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Literatura | Gabo

17 abr 2021

Artigo arquivado em Literatura
e marcado com as tags Cem Anos de Solidao, Clássicos da Literatura, Gabriel Garcia Marquez, Literatura Latino Americana, Premio Nobel de Literatura

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas às margens de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente, que muitas coisas careciam de nome, e para as mencionar havia que as sinalizar com o dedo.

Sim, caro leitor. Hoje tratamos de um escritor tão abalizado que foi melhor deixá-lo abrir o texto, sozinho. Fossem tais palavras cá deste plumitivo, ora, não estaria ele a escrevinhar aqui neste espaço. E quem, afinal, não reconheceu logo de cara o dono da transcrição, ao ler os mágicos nomes de Macondo e do coronel Aureliano Buendía? Bem se sabe: as frases de arriba abrem um dos maiores sucessos da literatura mundial, muito além do contexto em que o livro normalmente é inscrito, o chamado boom latinoamericano. Foi um movimento literário situado entre as décadas de 1960 e 1970, quando um grupo de jovens e politicamente engajados escritores da América Latina arrebatou hordas de leitores na Europa, e da Europa, ganhou o mundo – mudando e determinando a forma como este enxergava, afinal, nuestro triste y alucinógeno rincón. Arrimo incontestável desse processo de conquista, Cem anos de solidão, o livro da introdução consagrou seu autor como um dos maiores de todos os tempos, independentemente de qualquer marco geográfico, temporal ou estético. No básico, o que qualquer orelha de livro deste insigne cavalheiro diz, é que o mesmo nasceu na pacata Aracataca, no departamento de Magdalena, interior da Colômbia, a 6 de março de 1927, e que partiu desta aos 87 anos, na Cidade do México, num 17 de abril como hoje, mas em 2014, não sem antes comover meio mundo. Quando isso aconteceu, o presidente norteamericano Barack Obama disse que “O mundo perdeu um dos maiores e mais visionários escritores, um dos meus preferidos desde que eu era jovem", gabando-se um pouco por possuir uma cópia de Cem anos de solidão autografada, dada de presente pelo próprio autor. Mas foi Juan Manuel Santos, presidente colombiano entre 2010 e 2018, quem expressou, enfático: “Mil anos de solidão e tristeza pela morte do maior colombiano de todos os tempos”. Não era exagero.

Até que chegasse a ser um dos mais amados e vendidos escritores do mundo, traduzido para 36 idiomas distintos e com mais de 40 milhões de exemplares vendidos ao ano de seu falecimento (imaginem atualmente), o autor que recordamos hoje começou cedo, aos 20 tenros anos de idade, escrevendo para a imprensa. Em 1947, ano em que iniciava seus estudos em Direito pela Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá, ingressou no diário El Espectador, onde publicou La tercera resignación, seu primeiro conto – já no ano seguinte, abandonou os estudos para seguir no jornalismo, mudando-se para Cartagena das Índias. Daí, não parou de colaborar constantemente, mais como jornalista, em diversos periódicos da América e da Europa (literalmente, era um precoce sujeito, que já anunciava o boom de vinte anos depois). Sua narrativa, ágil e precisa, fruto de uma madura consciência estrutural da prosa, logo pariu um primeiro romance, A revoada (O enterro do Diabo), em 1955, ao mesmo se seguindo Relato de um náufrago, do mesmo ano, depois Ninguém escreve ao coronel, de 1961, e o trio Os funerais da mamãe grande, A sesta de terça-feira e Má hora: o veneno da madrugada, todos do prolífico ano de 1962. Seu lançamento seguinte, Cem anos de solidão, em 1967, foi um estrondo capaz de ofuscar todo o restante de sua obra, seja antes ou depois desse marco, tendo contribuído substancialmente para que o autor colombiano faturasse o Prêmio Rómulo Gallegos e o Prêmio Literário Internacional Neustadt, ambos em 1972, culminando num Prêmio Nobel de Literatura em 1982 – isso para listar apenas os prêmios mais graúdos.

Quando lançado Cem anos de solidão, o autor já havia se tornado um cidadão do mundo, após trabalhar como correspondente internacional em Paris e em Nova Iorque, para em seguida fixar-se na Cidade do México. Seu apoteótico romance vendeu em poucos dias 8.000 exemplares na América Hispânica, rendendo reedições semanais e traduções a toque de caixa: a Europa era logo ali, e ao cabo de três anos, meio milhão de cópias haviam sido vendidas. Não é exagero nenhum dizer que a mítica narrativa sobre uma tradicional família da fictícia cidade de Macondo, onde é possível que o mágico e o real convivam de mãos dadas, se converteu num referente universal, um tanto exótico, representativo da identidade latinoamericana. Isso sozinho, quiçá quando visto no conjunto da obra de seu criador, em que pese sua importância no panorama das letras contemporâneas. Por sua versatilidade e fértil imaginação, eterno encanto e entrosamento entre a força do real e o fascínio da ficção, em tudo em que nossa existência, assim como a existência da arte em si, tem de cósmica, trágica, absurda, apaixonada, grotesca, sensível, conflituosa, memorial e humana, os fatores que calcam a essência da linguagem de seu autor fazem com que a miúdo seja catalogado como detentor de um gênero específico: o do chamado realismo mágico, mais ou menos uma versão latina da literatura fantástica europeia. Nada mal.

Quando se fala do pai de Cem anos de solidão, afinal, não há como não falar de política. Convicto à esquerda, posição de onde cativou amizade com o líder revolucionário cubano Fidel Castro, o autor ainda imprimiu em sua fórmula narrativa os anseios e desamparos inerentes aos sombrios rumos políticos da América Latina de seu tempo, tempero deleitoso, singular, que o boom latinoamericano fixou no exigente paladar gringo. Reconhecido como subversivo e tendo vistos de entrada aos Estados Unidos negados até que Bill Clinton revertesse a situação, o autor que saudamos hoje foi chamado de hipócrita pelo escritor cubano anticastrista Reinaldo Arenas, por sua proximidade com o que o regime na ilha caribenha tinha de autoritário. Na Colômbia a música tocava de forma parecida: depois de ter sido laureado com a Legião de Honra francesa, em 1981, o escriba, ao retornar à sua pátria-mãe após uma visita a Castro, sofreu um sério processo do governo liberal de Julio César Turbay Ayala, que o acusava de financiar o grupo guerrilheiro M-19. A solução foi solicitar asilo ao país que já o abrigava, o México, onde se manteve até sua morte.

Até que o cobiçado galardão máximo da Academia Sueca para escritores chegasse, no ano de 1982, o filho pródigo de Aracataca ainda encetara A última viagem do navio fantasma (1968), Um senhor muito velho com umas asas enormes (1968), A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada (1972), Olhos de cão azul (1972), O outono do patriarca (1975), Maria dos prazeres (1979) e a vultuosa Crônica de uma morte anunciada (1981). Depois vieram ainda cinco volumes contendo sua obra jornalística, mais O Amor nos tempos do cólera (1985), O general em seu labirinto (1989), Doze contos peregrinos (1992), Do amor e outros demônios (1994), Notícia de um Sequestro (1996), Viver para contar (sua autobiografia, de 2002), Memória de minhas putas tristes (2004), entre outros, todos lançados em curtos intervalos, em alguns casos com mais de um livro aparecendo por ano. O autor foi elogiado mesmo pelo general Omar Torrijos, que subiu ao poder no Panamá à bala, onde permaneceu de 1968 a 1981: fã do romance O outono do patriarca, que relata a situação solitária e surreal de um ditador sulamericano dotado do tão sonhado “poder total”, o caudilho admitia ao escritor: “todos somos assim como você diz”. Sem se esquecer de suas origens, nos anos 1990 nosso prodígio literário ainda instituiu uma fundação para premiar e devidamente notabilizar vocações específicas, ética e bons padrões de reportagem para o jornalismo latinoamericano. Nada mal, mesmo.

Foi depois do aguardado lançamento de Memória de minhas putas tristes que o escritor colombiano ficou quieto, estranhamente quieto. Em 1999 havia sido diagnosticado com um câncer linfático, encarando uma quimioterapia que lhe trouxe sequelas neurológicas. Ficou anos sem ter sido visto em público. Por volta de 2009 declarou que havia se aposentado, causando comoção, mas logo em 2010 rompeu um silêncio literário de seis anos, publicando Eu não vim fazer um discurso. Rumores sobre sua saúde pipocavam até que, dois anos depois, seu irmão mais novo veio a público, numa conferência em Cartagena das Índias, dizer algo que chocou a comunidade literária (e não só): o dileto escriba estava bem em termos físicos, inclusive conservava o bom humor e a alegria habituais, mas estava sem memória, sem reconhecer seus próximos, e jamais voltaria a escrever. Estava com demência. Foi um choque. A prometida segunda parte da autobiografia Viver para contar realmente não existiria, a não ser em nossos sonhos. Jaime, o irmão mais jovem e porta-voz oficial do escritor, ainda brindou a todos com uma fala singela, humana até em excesso, que sintetizava tudo: “Às vezes choro, porque sinto que o estou a perder”. Dois anos depois, o mundo ficaria com um Nobel a menos, vítima de um câncer reincidente e de uma pneumonia. Os órfãos estão, ou melhor, estamos, na casa das dezenas de milhões.

Que legado nos deixou. E ainda assim que falta nos faz ele, o autor: Gabo.

Explore os documentos:

Em Movimento, em 1975, Flávio Aguiar discute o lançamento de O outono do patriarca, em Buenos Aires.

Manchete, em 1978, publica uma entrevista de Gabo, uma “viagem imáginária” concedida ao jornalista inglês Peter Stone, ilustrada com fotos de Aracataca clicadas por Mauro Galligani:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183888

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183889

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183890

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183891

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183892

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183893

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183894

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183895

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183896

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183897

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/183898


Entrevistas de Gabo ao jornal Movimento, em 1981:

http://memoria.bn.br/DocReader/318744/6520

http://memoria.bn.br/DocReader/318744/6519

http://memoria.bn.br/DocReader/318744/7349


“Minha arma é minha máquina de escrever”, afirma na Manchete o Nobel de Literatura de 1982:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/213133

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/213134




“Minha arma é minha máquina de escrever”, afirma na Manchete o Nobel de Literatura de 1982.