BNDigital

Ciência e Relações Internacionais | Hidezô Tanakadate no Brasil

04 set 2023


e marcado com as tags Ciência e Tecnologia, Cultura Japonesa, Paz Internacional, Pesquisa, Relação Nipobrasileira, Relações Internacionais, Secult, Tanakadate, Universidade

"O movimento de paz internacional deve nascer deste país, e florir nesta terra. Por estes pensamentos e ideais nós os cientistas e estudantes devemos trabalhar. Esta é a nossa missão dos intercâmbios culturais e intelectuais das universidades do Mundo."


(Hidezô Tanakadate sobre o Brasil, maio de 1932)


A primeira vez que ouvi falar do geólogo e vulcanologista Hidezô Tanakadate foi quando eu lia a respeito da Guerra do Pacífico e da campanha japonesa de domínio bélico na Ásia. O nome do professor Tanakadate é geralmente lembrado pelo seu trabalho no Museu Nacional de Singapura, que, na época, chamava-se Raffles Library and Museum. Quando o Japão ocupou Singapura, em fevereiro de 1942, Tanakadate foi enviado para lá com a missão de verificar as condições das instituições culturais e científicas. Assumiu a direção do museu e lá permaneceu até setembro do mesmo ano. Com a assistência do botanista inglês E.J.H. Corner, ocupou-se de preservar e proteger a biblioteca, o museu e o jardim botânico, a fim de que novos conflitos e ataques não viessem a destruir mais do que já havia sido perdido por causa da guerra. Dois homens da ciência, cada um com sua bandeira pátria, eventualmente em lados opostos da guerra — e no território de uma pátria outra. Eles não trabalharam sozinhos, é claro, mas a cooperação de ambos em tais circunstâncias acabou tornando-se uma referência de profissionais que colocam ciência e conhecimento acima de inclinações ideológicas e diferenças culturais.

Dez anos antes, Hidezô Tanakadate visitava o Brasil em missão oficial do governo japonês. Anunciado em muitos jornais, apresentaram-no às vezes como geógrafo, como "autoridade notória em assuntos econômicos", como "mestre dos mais ilustres e de maior projeção nos meios educacionais do império oriental", como "entusiasta da Amigos da Paz Internacional". De fato, era um homem cultíssimo, daqueles cuja curiosidade o lançava para diferentes áreas do conhecimento, de quem se diz que em dois meses já falava bem o português. Durante estes primeiros meses, Tanakadate fez conferências, participou em programa temático na Rádio Educadora Paulista e fez várias visitas — inclusive ao Mosteiro de São Bento (SP), a uma redação de jornal, à Associação Brasileira de Imprensa e à Penitenciária Estadual de São Paulo. Todas estas atividades, porém, eram as que conhecemos a partir de sua divulgação nos jornais. Quantas outras mais terá ele realizado, que não tenham sido divulgadas? Cada palestra sua era uma oportunidade de dar aos brasileiros um pouco do Japão; em contrapartida, cada experiência particular sua aqui era uma chance de dar aos japoneses um pouco do Brasil.



Tanakadate (1°. à esquerda, abaixo) em visita à redação do Jornal "A Batalha".

Fonte: A Batalha (RJ), edição 736, de 25 de maio de 1932

Na visita à penitenciária, acompanhou o dr. Spencer Vampré, professor da Faculdade de Direito de São Paulo, e seus alunos. O prof. Vampré, aliás, era sua companhia constante; esteve com ele durante a entrevista que Tanakadate deu ao jornalista Carlos Lacerda e na sua visita à Academia Brasileira de Letras. Pareciam compartilhar da mesma visão de intercâmbio universitário, bem como possuir perspectiva semelhante a respeito do que seria, enfim, o propósito de um intelectual.



Fonte: A Gazeta (SP), edição 7878, de 7 de maio de 1932

Seus objetivos declarados eram o de estreitar as relações entre o Japão e o Brasil e estudar a cultura brasileira. Na entrevista a Lacerda, falou do que sentiu ser uma dificuldade "dos ocidentais em conhecer o pensamento oriental". No seu discurso na Academia Brasileira de Letras, expressou seu desejo de ver desenvolver-se o entusiasmo pelo estudo da língua e da literatura japonesa no Brasil, não como objetos de estudo exóticos, mas como "órgão vivo do pensamento e da cultura de um povo, essencialmente amigo e admirador do Brasil, e que se orgulha desta amizade".

Lembrado hoje como geólogo e vulcanologista, como dissemos, o professor Tanakadate esteve muito mais próximo das humanidades quando esteve no Brasil. Um resumo de sua missão pode ser encontrado em seu discurso no Centro Acadêmico Candido de Oliveira, na Faculdade Nacional de Direito (RJ), conforme texto publicado na Página de Educação do Diário de Notícias de 26 de maio de 1932:

"Em outras palavras, o Brasil é um melting pot das raças humanas. Neste ponto de vista, o Brasil é um país muito grande e glorioso. O movimento de paz internacional deve nascer deste país, e florir nesta terra. Por estes pensamentos e ideais nós os cientistas e estudantes devemos trabalhar. Esta é a nossa missão dos intercâmbios culturais e intelectuais das universidades do Mundo."


Que o Brasil seja grande e glorioso, muitos de nós concordamos — ressalvados os inúmeros aspectos em que nosso jovem país (jovem, se comparado ao Japão) ainda possa crescer e melhorar. Numa época em que tanto se fala de uso da ciência em prol da guerra, desde o que se vê nos noticiários até o que se vê nas telas de cinema, do facto ao ficto, é sempre bom trazer à memória aqueles exemplos em que, apesar das tensões entre nações, os homens das ciências assumem o compromisso de fazer algo muito mais difícil: construir a paz, ainda que a partir dos primeiros passos — os da busca pela mútua compreensão.

 

* Michele Eduarda Brasil de Sá é Bolsista do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa – PNAP/FBN 2020