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Fugas de escravizados e os anúncios de fuga

20 nov 2023

Artigo arquivado em História do Brasil, Memória
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A escravidão foi uma realidade no Brasil entre os séculos XVI e XIX. Ela afetou diretamente a vida de milhares de africanos – e também de seus descendentes. Muitas vezes, a vida desses sujeitos que foram escravizados por várias gerações é lembrada apenas na condição de vítimas passivas de um sistema cruel que os maltratava e desumanizava. Já se falou muito sobre os horrores da travessia pelo oceano Atlântico dentro do convés de um navio negreiro; os possíveis traumas da experiência – que poderia se repetir mais de uma vez – de ser vendido e comprado por um novo proprietário; as agressões físicas e psicológicas cometidas contra uma pessoa escravizada. Contudo, cabe destacar que esses africanos e seus descendentes, apesar de toda a violência existente em torno da escravidão no Brasil, resistiram a ela de inúmeras formas. Cada um interpretou sua realidade e acionou as estratégias que julgou mais pertinentes.

Uma das maneiras de resistir a escravidão muito empregada pelos africanos e seus descendentes foi a fuga. Diferentes relatos, de viajantes estrangeiros e até proprietários de escravizados, enfatizaram como episódios de fuga eram corriqueiros no cotidiano da escravidão. Perdigão Malheiro, famoso jurista do século XIX, assinalou que “a fuga é inerente a escravidão. É um dos seus corretivos naturais. É tanto mais frequente, quanto maior é o rigor do cativeiro. Em toda parte e em todos os tempos assim tem sido. Os periódicos o atentam [...]”.[1] O reverendo inglês Robert Walsh também compreendeu que as fugas de escravizados não eram episódios isolados. Como ele fez isso? Um escravizado fugido quando capturado poderia ser punido com o uso obrigatório de um colar de ferro. A partir dessa informação, ele constatou que o número de escravizados que fugiam era demasiado alto, uma vez que havia em fins dos anos 1820, no Rio de Janeiro, uma multidão de escravizados perambulando pelas ruas da cidade portando colares de ferro. Robert Walsh, assim como Perdigão Malheiros, também enxergou a realidade das fugas impressas nas páginas da imprensa periódica: “No Jornal do Commercio e no Diário [do Rio de Janeiro] há sempre dez ou doze anúncios de escravos fugidos” – registrou Walsh em suas anotações.[2]

Não é exagero associar, no século XIX, fugas de escravizados com a publicação de anúncios de fuga em jornais. Isso havia se tornado tão normal ao longo desse século que o escritor Bernardo Guimarães ao publicar nos anos 1870 o romance “Escrava Isaura” construiu o enredo da captura de uma escravizada justamente a partir da publicação de anúncios de fuga no Jornal do Commercio.

Se as fugas dos escravizados realmente aconteciam com toda essa intensidade, significa então que não se deve negligenciá-las. Estudar mais sobre elas permite que tenhamos uma melhor compreensão dos horizontes de expectativa de vida de milhares de africanos e seus descendentes que viveram no Brasil. Uma maneira para obter maiores informações sobre o que os escravizados em fuga faziam, para onde se dirigiam, como se mantinham longe de seus proprietários, é justamente analisando os anúncios de fuga publicados em jornais do século XIX.

Esses anúncios são narrativas bem curtas. Todavia, eles contêm ricos detalhes sobre os escravizados e o que podiam estar fazendo durante suas fugas. Esses pequenos textos eram produzidos pelos donos dos escravizados que escaparam. Como queriam capturar seus escravizados, esses donos faziam uma densa descrição sobre o fujão, ressaltando sua fisionomia, doenças e/ou deformidades, indumentária, formas de sociabilidades, nome, procedência étnica ou nacionalidade, tempo de fuga, cor, sexo, idade, ocupação. Sem omitir as características fisionômicas e corpóreas, as razões das fugas, bem como as artimanhas utilizadas pelos escravizados para se manterem fora do domínio senhorial – que os senhores escreviam anúncios de fuga a fim de serem publicados em periódicos, pois acreditavam que assim conseguiriam capturar seus escravizados com maior rapidez. A Biblioteca Nacional preserva em seu acervo vários desses jornais do século XIX que contém inúmeros anúncios de fuga em suas páginas: Diário do Rio de Janeiro, Jornal do Commercio e Gazeta do Rio de Janeiro são alguns desses periódicos. Muitos jornais que foram produzidos ao longo do século XIX podem agora mesmo ser acessados através da Hemeroteca Digital, no seguinte site disponibilizado pela Biblioteca Nacional.

A Gazeta do Rio de Janeiro do dia 07 de janeiro de 1809 contém o primeiro anúncio de fuga publicado num periódico produzido no Brasil. Ele aparece na última página dessa edição, na seção de “AVISOS”. Abaixo, temos a reprodução desse anúncio:

Figura 1 – Anúncio de fuga em 07/01/1809

Fonte: Gazeta do Rio de Janeiro, 07/01/1809.

A Gazeta do Rio de Janeiro foi produzida até o ano de 1822. Durante seu período de existência, foram impressas em suas páginas um total de 353 anúncios de fuga de escravizados. Esses anúncios são importantíssimos, pois eles foram os primeiros a serem publicados na imprensa que havia se estabelecido no Brasil a partir do ano de 1808. Eles permitem que conheçamos com maiores detalhes um fragmento da vida de 406 indivíduos que foram escravizados nas primeiras décadas do século XIX. A análise cuidadosa dessa documentação indica que os escravizados não fugiam tão-somente porque a escravidão era um sistema cruel demais – conforme as percepções, talvez bem simplórias, de Perdigão Malheiros e Robert Walsh vistas acima. Mais que escapar dos rigores do escravismo, homens e mulheres, de diversas idades, vindo da África ou nascido no Brasil, ao fugir, podiam estar tentando construir espaços de autonomia dentro dessa sociedade escravista. É isso, por exemplo, que se percebe no anúncio publicado na Gazeta do Rio de Janeiro que será reproduzido a seguir:

Figura 2 – Anúncio em 23.03.1816

Fonte:  Gazeta do Rio de Janeiro, 23/03/1816.

O africano que atendia pelo nome de Joaquim não havia fugido para integrar um quilombo numa área afastada da sociedade. Seu proprietário, Manoel Gomes de Oliveira Couto, havia descoberto que sua estratégia era se passar por liberto e ficar trabalhando para estrangeiros. Será que esses estrangeiros que estavam empregando Joaquim não desconfiavam que ele não poderia ser um liberto? Ou sabiam que ele havia fugido e estavam se aproveitando dessa situação? São perguntas que podemos fazer e nos ajudam a entender como Joaquim conseguia se proteger e não ser capturado. Elas nos indicam que Joaquim podia contar com uma rede de apoio durante sua fuga. Muitos escravizados quando fugiam podiam também tentar se passar por libertos e acionar uma rede de apoio que os encobertasse em troca de alguma forma de prestação de trabalho. Outros podiam ser mais criativos. É o que podemos ver no anúncio reproduzido abaixo da Gazeta do Rio de Janeiro de 11 de outubro de 1815:

Figura 3 – Anúncio em 11.10.1815

Fonte: Gazeta do Rio de Janeiro, 11/10/1815.

O anúncio foi escrito por causa de uma mulher africana, nomeada de Maria. Ela havia fugido de Ignacio da Luz Silva há pouco mais de três meses. Para capturá-la, Ignacio fez questão de informar como ela estaria vestida e não poupou sequer minúcias sobre os dentes dela. É interessante que Ignacio estava recebendo notícias sobre o que Maria fazia. Isso nos permite hoje compreender um pouco mais sobre o que os escravizados realizavam quando fugiam. No caso de Maria, ao que parece, ela costumava “dizer quando tem sido encontrada, que já não anda fugida”. Bem original a estratégia dela, não?

Figura 4 – Punição ao escravizado

Fonte: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon703597/icon703597.jpg

Os anúncios de fuga podem ser lidos como pequenas biografias de africanos e seus descendentes nascidos no Brasil. Em poucas linhas, eles contam histórias de seres humanos que lutaram, com as táticas que elaboravam, por maiores espaços de autonomia e liberdade. Nessas narrativas emergem sujeitos escravizados com intenções próprias e que não esperavam concretizá-las confiando somente na sua inteligência (andar calçado e bem-vestido para se passar por liberto) e força física. Pelo contrário, eles, quando fugiam, podiam estar acionando a ajuda, auxílio ou conivência de diversas personagens – escravizados, forros e livres de diferentes segmentos sociais – sensíveis e/ou com interesses na sua causa. Esses escravizados demonstravam um grau de consciência singular: ao fugir, poderiam conseguir aproximar, até que fossem borradas, as fronteiras da escravidão com a liberdade, mas também, distanciá-las mais ainda, terminando punidos com colares de ferro no pescoço. Por isso, as fugas de escravizados e os anúncios de fuga publicados em jornais ao longo do século XIX devem ser amplamente estudados, pois eles dão acesso a uma parte do que africanos e seus descendentes viveram no Brasil.

Figura 5 – Desconfiança com policial

Fonte: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon70370/icon70370_10.jpg

 

BIBLIOGRAFIA:
FREYRE, Gilberto. O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. São Paulo: Editora Nacional; Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1979.

Gazeta do Rio de Janeiro, 1808-1822.

GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. São Paulo: Klick Editora.

MALHEIRO, Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico e social. Vol. 2. Petrópolis: Vozes, 1976.

WALSH, Robert. Notícias dos Brasil (1828-1829). v. 2. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985.

KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

MOREL, Marco; BARROS, Mariana Gonçalves Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): cultura e sociedade. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2007.

[*] Mestre em História; Especialista em Ensino de História. Professor de História da rede municipal do Rio de Janeiro e da rede estadual do Rio de Janeiro. Foi bolsista do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional em 2008.

[1] MALHEIRO, Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico e social. Vol. 2. Petrópolis: Vozes, 1976, p. 34.

[2] WALSH, Robert. Notícias dos Brasil (1828-1829). v. 2. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985, p. 160.