Documento da Semana | A Noite das Garrafadas nas páginas da Aurora Fluminense
13 mar 2026
Durante o reinado de D. Pedro I, a imprensa constituiu um espaço central de disputa política, marcado por forte polarização e linguagem combativa, em que os jornais atuavam, de certa forma, como instrumentos de intervenção e não apenas de informação. As principais correntes ideológicas podem ser identificadas como liberais moderados, defensores da monarquia constitucional e da limitação legal do poder imperial; os liberais exaltados, que mobilizavam um discurso mais radical em torno da soberania popular e da ampliação da participação política; e os setores absolutistas ou restauradores, que enfatizavam a autoridade do imperador, a ordem e o temor da anarquia. Vale ressaltar que essas correntes não eram blocos homogêneos, mas redes políticas fluidas, cujas fronteiras eram constantemente redefinidas no debate público.
Tais posições articulavam-se a redes políticas e associativas — os confrontos mobilizaram identidades políticas frequentemente expressas como oposição entre ‘brasileiros’ e ‘portugueses’, categorias que, naquele contexto, funcionavam também como marcadores de alinhamento político e não apenas de origem nacional —, fazendo da imprensa um agente ativo na construção das divisões políticas, na definição de adversários e na difusão de categorias como liberdade, despotismo e patriotismo, estruturando uma esfera pública conflitiva no Brasil do Primeiro Reinado. Neste contexto, o jornal Aurora Fluminense se destaca como um dos principais jornais liberais moderados da Corte.
Em um desses eventos – que ficou conhecido como a Noite das Garrafadas (1831) –, o Aurora Fluminense foi elemento importante na cobertura dos acontecimentos: sob a direção de Evaristo da Veiga, o periódico adotou uma postura constitucionalista, buscando interpretar os tumultos como resultado da tensão política entre portugueses ligados ao absolutismo e brasileiros defensores da monarquia constitucional que já vinha causando turbulências há tempos.
Mas o que foi a Noite das Garrafadas? Em 11 de março os festejos organizados por comerciantes em homenagem a D. Pedro I com luminárias e fogos nas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro serviram como estopim dos conflitos. Na ocasião, o Imperador retornava de uma viagem à Minas Gerais onde tentava conter agitações federalistas locais quando circularam rumores de que o imperador poderia dissolver o Parlamento, o que intensificou o clima de desconfiança e mobilização política.

https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=706795&pagfis=2020
Sobre os feitos da noite de 13 de março, o jornal descreveu minuciosamente os confrontos rua a rua, destacando os gritos de “viva a Constituição” dos liberais e a resposta dos restauradores com “viva o imperador absoluto”, seguida do arremesso de garrafas, pedras e paus das janelas – daí veio o nome.
A Aurora buscou equilibrar sua narrativa: condenou tanto os excessos dos restauradores quanto os arroubos dos liberais, especialmente os vivas à federação, vistos como ameaça à ordem constitucional. O jornal denunciou a suposta conivência inicial da polícia com grupos portugueses — interpretação que evidencia o clima de desconfiança institucional que caracterizava o momento.
Nos dias subsequentes acompanhou os desdobramentos dos tumultos e as prisões de jovens oficiais brasileiros, interpretadas como sinais de instabilidade política e defendeu providências parlamentares que garantissem a ordem.
Os tumultos de março integraram o conjunto de tensões que culminaram na abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, menos de um mês após a Noite das Garrafadas. As páginas da Aurora não apenas registraram os acontecimentos, mas contribuíram para enquadrá-los politicamente, moldando interpretações e definindo responsabilidades no calor dos acontecimentos, tornando-se fonte importante para o estudo e interpretação daquele período conturbado.

Referências:
A Aurora Fluminense : jornal politico e litterario. Rio de Janeiro, RJ: Typ. do Diário, 1827-1839. 30 cm. Disponível em: Acesso em: 19 Feb. 2026. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=706795&pagfis=2020. Acesso em: 19 Feb. 2026.
Tais posições articulavam-se a redes políticas e associativas — os confrontos mobilizaram identidades políticas frequentemente expressas como oposição entre ‘brasileiros’ e ‘portugueses’, categorias que, naquele contexto, funcionavam também como marcadores de alinhamento político e não apenas de origem nacional —, fazendo da imprensa um agente ativo na construção das divisões políticas, na definição de adversários e na difusão de categorias como liberdade, despotismo e patriotismo, estruturando uma esfera pública conflitiva no Brasil do Primeiro Reinado. Neste contexto, o jornal Aurora Fluminense se destaca como um dos principais jornais liberais moderados da Corte.
Em um desses eventos – que ficou conhecido como a Noite das Garrafadas (1831) –, o Aurora Fluminense foi elemento importante na cobertura dos acontecimentos: sob a direção de Evaristo da Veiga, o periódico adotou uma postura constitucionalista, buscando interpretar os tumultos como resultado da tensão política entre portugueses ligados ao absolutismo e brasileiros defensores da monarquia constitucional que já vinha causando turbulências há tempos.
Mas o que foi a Noite das Garrafadas? Em 11 de março os festejos organizados por comerciantes em homenagem a D. Pedro I com luminárias e fogos nas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro serviram como estopim dos conflitos. Na ocasião, o Imperador retornava de uma viagem à Minas Gerais onde tentava conter agitações federalistas locais quando circularam rumores de que o imperador poderia dissolver o Parlamento, o que intensificou o clima de desconfiança e mobilização política.

https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=706795&pagfis=2020
Sobre os feitos da noite de 13 de março, o jornal descreveu minuciosamente os confrontos rua a rua, destacando os gritos de “viva a Constituição” dos liberais e a resposta dos restauradores com “viva o imperador absoluto”, seguida do arremesso de garrafas, pedras e paus das janelas – daí veio o nome.
A Aurora buscou equilibrar sua narrativa: condenou tanto os excessos dos restauradores quanto os arroubos dos liberais, especialmente os vivas à federação, vistos como ameaça à ordem constitucional. O jornal denunciou a suposta conivência inicial da polícia com grupos portugueses — interpretação que evidencia o clima de desconfiança institucional que caracterizava o momento.
Nos dias subsequentes acompanhou os desdobramentos dos tumultos e as prisões de jovens oficiais brasileiros, interpretadas como sinais de instabilidade política e defendeu providências parlamentares que garantissem a ordem.
Os tumultos de março integraram o conjunto de tensões que culminaram na abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, menos de um mês após a Noite das Garrafadas. As páginas da Aurora não apenas registraram os acontecimentos, mas contribuíram para enquadrá-los politicamente, moldando interpretações e definindo responsabilidades no calor dos acontecimentos, tornando-se fonte importante para o estudo e interpretação daquele período conturbado.

Arte ilustrativa utilizada como peça de divulgação nas redes sociais institucionais
Autor/criador: Wilian Correia
Referências:
A Aurora Fluminense : jornal politico e litterario. Rio de Janeiro, RJ: Typ. do Diário, 1827-1839. 30 cm. Disponível em: Acesso em: 19 Feb. 2026. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=706795&pagfis=2020. Acesso em: 19 Feb. 2026.