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Literatura | Carlos Drummond de Andrade, “um poeta mineiro de rara sensibilidade”

07 nov 2020

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No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra

Os versos, hoje clássicos, de Carlos Drummond de Andrade causaram polêmica quando foram publicados pela primeira vez na modernista Revista de Antropofagia, em 1928 e, dois anos depois, no seu livro de estreia “Alguma Poesia”. O poema “No meio do caminho” dividiu o meio literário e as reações, favoráveis ou críticas, foram tantas e tão extremadas que o próprio Drummond compilou tudo que se falou sobre o poema no livro “Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema “, algumas décadas depois. À essa altura, Carlos Drummond de Andrade, após estrear com tanta polêmica, já era considerado um dos maiores poetas do país, autor de uma vasta obra, entre crônicas, contos e, principalmente, poesia. Não à toa, no dia 31 de outubro, data de seu nascimento, é comemorado atualmente o Dia Nacional da Poesia.

Nascido em Itabira (MG), em 1902, Carlos Drummond de Andrade mudou-se aos 18 anos para Belo Horizonte, onde começou a colaborar no jornal Diário de Minas. Mesmo tendo morado apenas 14 anos na cidade, foram anos fundamentais para sua formação. Ali ele se tornou amigo de Pedro Nava, Aníbal Machado, Alberto de Campos, entre outros, todos frequentadores do Café Estrela, na Rua da Bahia. Ali também conheceria os modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, que estavam na cidade em viagem. Em 1925, junto com Emílio Moura, Francisco Martins de Almeida e Gregoriano Canedo, fundou “A Revista” publicação de vanguarda que tinha por fim divulgar para o país as ideias do grupo de jovens intelectuais de Belo Horizonte. À época, já colaborava com periódicos do Rio de Janeiro, como ParaTodos, Careta e Ilustração Brasileira, publicando poesia (http://memoria.bn.br/docreader/124451/15296) e prosa (http://memoria.bn.br/docreader/772739/453). Em 1930, ao lançar seu primeiro livro, “Alguma Poesia”, foi saudado como um dos grandes poetas do Brasil por Manuel Bandeira, no texto “Um poeta mineiro de rara sensibilidade”, no jornal A Tribuna:

“Em Drummond a perfeição técnica não resulta do gosto e trabalho do artista, mas da fidelidade do poeta ao movimento lírico da sensibilidade. Agora o poeta comparece em livro. E esse livro nos revela, logo ao primeiro exame, um dos mais puros e belos da nossa poesia. Não pode haver dúvida: Carlos Drummond de Andrade é um dos grandes poetas do Brasil. Grande pelo fundo de sensibilidade e lirismo como grande pela técnica impecável de seus poemas” (http://memoria.bn.br/DocReader/128066_02/26174)

Já casado, formado em Farmácia e trabalhando no serviço público, Drummond se mudou para o Rio de Janeiro em 1934 e nesta cidade viveria até o final da vida e trabalharia como funcionário público até se aposentar. Primeiro como chefe de gabinete de seu amigo Gustavo Capanema, novo Ministro de Educação e Saúde Pública. Neste cargo, como homem de confiança do ministro, acompanhou ativamente as etapas do concurso para a construção do edifício modernista onde passaria a ser sediado o MEC na década de 1940 (atual Palácio Capanema). E, posteriormente, de 1945 a 1962, com Rodrigo de Melo Franco no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Iphan. No SPHAN, Drummond foi responsável o responsável pela organização dos arquivos, organizando e indexando o material para facilitar as pesquisas e buscas por informações. A instituição e o trabalho de preservação do patrimônio foram tema de crônicas na sua coluna no jornal O Correio da Manhã, como a que fala sobre os 20 anos (http://memoria.bn.br/DocReader/089842_06/60998) e os 30 anos (http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/70931) do SPHAN. Na crônica “Rendição de guarda”, de 1967, o poeta fala da importância e também das dificuldades do trabalho de guarda do patrimônio artístico nacional:

“duas ou três mesas e cadeiras, um arquivo de aço, dinheiro nenhum, e muita coragem silenciosa para agir em termos nacionais, pesquisando, descobrindo, inventariando e recuperando o acervo disperso, oculto, desfigurado, em ruínas (...) A DPHAN existe, e goza de conceito internacional, embora em alguma cidade no interior de Minas ou da Bahia o senhor prefeito Fulustruca dos Bigodes teime em desrespeitar a ação do Patrimônio.”
(http://memoria.bn.br/docreader/089842_07/83449)

Drummond conciliava o trabalho como funcionário com carreira de escritor. Publicava no suplemento literário do jornal A Manhã e escrevia a “Crônica do mês” na revista Leitura. Convidado por Álvaro Lins, colaborou com o Suplemento Literário do Correio da Manhã onde publicou, por exemplo, o poema José, com ilustração de Osvaldo Goeldi. Em 1945, a convite de Luís Carlos Prestes, Carlos Drummond de Andrade atuou como editor da Tribuna popular, jornal recém-fundado pelo Partido Comunista, escrevendo também uma coluna semanal. A colaboração não durou muito pois, no mesmo ano, Drummond rompeu definitivamente com o jornal por conta de diferenças em relação ao rumo da política no país. Já com o Correio da Manhã, a relação seria mais duradoura. A partir de 1954, se tornou cronista do jornal, a princípio escrevendo diariamente e, posteriormente, três vezes por semana. Sua coluna, iniciada em janeiro (http://memoria.bn.br/DocReader/089842_06/33179) apareceria nas páginas do Correio da Manhã até 1969. Todas essas crônicas podem ser lidas na Hemeroteca Digital da BN e uma seleção delas foram também publicadas no livro “Fala Amendoeira”.

Logo depois, começou outra relação duradoura, com o Jornal do Brasil. Anunciado na primeira página como “maior poeta vivo”, em dezembro de 1969 publicou sua primeira coluna das mais de duas mil que escreveria para o Jornal do Brasil ao longo de 15 anos. Com temas sempre relacionados com a vida cotidiana, como o futebol, a música, a memória individual e coletiva, foram publicadas no Caderno B até 1984, ano em que se despediu dos jornais com sua última crônica, “Ciao”.

Carlos Drummond de Andrade foi autor de dezenas de livros e coletâneas de prosa e poesia, assim como de alguns livros infantis e várias traduções. Muitos de seus poemas traduzem inquietações frente ao mundo e ao desenrolar dos fatos: a guerra, a morte, a solidão. Seu ritmo, melodia e a harmonia da combinação das palavras fizeram com que diversas de suas poesias fossem musicadas por músicos como Villa-Lobos, Milton Nascimento, Guerra Peixe, Capiba, entre outros. Autor celebrado, nunca quis se candidatar à Academia Brasileira de Letras, apesar da insistência dos amigos. Mas não havia sábado em que deixasse de frequentar a “academia dos sem academia” (embora muitos membros fossem acadêmicos), os Sabadoyles, como eram chamados os encontros semanais de escritores na casa de Plínio Doyle, tradição iniciada por Drummond, que assim a definiu em uma ata das reuniões:

“horas amenas, em que se esquecem preocupações e tédios, no exercício desta coisa que se vai tornando rara ou impossível na cidade de hoje: a conversa – a pura, simples, fantasista, descompromissada conversa entre amigos e desconhecidos ou mal-conhecidos, que se tornam amigos por força das aproximações aqui estabelecidas. O sabadoyle afinal é isto; e acaso precisaria ser mais alguma coisa, se já é tanto para o espírito e o coração de todos nós?” (http://memoria.bn.br/DocReader/364568_16/69822)

Drummond foi um assíduo frequentador da Biblioteca Nacional. Dirigia-se sempre à sala que hoje abriga a seção de Obras Gerais e ocupava, todas as vezes, a cadeira de número quatro. (https://www.bn.gov.br/es/node/340). Sob o pseudônimo Antônio Crispim, discorreu, no Correio da Manhã, sobre o acervo de periódicos da Biblioteca:

“As coleções de jornais velhos podem ser comparadas a um subterrâneo onde se depositam bens de toda sorte: desde barras ou pepitas de ouro até simples latas de querosene vazias. Elas contêm tudo que alguém possa procurar e mais alguma coisa. Nesse bric-a-brac pitoresco e melancólico ao mesmo tempo, os achados literários são numerosos, estando apenas à espera do pesquisador. É ir ali à Biblioteca Nacional e entrar na seção de periódicos, dirigida pela srta. Zilda Galhardo de Araújo. Procurada no fichário a indicação do jornal ou revista, e feito o pedido em poucos minutos o curioso tem à sua frente uma fatia do passado- de cinquenta, oitenta anos- e nela têm todas as incrustações políticas, sociais, econômicas, artísticas, humanas, que a vida vai fazendo na matéria do tempo”. (http://memoria.bn.br/DocReader/089842_06/101931)

O poeta recebeu, por sua obra, recebeu diversas homenagens e prêmios durante sua vida. Umas delas foi a exposição organizada pela Biblioteca Nacional para celebrar seus 80 anos de nascimento. Em 1987, foi homenageado no carnaval carioca pela Estação Primeira de Mangueira com o enredo “O reino das palavras”, garantindo o bicampeonato à escola de samba verde e rosa. A alegria não foi completa porque, nessa altura, sua filha e grande amiga Maria Julieta já sofria da doença que a levaria à morte poucos meses depois. Carlos Drummond de Andrade sobreviveu à filha apenas alguns dias. Em 17 de agosto de 1987, morreu o poeta a quem um anjo havia dito “Vai, Carlos! Ser gauche na vida”, e que, apenas alguns dias antes, assim havia definido a vocação para a poesia, em sua última entrevista, ao Jornal do Brasil:


“Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo.”


Explore os documentos:

Discurso proferido por Carlos Drummond de Andrade na abertura da Exposição Comemorativa dos 80 anos da Biblioteca Nacional (1982)

Manuscrito de Carlos Drummond de Andrade, sobre o poema “Eu”, de Augusto dos Anjos (1984)

Manuscrito - Carta a Rodolfo Garcia comunicando a restituição de volumes consultados por Sérgio Buarque de Holanda (1937)

Carta a Rodolfo Garcia da possibilidade de ser instalado em uma das salas da Biblioteca Nacional o Departamento de Administração Geral do Ministério da Educação e Saúde (1938)

Manuscrito - Cartão a Nelson Werneck Sodré agradecendo o envio do livro História da literatura brasileira (1982)

Auto-retrato - Carlos Drummond visto por Carlos Drummond (Leitura, 1943)

Cadernos Especial do Jornal do Brasil em homenagem aos seus 80 anos (1982)

60 anos de Drummond, poesia de Manuel Bandeira e textos de Lygia Fagundes Telles e Haroldo de Campos (Suplemento Literário, 1962)

Edição especial de O Cruzeiro em homenagem aos 70 anos (1972)

Entrevista a Jorge de Aquino Filho (Revista Manchete, 1982)

Última entrevista, a Geneton Moraes Neto (Jornal do Brasil, 1987)

A Revista, periódico modernista fundado por Carlos Drummond de Andrade, 1925

Recepção de “Alguma Poesia” (Jornal do Brasil, 1930)

Fotografia de Carlos Drummond de Andrade com Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, em 1963 (O Cruzeiro, 1972)

“Teia de aranha”, publicada em Illustração Brasileira (1922)

“Sentimental”, poesia publicada em Para Todos (1925)

“Vehiculo n. 1 – a Oswald de Andrade”, publicado em Para Todos (1925)

“Motivo de Anacreonte”, poesia publicada na revista Careta(1928)

“Edifício Esplendor”, poesia publicada no suplemento literário do jornal A Manhã (1941)

“José”, poesia publicada no suplemento literário do jornal A Manhã (1942)

“Poema de março de 45”, poesia publicada no Correio da Manhã (1945)

“Visão 944”, poesia publicada no Correio da Manhã (1945)

“Canção Amiga”, poesia publicada na Tribuna Popular (1945)

“Quem foi que recebeu a mulher do soldado?”, tradução do poema de Bertold Bretch publicada na Tribuna Popular (1945)

“Tempo de canção”, poesia publicada no Jornal do Brasil (1969)

“Manuel ou a morte menina”, texto sobre Manuel Bandeira publicado no Jornal do Brasil (1969)



Auto-retrato (Jornal do Brasil, 1982)