernandes, José Américo de Almeida, Murilo Mendes, Válter Benevides, Carlos Chiacchio, Alceu Amoroso Lima (“Tristão de Athayde”), Graça Aranha, entre outros. Todos maduros, afinal.