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Documento da Semana | As Américas pelo Olhar dos Viajantes

31 dez 2025

Desde a chegada dos europeus às Américas, entre os séculos XVI e XVII, cronistas, missionários e viajantes produziram uma ampla documentação sobre o chamado “Novo Mundo”. Cartas, diários, informes administrativos e narrativas de missão descreviam paisagens, povos, costumes e uma natureza até então desconhecida aos europeus. Com a criação da prensa de tipos móveis, muitos desses relatos circularam pela Europa, alimentando a curiosidade, o fascínio e a imaginação sobre territórios distantes. Ao interpretar o que lhes parecia novo e estranho, os cronistas recorriam a referências europeias, criando imagens frequentemente idealizadas, exóticas ou distorcidas das populações indígenas e do ambiente americano.

Parte dessas narrativas foi preservada em bibliotecas, arquivos e museus, tornando-se fontes essenciais para a pesquisa histórica. Embora expressem interesses políticos, religiosos e econômicos — afinal, muitos autores serviam a monarquias ou à Igreja — esses documentos registram algumas das primeiras descrições de sociedades indígenas, paisagens, práticas cotidianas e dos próprios processos de colonização.

Entre essas obras destaca-se "Newe Welt vnd americanische Historien" (edição de 1655), de Johann Ludwig Gottfried. Foi teólogo e tradutor protestante formado em Heidelberg. Atuou como diácono reformado e, mais tarde, dedicou-se ao trabalho editorial em Frankfurt, colaborando com importantes casas editoras, especialmente a de Theodor de Bry, cuja oficina acabou herdando.

A obra de Gottfried sintetiza a vasta série de viagens organizada por De Bry — 25 volumes e cerca de 1.500 gravuras — produzida a partir de relatos de viajantes como Hans Staden e Jean de Léry. Em parceria com Matthaeus Merian, Gottfried reuniu e condensou os principais conteúdos em um único volume ricamente ilustrado, preservando as célebres gravuras em cobre da série original.

A publicação é organizada em três partes: a Descrição das terras do Novo Mundo apresentando a geografia, recursos naturais, rios, montanhas, cidades e colônias; Fauna e fenômenos naturais; povos indígenas, tratando de costumes, organização social e práticas religiosas.

O livro incorporou ainda diversos relatos — de Colombo a navegadores do século XVII — acompanhados por um extenso repertório iconográfico que contribuiu decisivamente para moldar o imaginário europeu sobre as Américas.

Obras como “Newe Welt vnd americanische Historien” permitem reconstruir aspectos da vida social e cultural do período e compreender como os europeus interpretavam o que encontravam, justificavam a expansão colonial e representavam os povos americanos. Quando analisados criticamente e comparados entre si e com outras fontes, revelam tensões, contradições e silêncios que dizem tanto sobre os observadores quanto sobre as sociedades que buscavam descrever.


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Referências:

GOTTFRIED, Johann Ludwig. Newe Welt vnd americanische historien: Inhaltende Warhfftige vnd vollkommene beschreibungen aller Westindianischen lanschafften... 2.ed Franckfurt am Mayn [Frankfurt, Alemanha]: bey denen Merianischen Erben, 1655. [4]f., 661 [2]p., il., 1 mapa desd., 32,5cm. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or1394678/or1394678.pdf. Acesso em: 25 Nov. 2025.

O’GORMAN, Edmundo. La invención de América: investigación acerca de la estructura histórica del Nuevo Mundo y del sentido de su devenir. 4. ed. México: FCE, 2006.

STEIGLEDER, Carlos Geovane. Staden, Thevet e Léry: olhares europeus sobre o índio e sua religiosidade. São Luís: Edfuma, 2010.