Documento da Semana | A Contagem do Tempo e Diferentes Tipos de Calendário
por Rodrigo Basile
06 fev 2026
O início de um ano novo comumente é marcado por tradições, significados, rituais e planejamentos. O popular termo réveillon vem do francês réveiller, que significa “despertar” (a partir do século XIX recontextualizado na língua francesa com um sentido de renovação). Em muitas culturas, suas celebrações costumam simbolizar deixar o antigo para trás e abrir espaço para o novo, funcionando como um ritual de transição em que o tempo é reconhecido e ressignificado.
A necessidade de contar o tempo acompanha a humanidade desde épocas muito remotas. Antes mesmo da agricultura, grupos humanos já faziam entalhes em pedras, ossos ou madeira, interpretados por parte dos arqueólogos como possíveis registros de contagem de tempo. Esses grupos humanos não dispunham ainda de calendários complexos e elaborados, mas de formas simples de possíveis registros, datados de muitos milhares de anos, que poderiam ter sido usados para ajudar a perceber ciclos naturais importantes para caça, deslocamentos e, posteriormente, para o plantio.
Com o desenvolvimento das primeiras sociedades agrícolas, muitas viram necessário identificar a passagem das estações, compreender períodos de chuva e estiagem ou organizar festas e cultos religiosos. Aos poucos, algumas destas foram elaborando seus primeiros calendários organizados, isto é, um sistema para ordenar a sucessão dos dias e registrar o tempo.
A palavra que utilizamos para essas medições e registros de contagem do tempo deriva de calendae, termo latino que designava dia em que o pontífice anunciava o início do mês no calendário romano, associado à Lua nova. Calendarium, por sua vez, era o livro de registros onde se anotavam datas e pagamentos e é daí que vem o termo “calendário”.
Diferentes povos criaram, ao longo da história, seus próprios modos de medir o tempo. Em várias sociedades antigas, as estações do ano ocupavam papel central, já que o ritmo agrícola moldava a vida nos primeiros assentamentos e cidades. Foi justamente a observação dos ciclos sazonais, que ganhou força com o advento da agricultura, que também contribuiu para a organização do trabalho, para o armazenamento de excedentes e para a percepção de que há uma certa regularidade na passagem dos anos. As observações astronômicas e desses ciclos da natureza também estavam ligadas a rituais, poder político e religião, funcionando como uma ferramenta para legitimar autoridades religiosas e políticas.
No vale do Nilo, por exemplo, os egípcios desenvolveram cedo um sistema de contagem baseado nas cheias e vazantes do rio. Com o tempo, esse conhecimento astronômico e agrícola deu origem a um calendário solar de 365 dias, já utilizado no Império Egípcio Antigo (por volta do 3º milênio a.C.). Na Mesopotâmia, povos como sumérios e babilônios tinham cidades-estados que utilizavam calendários estruturados em 12 meses lunares de cerca de 29 a 30 dias, adicionando periodicamente um mês extra para manter o alinhamento com as estações.
De modo geral, os calendários mais difundidos pelo mundo podem ser divididos em três grandes grupos: os lunares, guiados pelos ciclos da Lua (como o islâmico); os solares, baseados na posição aparente do Sol ao longo do ano (como o persa e o gregoriano); e mais incomumente os lunissolares, que conciliam os movimentos do Sol e da Lua (como o hebraico e o chinês).
A unidade básica é o dia, que, entendido cientificamente, é relacionado ao ciclo de rotação da Terra, simplificado como o intervalo de tempo entre dois nasceres do Sol. Os meses, em muitos sistemas, têm origem nas lunações, correspondendo ao intervalo médio de aproximadamente 29,5 dias entre duas Luas novas. Já o ano, que hoje sabemos corresponder ao movimento completo da Terra em torno do Sol, para muitos povos compreendia o ciclo completo das estações, próximo de 365 dias. Algumas culturas também organizaram o tempo em semanas, termo derivado do latim septimana, “sete manhãs”, uma referência a subdivisões antigas ligadas a práticas religiosas e observações astronômicas.
No Ocidente, o calendário mais influente foi o Juliano, criado em 46 a.C. por Júlio César. Ele transformou um antigo sistema lunissolar romano em um calendário essencialmente solar, com 365 dias e um ano bissexto a cada quatro anos. Mais tarde, no século XVI, notou-se que essa conta ainda deixava o ano civil gradualmente desalinhado em relação às estações. Para adaptar esse descompasso, o papa Gregório XIII instituiu, em 1582, o Calendário Gregoriano, ajustando a regra dos bissextos e suprimindo dez dias daquele ano. Essa reforma, ainda que lenta e conflituosa, foi oficializada através da bula papal Inter Gravissimas e viabilizou, para as sociedades que a adotaram, um estabelecimento muito mais preciso do ano, reduzindo a defasagem acumulada por milênios. É o calendário hoje utilizado em muitas partes do mundo.
Nas Américas, o sistema concebido pela civilização Maia é reconhecidamente bem elaborado e complexo. Questões culturais e, em especial, religiosas e ritualísticas, estimularam boas observações astronômicas e um desenvolvido senso matemático. Seu sistema combina diferentes calendários: o Haab, de uso civil e caráter solar, com 365 dias; o Tzolk’in, um ciclo ritual de 260 dias formado pela combinação de 20 nomes de dias com números de 1 a 13; e a Conta Longa, usada para registrar períodos extensos de tempo e estruturar datas. Em algumas regiões, especialmente na Guatemala, alguns elementos desses calendários ainda são utilizados.
Além deles, vários outros tipos calendários continuam ativos pelo mundo, ainda que voltados para fins culturais ou ritualísticos. O chinês, de natureza lunissolar, intercala meses adicionais para acompanhar os ciclos lunares e organiza os anos em ciclos de 60 anos que combina 12 animais com 5 elementos. O judaico, também lunissolar, ajusta o ano com meses extras conforme regras estabelecidas tradicionalmente no século IV e adaptadas ao longo do tempo. O islâmico, inteiramente lunar, inicia sua contagem a partir da Hégira, a migração do profeta Maomé em 622. O etíope, de base solar, possui 13 meses e mantém uma diferença de alguns anos em relação ao calendário ocidental. Na Coreia do Norte, vigora oficialmente o calendário Juche, cujo ano 1 corresponde a 1912, nascimento do líder Kim Il-sung, exemplificando uma questão peculiar: o uso político do tempo. Isso citando apenas alguns exemplos mais conhecidos.
Desde entalhes pré-históricos até complexos sistemas astronômicos, medir o tempo é uma das ferramentas mais antigas da humanidade para estabelecer suas dinâmicas no mundo. Os calendários, além de organizar a vida prática, revelam tradições, crenças e modos diversos de perceber o próprio tempo. São um testemunho da história das civilizações.
A Fundação Biblioteca Nacional detém em seu acervo obras e artigos que tratam e ilustram diferentes formas de contagem e registro do tempo, mostrando como distintas sociedades organizaram seus dias, seus rituais e seus modos de viver. Algumas delas estão disponíveis digitalmente por meio da BNDigital.
Dentre esses materiais merece destaque o “Calendario perpetuo allegorico” dedicado a D. Pedro I, com elementos gráficos simbólicos ligados ao Império do Brasil. Traz um retrato de D.Pedro I circunscrito pelo símbolo Ouroboros (uma serpente que engole a própria cauda, simbolizando ciclo, eternidade e renovação contínua), tendo no alto da cabeça, em semicírculo, a legenda: "Pedro ensina a ser rey aos reis do mundo". Esse tipo de peça era comum nas primeiras décadas do Império, junto a estampas imperialistas, retratos de Estado, brasões e diagramas simbólicos, cujo objetivo principal é transmitir uma mensagem política, moral ou celebratória.

Acesse a obra “Calendario perpetuo allegorico dedicado a sua magestade o senhor dom Pedro Primeiro imperador constitucional e defensor perpetuo do Brasil”:
https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon326497/icon326497.html
Outro exemplo é o “Calendairo romano perpetuo”, publicação com mais de mil páginas, de 1588 e de autoria de João Baptista Feio, que reúne antigas tradições de marcar o tempo e apresenta, de maneira visual e prática, como se estruturavam os ciclos do ano. A obra é citada como exemplo representativo de impressos litúrgicos de Lisboa no século XVI e vista como um material muito prático para a consulta do calendário e dos eventos eclesiásticos.
Acesse a obra “Calendairo romano perpetuo, com as mais cousas, que na volta desta folha se verão”:
https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or513932/or513932.html#page/1/mode/1up
O “Calendário e dados Astronômicos” é um periódico de 1892 que reúne informações produzidas pelo Observatório do Rio de Janeiro, instituição que, desde o final do século XIX, foi se tornando responsável por definir a hora oficial e organizar os principais dados astronômicos do país, determinando a hora legal brasileira a partir de 1913. Essa pequena publicação é representativa de uma preocupação científica e padronizada para a medição do tempo, usando cálculos astronômicos para orientar a vida cotidiana, a navegação e a organização do território.
Acesse o periódico “Calendário e dados Astronomicos: extrahidos do annuário publicado pelo Observatório do Rio de Janeiro para o anno de 1892”:
http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/707198/1
Por fim, o artigo “O livro de horas dito de D. Fernando: Maravilha para ver e rezar”, de autoria de Vânia Leite Fróes, aponta o século XV como a época de ouro dos calendários e dos livros de horas e destaca de maneira detalhada um aspecto mais espiritual da relação humana com o tempo: os Livros de Horas medievais, que combinavam orações, imagens e calendários para orientar a vida religiosa. A autora. Que é professora titular de História Medieval no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, destaca como esses códices, definidos por ela como “pequenas joias da iconografia”, tratam das representações do espaço, do tempo, dos valores básicos que organizam a cultura cristã e como o uso de imagens foi uma importante ferramenta para a estruturação de novos padrões mentais de percepção do tempo.
Leia o artigo sobre os “Livros de Horas” na BNDigital:
https://bndigital.bn.gov.br/artigos/o-livro-de-horas-dito-de-d-fernando-maravilha-para-ver-e-rezar/
Referências:
CANHÃO, Telo Ferreira. O calendário egípcio. Cultura, v. 23, 2006, p. 39–61. Disponível em: https://journals.openedition.org/cultura/1296. Acesso em: 02 dez. 2025.
FRÓES, Vânia Leite. O livro de horas dito de D. Fernando: Maravilha para ver e rezar. BNDigital, 06 set. 2013. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/artigos/o-livro-de-horas-dito-de-d-fernando-maravilha-para-ver-e-rezar/. Acesso em: 02 dez. 2025.
LIMA, Flávia Pedroza. Calendários maias: uma visão arqueoastronômica. 2000. 103 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Astronomia) — Observatório do Valongo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/18898/1/FPLima.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
LUZ, Sabina Ferreira Alexandre. O estabelecimento da Hora Legal Brasileira: o Brasil adota o meridiano de Greenwich. 2014. 150 f. Dissertação (Mestrado em História Social) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2014. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1785.pdf. Acesso em: 04 dez. 2025.
MARQUES, Manuel Nunes. Calendário Gregoriano. Porto Alegre: Museu de Topografia Prof. Laureano Ibrahim Chaffe / Departamento de Geodésia – UFRGS. Disponível em: https://museudetopografia.ufrgs.br/museudetopografia/images/acervo/artigos/Calendrio_gregoriano.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
MATAILLET, Dominique. Le Réveillon, from Fast to Feast. France-Amérique, 28 dez. 2023. Disponível em: https://france-amerique.com/le-reveillon-from-fast-to-feast/. Acesso em: 04 dez. 2025.
MENDOZA, Sergio. A mathematical construction of the 260 day mesoamerican calendar based on archaeoastronomical alignments. arXiv, 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2309.00598. Acesso em: 02 dez. 2025.
NAVARRO, Alexandre Guida. A civilização maia: contextualização historiográfica e arqueológica. História (São Paulo), v. 27, n. 1, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/i/2008.v27n1/ (Artigo “The Mayan Civilization: historiographic and archeological contextualization”). Acesso em: 02 dez. 2025.
OBSERVATÓRIO NACIONAL. Hora Legal Brasileira. Rio de Janeiro: Observatório Nacional, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/observatorio/pt-br/servicos/servicos-astronomia/anuarios-do-observatorio-nacional/documentos/anuarios/2020/secaoh_site_2020.pdf. Acesso em: 04 dez. 2025.
PAIVA, José Pedro. Bispos, imprensa, livro e censura no Portugal de quinhentos. Revista de História das Ideias, Coimbra, v. 28, p. 115-150, 2007. Disponível em: https://ap1.sib.uc.pt/handle/10316.2/41640?utm. Acesso em: 11 dez. 2025.
RIBEIRO, Ana Laura e RUBIN, Andressa. Arqueoastronomia e Astronomia Afro-Indígena. Porto Alegre: IF/UFRGS. Disponível em: https://www.if.ufrgs.br/~mittmann/1_Arqueoastronomia_e_Astronomia_Afroindigena_%282%29.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
RODRIGUES, Marta de Souza. A diversidade do conhecimento sobre o céu e o ensino de astronomia: propostas didáticas e potencialidades da astronomia cultural. 2015. 185 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências) — Instituto de Física, Instituto de Química, Instituto de Biociências e Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81131/tde-21032016-141809/publico/Marta_de_Souza_Rodrigues.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
WINLOCK, H. E. The Origin of the Ancient Egyptian Calendar. Proceedings of the American Philosophical Society, vol. 83, no. 3, 1940, pp. 447–64. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/985113. Acesso em: 02 dez. 2025.
A necessidade de contar o tempo acompanha a humanidade desde épocas muito remotas. Antes mesmo da agricultura, grupos humanos já faziam entalhes em pedras, ossos ou madeira, interpretados por parte dos arqueólogos como possíveis registros de contagem de tempo. Esses grupos humanos não dispunham ainda de calendários complexos e elaborados, mas de formas simples de possíveis registros, datados de muitos milhares de anos, que poderiam ter sido usados para ajudar a perceber ciclos naturais importantes para caça, deslocamentos e, posteriormente, para o plantio.
Com o desenvolvimento das primeiras sociedades agrícolas, muitas viram necessário identificar a passagem das estações, compreender períodos de chuva e estiagem ou organizar festas e cultos religiosos. Aos poucos, algumas destas foram elaborando seus primeiros calendários organizados, isto é, um sistema para ordenar a sucessão dos dias e registrar o tempo.
A palavra que utilizamos para essas medições e registros de contagem do tempo deriva de calendae, termo latino que designava dia em que o pontífice anunciava o início do mês no calendário romano, associado à Lua nova. Calendarium, por sua vez, era o livro de registros onde se anotavam datas e pagamentos e é daí que vem o termo “calendário”.
Diferentes povos criaram, ao longo da história, seus próprios modos de medir o tempo. Em várias sociedades antigas, as estações do ano ocupavam papel central, já que o ritmo agrícola moldava a vida nos primeiros assentamentos e cidades. Foi justamente a observação dos ciclos sazonais, que ganhou força com o advento da agricultura, que também contribuiu para a organização do trabalho, para o armazenamento de excedentes e para a percepção de que há uma certa regularidade na passagem dos anos. As observações astronômicas e desses ciclos da natureza também estavam ligadas a rituais, poder político e religião, funcionando como uma ferramenta para legitimar autoridades religiosas e políticas.
No vale do Nilo, por exemplo, os egípcios desenvolveram cedo um sistema de contagem baseado nas cheias e vazantes do rio. Com o tempo, esse conhecimento astronômico e agrícola deu origem a um calendário solar de 365 dias, já utilizado no Império Egípcio Antigo (por volta do 3º milênio a.C.). Na Mesopotâmia, povos como sumérios e babilônios tinham cidades-estados que utilizavam calendários estruturados em 12 meses lunares de cerca de 29 a 30 dias, adicionando periodicamente um mês extra para manter o alinhamento com as estações.
De modo geral, os calendários mais difundidos pelo mundo podem ser divididos em três grandes grupos: os lunares, guiados pelos ciclos da Lua (como o islâmico); os solares, baseados na posição aparente do Sol ao longo do ano (como o persa e o gregoriano); e mais incomumente os lunissolares, que conciliam os movimentos do Sol e da Lua (como o hebraico e o chinês).
A unidade básica é o dia, que, entendido cientificamente, é relacionado ao ciclo de rotação da Terra, simplificado como o intervalo de tempo entre dois nasceres do Sol. Os meses, em muitos sistemas, têm origem nas lunações, correspondendo ao intervalo médio de aproximadamente 29,5 dias entre duas Luas novas. Já o ano, que hoje sabemos corresponder ao movimento completo da Terra em torno do Sol, para muitos povos compreendia o ciclo completo das estações, próximo de 365 dias. Algumas culturas também organizaram o tempo em semanas, termo derivado do latim septimana, “sete manhãs”, uma referência a subdivisões antigas ligadas a práticas religiosas e observações astronômicas.
No Ocidente, o calendário mais influente foi o Juliano, criado em 46 a.C. por Júlio César. Ele transformou um antigo sistema lunissolar romano em um calendário essencialmente solar, com 365 dias e um ano bissexto a cada quatro anos. Mais tarde, no século XVI, notou-se que essa conta ainda deixava o ano civil gradualmente desalinhado em relação às estações. Para adaptar esse descompasso, o papa Gregório XIII instituiu, em 1582, o Calendário Gregoriano, ajustando a regra dos bissextos e suprimindo dez dias daquele ano. Essa reforma, ainda que lenta e conflituosa, foi oficializada através da bula papal Inter Gravissimas e viabilizou, para as sociedades que a adotaram, um estabelecimento muito mais preciso do ano, reduzindo a defasagem acumulada por milênios. É o calendário hoje utilizado em muitas partes do mundo.
Nas Américas, o sistema concebido pela civilização Maia é reconhecidamente bem elaborado e complexo. Questões culturais e, em especial, religiosas e ritualísticas, estimularam boas observações astronômicas e um desenvolvido senso matemático. Seu sistema combina diferentes calendários: o Haab, de uso civil e caráter solar, com 365 dias; o Tzolk’in, um ciclo ritual de 260 dias formado pela combinação de 20 nomes de dias com números de 1 a 13; e a Conta Longa, usada para registrar períodos extensos de tempo e estruturar datas. Em algumas regiões, especialmente na Guatemala, alguns elementos desses calendários ainda são utilizados.
Além deles, vários outros tipos calendários continuam ativos pelo mundo, ainda que voltados para fins culturais ou ritualísticos. O chinês, de natureza lunissolar, intercala meses adicionais para acompanhar os ciclos lunares e organiza os anos em ciclos de 60 anos que combina 12 animais com 5 elementos. O judaico, também lunissolar, ajusta o ano com meses extras conforme regras estabelecidas tradicionalmente no século IV e adaptadas ao longo do tempo. O islâmico, inteiramente lunar, inicia sua contagem a partir da Hégira, a migração do profeta Maomé em 622. O etíope, de base solar, possui 13 meses e mantém uma diferença de alguns anos em relação ao calendário ocidental. Na Coreia do Norte, vigora oficialmente o calendário Juche, cujo ano 1 corresponde a 1912, nascimento do líder Kim Il-sung, exemplificando uma questão peculiar: o uso político do tempo. Isso citando apenas alguns exemplos mais conhecidos.
Desde entalhes pré-históricos até complexos sistemas astronômicos, medir o tempo é uma das ferramentas mais antigas da humanidade para estabelecer suas dinâmicas no mundo. Os calendários, além de organizar a vida prática, revelam tradições, crenças e modos diversos de perceber o próprio tempo. São um testemunho da história das civilizações.
A Fundação Biblioteca Nacional detém em seu acervo obras e artigos que tratam e ilustram diferentes formas de contagem e registro do tempo, mostrando como distintas sociedades organizaram seus dias, seus rituais e seus modos de viver. Algumas delas estão disponíveis digitalmente por meio da BNDigital.
Dentre esses materiais merece destaque o “Calendario perpetuo allegorico” dedicado a D. Pedro I, com elementos gráficos simbólicos ligados ao Império do Brasil. Traz um retrato de D.Pedro I circunscrito pelo símbolo Ouroboros (uma serpente que engole a própria cauda, simbolizando ciclo, eternidade e renovação contínua), tendo no alto da cabeça, em semicírculo, a legenda: "Pedro ensina a ser rey aos reis do mundo". Esse tipo de peça era comum nas primeiras décadas do Império, junto a estampas imperialistas, retratos de Estado, brasões e diagramas simbólicos, cujo objetivo principal é transmitir uma mensagem política, moral ou celebratória.

Acesse a obra “Calendario perpetuo allegorico dedicado a sua magestade o senhor dom Pedro Primeiro imperador constitucional e defensor perpetuo do Brasil”:
https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon326497/icon326497.html
Outro exemplo é o “Calendairo romano perpetuo”, publicação com mais de mil páginas, de 1588 e de autoria de João Baptista Feio, que reúne antigas tradições de marcar o tempo e apresenta, de maneira visual e prática, como se estruturavam os ciclos do ano. A obra é citada como exemplo representativo de impressos litúrgicos de Lisboa no século XVI e vista como um material muito prático para a consulta do calendário e dos eventos eclesiásticos.
Acesse a obra “Calendairo romano perpetuo, com as mais cousas, que na volta desta folha se verão”:
https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or513932/or513932.html#page/1/mode/1up
O “Calendário e dados Astronômicos” é um periódico de 1892 que reúne informações produzidas pelo Observatório do Rio de Janeiro, instituição que, desde o final do século XIX, foi se tornando responsável por definir a hora oficial e organizar os principais dados astronômicos do país, determinando a hora legal brasileira a partir de 1913. Essa pequena publicação é representativa de uma preocupação científica e padronizada para a medição do tempo, usando cálculos astronômicos para orientar a vida cotidiana, a navegação e a organização do território.
Acesse o periódico “Calendário e dados Astronomicos: extrahidos do annuário publicado pelo Observatório do Rio de Janeiro para o anno de 1892”:
http://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/707198/1
Por fim, o artigo “O livro de horas dito de D. Fernando: Maravilha para ver e rezar”, de autoria de Vânia Leite Fróes, aponta o século XV como a época de ouro dos calendários e dos livros de horas e destaca de maneira detalhada um aspecto mais espiritual da relação humana com o tempo: os Livros de Horas medievais, que combinavam orações, imagens e calendários para orientar a vida religiosa. A autora. Que é professora titular de História Medieval no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, destaca como esses códices, definidos por ela como “pequenas joias da iconografia”, tratam das representações do espaço, do tempo, dos valores básicos que organizam a cultura cristã e como o uso de imagens foi uma importante ferramenta para a estruturação de novos padrões mentais de percepção do tempo.
Leia o artigo sobre os “Livros de Horas” na BNDigital:
https://bndigital.bn.gov.br/artigos/o-livro-de-horas-dito-de-d-fernando-maravilha-para-ver-e-rezar/

Arte ilustrativa utilizada como peça de divulgação nas redes sociais institucionais
Autor/criação: Wilian Correia
Referências:
CANHÃO, Telo Ferreira. O calendário egípcio. Cultura, v. 23, 2006, p. 39–61. Disponível em: https://journals.openedition.org/cultura/1296. Acesso em: 02 dez. 2025.
FRÓES, Vânia Leite. O livro de horas dito de D. Fernando: Maravilha para ver e rezar. BNDigital, 06 set. 2013. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/artigos/o-livro-de-horas-dito-de-d-fernando-maravilha-para-ver-e-rezar/. Acesso em: 02 dez. 2025.
LIMA, Flávia Pedroza. Calendários maias: uma visão arqueoastronômica. 2000. 103 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Astronomia) — Observatório do Valongo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/18898/1/FPLima.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
LUZ, Sabina Ferreira Alexandre. O estabelecimento da Hora Legal Brasileira: o Brasil adota o meridiano de Greenwich. 2014. 150 f. Dissertação (Mestrado em História Social) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2014. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1785.pdf. Acesso em: 04 dez. 2025.
MARQUES, Manuel Nunes. Calendário Gregoriano. Porto Alegre: Museu de Topografia Prof. Laureano Ibrahim Chaffe / Departamento de Geodésia – UFRGS. Disponível em: https://museudetopografia.ufrgs.br/museudetopografia/images/acervo/artigos/Calendrio_gregoriano.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
MATAILLET, Dominique. Le Réveillon, from Fast to Feast. France-Amérique, 28 dez. 2023. Disponível em: https://france-amerique.com/le-reveillon-from-fast-to-feast/. Acesso em: 04 dez. 2025.
MENDOZA, Sergio. A mathematical construction of the 260 day mesoamerican calendar based on archaeoastronomical alignments. arXiv, 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2309.00598. Acesso em: 02 dez. 2025.
NAVARRO, Alexandre Guida. A civilização maia: contextualização historiográfica e arqueológica. História (São Paulo), v. 27, n. 1, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/i/2008.v27n1/ (Artigo “The Mayan Civilization: historiographic and archeological contextualization”). Acesso em: 02 dez. 2025.
OBSERVATÓRIO NACIONAL. Hora Legal Brasileira. Rio de Janeiro: Observatório Nacional, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/observatorio/pt-br/servicos/servicos-astronomia/anuarios-do-observatorio-nacional/documentos/anuarios/2020/secaoh_site_2020.pdf. Acesso em: 04 dez. 2025.
PAIVA, José Pedro. Bispos, imprensa, livro e censura no Portugal de quinhentos. Revista de História das Ideias, Coimbra, v. 28, p. 115-150, 2007. Disponível em: https://ap1.sib.uc.pt/handle/10316.2/41640?utm. Acesso em: 11 dez. 2025.
RIBEIRO, Ana Laura e RUBIN, Andressa. Arqueoastronomia e Astronomia Afro-Indígena. Porto Alegre: IF/UFRGS. Disponível em: https://www.if.ufrgs.br/~mittmann/1_Arqueoastronomia_e_Astronomia_Afroindigena_%282%29.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
RODRIGUES, Marta de Souza. A diversidade do conhecimento sobre o céu e o ensino de astronomia: propostas didáticas e potencialidades da astronomia cultural. 2015. 185 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências) — Instituto de Física, Instituto de Química, Instituto de Biociências e Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81131/tde-21032016-141809/publico/Marta_de_Souza_Rodrigues.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
WINLOCK, H. E. The Origin of the Ancient Egyptian Calendar. Proceedings of the American Philosophical Society, vol. 83, no. 3, 1940, pp. 447–64. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/985113. Acesso em: 02 dez. 2025.