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História do Livro | Monteiro Lobato, Editor

22 maio 2021

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A produção e o comércio de livros no Brasil oitocentista e na primeira década do século XX dependeram, em grande parte, da parceria entre editores e livreiros brasileiros e seus pares europeus. Muitos volumes que aqui circulavam eram importados, e muitas editoras, como a Garnier e a Francisco Alves, faziam imprimir seus livros em tipografias no exterior.

Segundo Laurence Hallewell, a atividade editorial decresceu bastante a partir de 1890, e mais ainda ao se iniciar a Primeira Guerra Mundial. O envio de obras, por encomenda, a várias localidades do país não era difícil, mas os pontos de venda a varejo eram muito escassos, limitando-se a umas poucas livrarias, quase todas no Rio de Janeiro e São Paulo. Os autores, à exceção dos muito conhecidos, tais como Machado de Assis, Coelho Neto e Júlia Lopes de Almeida (vários dos quais tinham seus livros impressos no exterior), deviam pagar pela impressão de seus livros ou, quando não, aguardar pacientemente por um retorno nas vendas. Muitos se encarregavam, eles mesmos, da distribuição e da divulgação das obras.

Veja a caderneta em que Lima Barreto detalha seus esforços para divulgar “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado às suas próprias expensas em 1916 (acervo da Divisão de Manuscritos).

Foi em meio a esse cenário que emergiu a figura de Monteiro Lobato. Natural de Taubaté, SP, nasceu em 1882, formou-se em Direito e foi promotor público antes de assumir a fazenda de café de sua família. As dificuldades de lidar com a agricultura o levaram a escrever sobre isso numa carta ao jornal “O Estado de São Paulo”, que saiu em 1914 com o título “A Velha Praga” e se tornou seu primeiro texto de grande circulação. A ele se seguiram outros artigos e contos, bem como a extensa produção literária conhecida da maior parte dos brasileiros, em especial os livros infantis.

Ao mesmo tempo que escrevia, Monteiro Lobato se lançou como empresário no ramo editorial, o qual, segundo sua correspondência com o escritor Godofredo Rangel, já lhe interessava desde antes de vender sua fazenda, em 1917. Já então colaborava com a “Revista do Brasil”, fundada em 1916 por Júlio de Mesquita, e que Lobato viria a adquirir dois anos depois. Logo passou a publicar livros, principalmente da autoria de amigos, tais como Martim Francisco e Valdomiro Nogueira e o correspondente de quatro décadas, Godofredo Rangel. Segundo anunciava, estava em busca de novos talentos, autores pouco conhecidos, o que o levou a receber centenas de originais. De Lima Barreto, publicou “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, que não atingiu o patamar de vendas esperado, levando-o a recusar o próximo título oferecido pelo autor. Outros iniciantes traziam grande retorno. Para citar um exemplo, Paulo Setúbal, autor do livro de poemas “Alma Cabocla” e do romance histórico “A Marquesa de Santos”, traduzido para diferentes idiomas, se firmou como o romancista brasileiro de maior vendagem no final dos anos 1920.

Leia uma carta de Lima Barreto a Monteiro Lobato, tratando das condições para a publicação de seu livro (acervo da Divisão de Manuscritos)

Um dos maiores problemas da indústria editorial no Brasil, a distribuição ganhou um novo fôlego a partir da iniciativa de Lobato. Com a ajuda de agentes postais, que lhe forneceram endereços, ele escreveu a comerciantes de todo o país oferecendo livros para venda em consignação. Assim conseguiu cerca de dois mil pontos de venda, embora seu sistema não fosse isento de falhas. Cilza Bignotto, da UFOP, que pesquisou extensamente a faceta editorial de Lobato, informa que os preços dos livros eram impressos na contracapa, o que, somado às grandes tiragens, deveria assegurar que tivessem um preço atraente. Os vendedores, contudo, muitas vezes informavam que o preço valia apenas para São Paulo, assim obtendo mais lucro... e possivelmente perdendo compradores.

Em 1920, em parceria com Octalles Marcondes, Lobato rebatizou sua empresa como “Monteiro Lobato & Cia.”, investiu no maquinário, na tipografia e em inovações voltadas para o projeto gráfico. Também passou a importar papel de melhor qualidade e a publicar em formato menor que o usual, barateando os custos. Além disso, começou a publicar livros didáticos, bem como os seus próprios livros da série “Sítio do Picapau Amarelo”. O primeiro deles, “A Menina do Narizinho Arrebitado” (1920), foi divulgado por meio de uma campanha assertiva: além de ganhar um anúncio de página inteira no jornal, teve 500 exemplares distribuídos gratuitamente em escolas paulistas, assim chegando de uma vez a um grande número de leitores.

Veja a primeira edição da “Narizinho”, ilustrada por Voltolino (acervo de Obras Gerais).

Nos primeiros anos da década de 1920, a atividade editorial no Brasil sofreu mais um choque, com uma crise econômica que fez cair o valor da moeda e encareceu a matéria-prima. Apostando em melhores tempos, Lobato deixou de lado a publicação de novos nomes e passou a investir em traduções – muitas delas assinadas por ele próprio e bastante livres, constituindo-se a bem dizer em recriações da obra original – e em livros didáticos, adquiridos pelo governo. Em 1925, a gráfica da agora chamada Cia. Gráfico-Editora Monteiro Lobato, equipada com o que havia de mais moderno, ocupava um galpão de 5.000 m2 em São Paulo. No mesmo ano, porém, após reviravoltas políticas e em retaliação a críticas feitas por Lobato, o Presidente Artur Bernardes suspendeu todas as aquisições de livros da empresa, que acabou por ter de abrir falência.

Persistentes, Monteiro Lobato e Octalles Marcondes continuaram no ramo com a Cia. Editora Nacional, que iniciou suas publicações pelo relato de Hans Staden, “Meu Cativeiro entre os Selvagens do Brasil”. Marcondes ficava à frente dos negócios, enquanto Lobato, responsável por uma filial no Rio de Janeiro, escrevia cada vez mais e investia em ramos diferenciados. O crash da Bolsa de Valores norte-americana, em 1929, trouxe perdas que o levaram a vender sua parte da editora para o irmão de Octalles, mas continuou ligado à Cia. Editora Nacional na qualidade de autor e tradutor. Por fim, em 1944, foi um dos fundadores da Editora Brasiliense, juntamente com Caio Prado Jr., Artur Neves e o casal Leandro e Maria José Dupré. Morreu em 1948, dois dias após ter concedido uma entrevista defendendo a campanha “O Petróleo é Nosso”.
A atuação de Monteiro Lobato é vista por muitos como um divisor de águas na história do livro no Brasil. Sem ter sido, propriamente, um revolucionário, trouxe inovações, modernizou e ampliou práticas editoriais que auxiliaram na difusão e na circulação dos livros, além de popularizar a leitura por meio de obras mais baratas e contribuir para as políticas educacionais e de formação de leitores.



Trecho de carta de Monteiro Lobato a Lima Barreto, apresentando a nova capa do livro “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” (acervo da Divisão de Manuscritos)