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Idade d’Ouro do Brazil

27 Nov 2014

Artigo arquivado em Hemeroteca

Segundo periódico publicado no Brasil, o jornal Idade d’Ouro do Brazil foi lançado no dia 14 de maio de 1811, em Salvador, sob a proteção do então governador geral da Bahia, Marcos de Noronha e Brito, o conde dos Arcos. Assim como a pioneira Gazeta do Rio de Janeiro, aparecida em 1808, o periódico baiano era uma espécie de diário oficial da época, feito para dar publicidade aos atos oficiais e defender os interesses da Coroa portuguesa no Brasil. A diferença entre ele e a Gazeta feita na corte é que o Idade d’Ouro do Brazil (também conhecido como “Gazeta da Bahia”) era fruto da iniciativa privada. O jornal era impresso em tipografia fundada pelo comerciante, livreiro, editor e tipógrafo português Manuel Antônio da Silva Serva.

Como revela a nota explicativa “Com permissão do governo”, que era impressa ao final de cada número, a “Gaazeta Baiana” surgiu numa época em que a impressão e a publicação de livros e periódicos eram privilégios de agentes da Coroa portuguesa e sofriam uma série de restrições editoriais.

A circulação do periódico foi autorizada sob a condição de que fosse nomeado um revisor oficial, cargo inicialmente assumido pelo próprio conde dos Arcos, que elaborou regras de redação. Exemplo de uma dessas regras: o jornal “deverá contar as notícias políticas sempre de maneira mais singela, anunciando simplesmente os fatos, sem interpor quaisquer reflexões que tendam direta ou indiretamente a dar qualquer inflexão à opinião pública”. Certamente por corresponder à expectativa real, o editor Manuel Antônio Serva conseguiu em 1815 um empréstimo do governo para aumentar e aprimorar sua oficina.
Além de notas oficiais, o periódico publicava notícias nacionais e informações relativas ao comércio, às artes, às ciências e, eventualmente, à agricultura. Trazia também notícias internacionais reproduzidas de periódicos estrangeiros. Por chegarem ao Brasil com dias de atraso, sua publicação entre nós estava quase sempre defasada.

O jornal era pequeno, com quatro páginas de 17,5 x 10 cm. Ao final havia a seção “Aviso”, com anúncios no valor de 100 réis a linha, referentes a chegadas e partidas de embarcações, comércio de escravos, sociedades mercantis, vendas de mercadorias etc. Desde sua criação, a gazeta tinha que passar pela censura, como tudo o que se publicava no Brasil, mas a seção “Aviso” só passou a ser submetida a tal crivo em 1819.

Os estudos apontam a identidade de dois redatores ao longo da história da publicação, ambos pertencentes à elite culta da época: Gonçalo Vicente Portela, professor de gramática latina, e o padre Inácio José de Macedo, presbítero secular, professor de filosofia e pregador régio. O jornal tinha como epígrafe os versos do poeta português Sá de Miranda: “Falei em tudo verdades/ a quem em tudo as deveis” e circulava às terças e sextas-feiras, com eventuais edições extras.

Maria Beatriz Nizza da Silva, que estudou profundamente o Idade d’Ouro do Brazil – assim como Renato Berbert de Castro, estudioso da imprensa baiana – observou que há uma lacuna referente ao ano de 1820, creditada, provavelmente, à interrupção temporária da publicação após a morte do proprietário, em 1819. O jornal reapareceu em 1821 com novo formato e periodicidade diária (excetuados os domingos), passando mais tarde a circular apenas duas vezes por semana.

Inicialmente, a assinatura podia ser anual (8$000 réis), semestral (4$000 réis) ou trimestral (2$400 réis), paga antecipadamente. O exemplar avulso custava 60 réis. A análise do público-leitor feita por Nizza da Silva demonstra que a gazeta não chegava a ter 200 assinantes em uma população, a baiana, calculada, à época, em 18 mil habitantes. Houve, portanto, considerável esforço ao longo da vida do periódico em obter mais assinantes.

Em seu livro, a autora transcreveu o folheto raro Prospecto da Gazeta da Bahia, publicado um dia antes do lançamento de Idade d’Ouro do Brazil e no qual encontramos as inspirações para o nome do periódico:
“As ciências diariamente se promovem, a agricultura se dilata, as artes se estendem, as fábricas se erigem, o comércio floresce e as quinas portuguesas são consideradas com respeito nos mares do novo e velho mundo. As riquezas afluem de toda a parte, as comodidades aumentam-se cada dia, a justiça e a paz deram-se amigavelmente as mãos para nossa felicidade. Podemos dizer sem receio que esta é a Idade d’Ouro do Brazil. Nem a crítica mais severa tem que repugnar à bem merecida aplicação dum nome tão especioso. Paralelizemos o dourado século de Augusto com a presente idade do Brasil e não temos susto de que se taxe de lisonjeira a alusiva comparação, principalmente na Bahia. Sem descer a detalhes minuciosos, mediremos no complexo de virtudes propriamente reais, que adornam o sublime ânimo do nosso vigilantíssimo soberano e que têm caracterizado todos os atos da sua admirável e providentíssima regência. E nós não vemos, em toda a antiguidade, nem outro tempo, nem outro príncipe que se assemelhe ao que a providência suscitou em nossos dias para fundador deste império brasílico. Esta observação assídua faz que, tendo nós de coordenar uma folha periódica nesta cidade e desejando que o seu título só por si seja a mais firme recomendação para os que a lerem, demos à nossa gazeta da Bahia a denominação adequada: IDADE D’OURO.” (A primeira gazeta da Bahia: Idade d”Ouro do Brazil. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2ª ed., 2005, ps. 36-7).

Exemplares de Idade d’Ouro do Brazil estão espalhados por várias bibliotecas, podendo ser consultados aqui na Biblioteca Nacional, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Biblioteca Nacional de Lisboa, no Arquivo Público e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, onde pode ser encontrado o seu primeiro número.

Fontes consultadas

A primeira gazeta da Bahia: Idade d”Ouro do Brazil, p. 9-58.
DI STASIO, Ângela. Subsídios para uma análise da história de periódicos raros. Anais da Biblioteca Nacional, vol. 114 (1994). Rio de Janeiro, 1996, p. 97.