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Literatura | O Espetacular Nelson Rodrigues

24 ago 2020

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Nascido no Recife, em 23 de agosto de 1912, Nelson Falcão Rodrigues viria para o Rio de Janeiro, mais especificamente, para a Zona Norte da cidade, com a família, aos cinco anos de idade. Desde cedo frequentaria o meio jornalístico já que seu pai, Mário Rodrigues, fundou junto com Antonio Faustino Porto o jornal A Manhã, em 1925. Rompendo a sociedade, Mário Rodrigues fundou o periódico A Crítica, posteriormente. Anos mais tarde, seu irmão Mário Filho se tornaria sócio do Jornal dos Sports, onde Nelson faria contribuições e crônicas sobre futebol. Escreveu também para O Globo, Correio da Manhã, O Jornal, Última Hora, Manchete Esportiva, Jornal do Commércio e Jornal do Brasil.

Era o quinto filho de uma família de 14 irmãos e, cedo, conheceria algumas das tragédias que povoariam em seu imaginário dramático (Manchete). Ainda criança, aos 13 anos, testemunhou a morte de seu irmão Roberto, desenhista, assassinado na redação do jornal A Crítica. Seu pai, tomado pela depressão, também viria a falecer no ano seguinte à perda do filho. Em seguida, o periódico foi empastelado, em meio ao estabelecimento do governo Vargas (1930-1945), e logo a família passaria por situação de crise financeira. Desenvolveu tuberculose e precisou se retirar para Campos do Jordão, para fazer tratamento. Somam-se às experiências pessoais e familiares, sua atuação como repórter policial, na juventude, de onde também retiraria inspiração para suas obras.

Juntamente com o jornalismo, a dramaturgia se tornaria uma de suas empreitadas favoritas. As peças teatrais, ambientadas e contextualizadas a partir de suas experiências no cenário cultural do subúrbio carioca, unindo realidade e ficção a cenas de violência, incesto, traições e diálogos que transitavam entre a tragédia e o humor, seriam amplamente criticadas: de impróprias e devassas, a realistas e contemporâneas, as composições de Rodrigues jamais causavam indiferença.

Sua notoriedade como dramaturgo se deu, especialmente, com a peça Vestido de Noiva que, antes mesmo de ser encenada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com a direção de Z. Ziembinski, pela companhia de teatro “Os Comediantes”, já encantava Manuel Bandeira, pelos requintes de realidade e poesia com que Rodrigues a teria escrito (A Manhã). Pela crítica de José Cesar Borba, para O Cruzeiro, a peça revoluciona o teatro brasileiro, “adiantando em muitos anos o relógio da literatura teatral brasileira” (http://memoria.bn.br/docreader/003581/41784). Posteriormente, a obra foi publicada em livro pela Edição Cruzeiro (A Cigarra).

Atuou na peça Perdoa-me por me traíres (O Cruzeiro), encenada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1957, e protagonizou uma das cenas mais bizarras de sua carreira: frente ao repúdio de parte do público, ao espetáculo, ameaçou descer do palco e revidar os insultos proferidos por alguns dos espectadores (Lavoura e Commercio e O Estado de Florianópolis).

Sob o pseudônimo Suzana Flag, escreveu o folhetim “Meu destino é pecar” (1944), para O Jornal. Posteriormente, a novela foi publicada em livro, pela Edição Cruzeiro. Ainda como Suzana, escreveu Escravas do Amor, o Homem Proibido e Minha Vida, dentre outros romances. Dizia que, sob esse pseudônimo, extravasava um lado de sua personalidade autoral diferente, mais popular e mais sentimental (Manchete).

Teve algumas de suas obras censuradas, por conta do alto teor de sexo, violência e imersão nos cantões mais agressivos da vida em sociedade, dentre outras questões (O Cruzeiro). Sua tendência autoral ressaltava e expunha o lado obscuro existente no típico cidadão aparentemente pacato, na família tradicional, na jovem recatada, na senhora extremadamente religiosa. Segundo Rodrigues, autoafirmava-se reacionário por ironia (Manchete). Entretanto, apoiaria a ditadura civil-militar da década de 1960, posição que só se alterou após a prisão e tortura de seu filho Nelsinho – e que o faria apoiar a anistia no processo de abertura política do final da década de 1970.

Crítico esportivo apaixonado por futebol, e pelo Fluminense, ansiava pelos chutes a gol se seu time do coração e da alma. Tecia críticas contundentes aos jogos terminados em empate - em especial o zero-a-zero que considerava um resultado deprimente -, resultantes da morosidade dos jogadores, e do que entendia por “mediocridade”, ou seja, um jogo desprovido de emoção, sem belos lances, bons dribles e gols espetaculares (Jornal dos Sports). Mas também sabia elogiar os times que tinham boas colocações, como a recuperação do Botafogo e sua vitória, no torneio de Caracas de 1967 (Jornal dos Sports). Ao entrevistar Zico, tido como um dos maiores jogadores brasileiros e que atuava pelo Flamengo, vestiu a camisa rubro negra e não se fez de rogado em perguntar ao craque - em uma espécie de debate nos moldes de um Fla x Flu: “Você nunca quis jogar no Fluminense?”, ao que obteve como resposta “O Flamengo não deixou” (Manchete).

Apesar das polêmicas que envolviam suas composições teatrais e obras literárias, a partida de Nelson Rodrigues resultou em um teatro “opaco”, segundo seus admiradores (Manchete). A vitalidade de suas criações, a crítica explícita aos padrões pseudomoralistas, seu tom desagradável, como ele mesmo se definia, e seu humor, eram únicos.

Explore os documentos:

Críticas literárias e esportivas

Lavoura e Comércio

O Cruzeiro


Crítica de teatro

A Cruz, órgão da parochia de São João Batista

O Estado de Florianópolis

A Ordem

A Ordem


O Espetacular Nelson Rodrigues

Lavoura e Commercio


Crônicas
Carioca


Um caso Policial

Aventura surrealista da cozinheira de cor


A Cigarra

Um certo senhor Hans Peters


Jornal do Comercio

A Vida como ela é

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67368

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67422

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67494

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67536

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67616

http://memoria.bn.br/DocReader/170054_01/67639


Suzana Flag

Meu Destino é pecar – O Cruzeiro


Nelson Rodrigues e Suzana Flag

Manchete


Crítica esportiva

Jornal dos Sports

http://memoria.bn.br/DocReader/112518_03/34325

http://memoria.bn.br/DocReader/112518_03/38514

http://memoria.bn.br/DocReader/112518_03/41938


Manchete Esportiva (RJ)

http://memoria.bn.br/DocReader/116335/572

http://memoria.bn.br/DocReader/116335/592

http://memoria.bn.br/DocReader/116335/651



“Nelson Rodrigues no paredão”