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História do Livro | O Editor Paula Brito

02 fev 2021

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Os anos que se seguiram à Independência viram crescer a atividade tipográfica no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, sede da Corte. Livros, folhetos, partituras e periódicos saíam diariamente dos prelos e eram vendidos nas livrarias das casas impressoras, várias das quais eram filiais de empresas estabelecidas na Europa.

Em meio a nomes como Plancher, Villeneuve, Laemmert e Leuzinger destaca-se um de sonoridade bem brasileira: o de Francisco de Paula Brito (1809 – 1861), que atuou na área editorial desde 1831 até sua morte e foi um dos principais articuladores da vida cultural e intelectual naquele período. Em crônica datada de 1865, publicada no Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis se referiu a ele como “o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós” – opinião que ganha força tendo em vista não apenas o papel de relevo ocupado por Paula Brito na história editorial do Brasil, mas também o fato de que, segundo especialistas em História do Livro, foi justamente por volta de 1830 que a figura do editor passou a se distinguir da do impressor e livreiro, definindo novos parâmetros para a indústria e o mercado editorial.

Paula Brito é um exemplo desse novo modelo de editor. Filho de escravizados libertos, ingressou aos 15 anos como aprendiz na Tipografia Nacional, sucessora da Impressão Régia, de onde passou à Tipografia de R. Ogier e mais tarde à de Seignot-Plancher. Nesta, segundo o professor da UFF Aníbal Bragança, foi compositor e mais tarde ocupou os cargos de diretor de prensas, redator e tradutor. Em 1831, comprou uma loja de encadernação e livros, situada na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, à qual anexou um prelo de madeira.

Entre setembro e novembro de 1833, Paula Brito publicou cinco números do jornal “O Homem de Cor”, depois chamado “O Mulato ou o Homem de Cor”. Segundo Marcos Fabrício da Silva, da UFMG, a publicação marca o início da imprensa feita por negros no país.

Conheça o periódico na Hemeroteca Digital

Rodrigo Camargo de Godói, professor da UNICAMP e autor de um livro sobre Paula Brito, observa que não se tratava de um jornal abolicionista, mas reivindicava direitos para os homens negros livres, dos quais havia nas capitais um número expressivo. Vários eram letrados e exerciam diferentes ofícios e profissões. Paula Brito contava com alguns em sua oficina, e teria sido o primeiro a dar emprego, como aprendiz de tipógrafo, ao jovem Machado de Assis. Anos mais tarde, o primeiro poema de Machado saiu no “Marmota Fluminense”, o mais famoso dos jornais editados por Paula Brito, que circulou entre 1849 e 1864 e contava com a colaboração de nomes ilustres, tais como Joaquim Manuel de Macedo e o próprio Machado de Assis.

Veja na página 3 da publicação, assinado apenas como “Assis”, o poema “Ella”. “A Marmota Fluminense” circulou a princípio sob o título “A Marmota na Corte” e nos anos finais apenas como “A Marmota”.

Ainda segundo Godói, foi a partir da década de 1840 que Paula Brito começou de fato a prosperar. Aproximou-se do Partido Conservador, ao qual permaneceria ligado até o fim da vida, aproveitou o financiamento proporcionado aos empresários pelo governo e adquiriu um prelo mecânico, importado da França. E, animado pelo sucesso dos romances franceses, decidiu correr o risco financeiro de publicar narrativas brasileiras, começando por seu amigo de juventude, Teixeira de Sousa, e em seguida ampliando seu catálogo com nomes como Macedo, Gonçalves Dias e José de Alencar.

Um dos fundadores da “Sociedade Petalógica” -- grupo de intelectuais que se reunia em sua tipografia para debater histórias inverídicas, boatos e disparates, ou seja, “petas”, e assim refletir sobre a condição humana e desmascarar os mentirosos --, Paula Brito, ao mesmo tempo, se dedicava a traduzir autores clássicos, a escrever contos e poemas, a imprimir periódicos e panfletos de terceiros (cujas identidades garantia manter em segredo) e também os seus próprios, como “A Mulher do Simplício” ou “A Fluminense Exaltada” (1832 – 1846).

Veja, na Hemeroteca Digital, “A Mulher do Simplício”, cuja peculiaridade era ser todo redigido sob a forma de versos.

Nesse jornal, assim como em outras publicações de Paula Brito, fazem-se críticas à condição das mulheres, em especial à prática de casá-las por interesse e com homens muito mais velhos. Cláudia Alves Caldeira, da UERJ, observa ainda que o editor deu espaço a algumas autoras, publicando os poemas de Beatriz Francisca de Assis Brandão e o romance “D. Narcisa de Villar”, de Ana Luiza de Azevedo Castro, que saiu como folhetim.

Desde 1850, a tipografia de Paula Brito se chamava “Dous de Dezembro”, nome dado em homenagem ao aniversário de D. Pedro II. Em 1857, após desentendimentos com os acionistas, a oficina passou a levar apenas o nome do editor e viu sua atividade diminuir. Ainda funcionaria até 1875, administrada pelo genro e pela viúva de Paula Brito. Este faleceu em 1861, “pobre como vivera”, nas palavras de Machado de Assis. Mesmo assim, seu cortejo fúnebre foi extremamente concorrido, prova de sua importância para a cultura e a vida intelectual da Corte.

Conheça os poemas de Paula Brito, publicados em livro póstumo. O original está na Divisão de Obras Raras.




Paula Brito por M. J. Garnier (Divisão de Iconografia)