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História do Livro | livros e Bibliotecas na Idade Moderna

06 out 2020


e marcado com as tags Bibliotecas Na Idade Moderna, Conrad Gesner, Gabriel Naudé, História do Livro

Desde as primeiras décadas do estabelecimento da imprensa com tipos móveis, tanto a indústria quanto o mercado editorial cresceram exponencialmente, alcançando vários países europeus. O livro deixou de ser um objeto artesanal e teve sua circulação ampliada, o que ganhou ainda mais força a partir do século XVI, quando Aldo Manuzio e outros editores passaram a publicar livros mais baratos e em formatos menores.

O Renascimento científico e a Reforma Protestante contribuíram de diversas formas para a indústria do livro. Os estudiosos viram sentido em investir em edições bem-cuidadas, ilustradas, de seus trabalhos, que agora não mais teriam de ser copiados à mão; as obras em língua vernácula se multiplicaram; novas universidades surgiram na Europa, tais como as de Wittemberg, na Alemanha (fundada em 1502), a de Genebra (1559) e a de Edimburgo (1583). Também surgiram bibliotecas, tanto universitárias como municipais, principalmente na Alemanha (uma iniciativa de Lutero e Melanchton), mas também em cidades da França e da Holanda. E, no século XVI, foram fundadas as bibliotecas que, hoje, detêm o status de Biblioteca Nacional na França e na Áustria, a partir das “livrarias” (coleções particulares) da família real de cada país.

Peter Burke, historiador dedicado à Idade Moderna, observa que, enquanto os maiores centros editoriais ficavam com frequência em cidades que funcionavam como polos culturais e/ou eram sede de empresas voltadas para o comércio e a exploração colonial (Veneza no século XVI, Amsterdam no XVII, Londres a partir da segunda metade do século XVIII), as bibliotecas tanto podiam estar em cidades grandes, como a maior parte das italianas e francesas, quanto noutras, menores, que sediavam universidades (como é o caso da Bodleian, em Oxford, fundada em 1602); ou, ainda, em locais determinados pelos fundadores ou mecenas, como a Biblioteca do Escorial, criada em 1565 pelo rei Filipe II da Espanha.

Na Itália dos séculos XVI e XVII, as maiores bibliotecas estavam em Florença, Veneza, Milão, Nápoles e Roma. Também na França as grandes cidades eram mais favorecidas: um guia parisiense de 1692 arrola três bibliotecas públicas e nada menos que 32 outras particulares abertas à consulta, apenas na capital. Burke cita ainda a existência de bibliotecas um pouco menores nos países escandinavos e no leste europeu, onde havia um número bem menor de oficinas de impressão e livrarias; os estudiosos deviam se contentar com coleções mais modestas ou viajar para países como a Alemanha e a Holanda. No entanto, segundo o historiador, algum material proveniente de centros editoriais maiores lhes era encaminhado. Em Amsterdam, por exemplo, onde a família Blaeu e seu rival Willem Jansson produziam mapas e atlas, havia publicações em idiomas como o russo, o armênio e o iídiche para atender ao mercado do leste. E foi também em Amsterdam que, no final do século XVII, o czar Pedro I da Rússia – conhecido como Pedro, o Grande -- fez imprimir obras científicas para serem usadas em seus domínios.

A crescente produção editorial e a multiplicação de universidades, bibliotecas e outros lugares dedicados ao saber demandaram novas formas de organização do conhecimento. Burke explica que os currículos universitários foram reestruturados: o sistema formado por sete artes liberais, divididas em “trivium” (Gramática, Lógica e Retórica) e “quadrivium” (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música) e acrescido de Ética, Metafísica e Ciências Naturais, que até por volta de 1450 foi a base dos estudos em todas as universidades europeias, foi sendo modificado para dar lugar a novas ciências, tais como a Química, a História e a Geografia (também chamada de Cosmografia). Isso se refletiu na classificação dos livros, na forma de organizá-los nas bibliotecas públicas e privadas e na criação de catálogos e bibliografias.

Na tentativa de sistematizar o conhecimento, o naturalista Conrad Gesner (Zurique, 1516 – 1565), grande estudioso de Zoologia e Botânica, publicou, em 1545, uma obra monumental, que lhe exigiu quatro anos de trabalho e visitas a diversas bibliotecas da Itália e da Alemanha: “Bibliotheca universalis”, uma lista em ordem alfabética de tudo quanto já havia sido impresso em latim, grego e hebraico. Isso incluiu aproximadamente 10.000 títulos de 3.000 autores. Em 1548, publicou um índice temático que dividia as obras em 21 seções, entre as quais Magia, Astrologia e Adivinhação, temas constantes nas publicações do beneditino Johannes Trithemius (1462 – 1516), em quem Gesner parece ter baseado seu sistema de classificação.

Conheça a “Bibliotheca Universalis”, obra pertencente à Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Os esforços de Gesner foram valiosos para bibliotecários como Hugo Blotius, da Biblioteca Imperial de Viena, e forneceram bases para outros sistemas, como o de Florian Treffler (1483 – 1565) e o do filósofo Francis Bacon (1526 – 1561). Este, por sua vez, serviu de referencial para o trabalho de um importante nome da Biblioteconomia, Gabriel Naudé (Paris, 1600 – 1653), que trabalhou para quatro diferentes cardeais, entre os quais Richelieu e Mazarino, e percorreu a Europa comprando cerca de 40.000 livros e manuscritos que viriam a compor o núcleo da Biblioteca Mazarino, a mais antiga biblioteca pública da França, situada em Paris.

Além de alguns tratados sobre política, Naudé escreveu “Advis pour dresser une bibliothèque” (1627), ou seja, “Conselhos para Montar uma Biblioteca”, que vem a ser o primeiro manual de Biblioteconomia. Nele, além de propor várias inovações e discorrer sobre questões práticas, fornece dois valiosos conselhos:

1. Melhor do que seguir esquemas “extravagantes” de classificação é utilizar um sistema simples, a fim de encontrar as obras desejadas “sem trabalho, sem dificuldade e sem confusão” e

2. Não se deve julgar um livro pela aparência e sim pelo conteúdo.

Conheça, digitalizado a partir do microfilme, o livro de Naudé, que também integra o acervo da Divisão de Obras Raras.




Imagem do frontispício de “Bibliotheca Universalis”, de Conrad Gesner.