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Literatura | O velho escriba e o mar de palavras

04 mar 2021

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e marcado com as tags Ernest Hemingway, Literatura Americana, O Velho e o Mar, Premio Nobel de Literatura, Secult

Quando exatamente nasce uma obra literária? No momento em que seu argumento passa de lampejo pela cachola do escritor, antes mesmo de adquirir a cadência ideal de palavras? Ou no momento em que é concluída no papel, em seu manuscrito original? Talvez, quem sabe, devamos considerar que ela nasce apenas quando é publicada, justo? Ou mesmo, na verdade, apenas quando atinge o primeiro leitor? Ruminações à parte, cabe dizer que cada obra literária nasce um pouco em cada uma dessas ocasiões. Por isso mesmo, lembramos que hoje um clássico absoluto da literatura mundial – não apenas americana – completa 70 redondas primaveras, não em data de publicação, mas em sua escritura: foi em 4 de março de 1951 que Ernest Hemingway concluiu o original de O velho e o mar. Referência maiúscula entre os sucessos do escritor, o curto romance – que dependendo da edição rende em torno de cem sucintas, secas, belas páginas – foi, à época de seu lançamento, em setembro de 1952, a redenção de Hemingway: considerado “acabado” pela crítica, já que não publicava nada desde Por quem os sinos dobram, de 1940, o autor vivia, desde 1939, em uma fazenda próxima do centro de Havana, a capital cubana, na paz e no isolamento. Enquanto durou a Segunda Guerra Mundial, para a qual foi escalado para cobrir como correspondente, esteve desligado da literatura, voltando à ilha em 1946. Foi então que tentou voltar à ativa nas letras, com o lançamento de Na outra margem, entre as árvores, lançado em 1950. Um fracasso, segundo a crítica. Pois foi justamente aí, curtindo tamanha derrota em seu refúgio caribenho, vendo-se cara a cara com a dura realidade de uma rústica comunidade pesqueira e tendo em mente que precisava escrever sua obra prima, que Hemingway gestou e pariu a narrativa de O velho e o mar. Para tanto, pinçou um texto concebido anos antes, que havia sido publicado na revista Esquire, em abril de 1936: “On the blue water: a Gulf Stream letter”. Criava-se então um romance intenso, arrebatador, sobre um veterano pescador, considerado “acabado” pelos demais, que luta para sair de uma maré de azar tentando pescar um descomunal marlim em plena corrente do Golfo, depois de quase três meses sem conseguir fisgar uma singela sardinha. “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida”, Hemingway expunha, num bilhete junto do original, remetido a seu editor. Que seria da arte se não fosse a vida, e da vida se não fosse a arte?

Bem se sabe que Ernest Hemingway sempre teceu as devidas analogias entre sua vida pessoal e sua obra escrita. O gigantesco peixe de O velho e o mar, de cinco metros de comprimento e cerca de 700 kg, praticamente do mesmo tamanho da canoa de experiente Santiago, protagonista da novela, inspirado em Gregorio Fuentes, amigo do escritor e capitão de seu barco de pesca, não se entregou com facilidade. Junto a ele, o sol esturricante, as feridas nas mãos e nas costas do pescador, a fome, o cansaço, o peso da idade e a constante e ameaçadora presença de tubarões contribuíram para a agrura da empreitada. Embora diferente, difícil, como escrever um livro – como afinal fisgar a história perfeita, num oceano de palavras? Seja como for, Santiago consegue lidar com seu contratempo com a devida dignidade, embora com uma grande ressalva: somente pudera chegar à praia com a carcaça do monstro marinho, devorado, pouco a pouco, por tubarões. Tal façanha, que a rigor tem seus louros, em termos de prestígio junto à comunidade pesqueira, se assemelha à do próprio lançamento do livro, por parte de um revigorado Hemingway.

Se o grande marlim resgata a notoriedade do velho personagem, a volta por cima do velho escriba se confirmou logo em seguida: O velho e o mar foi publicado simultaneamente em livro, pela editora Scribner’s – sendo a obra aliás dedicada ao lendário Max Perkins –, e pela revista Life, em 1º de setembro de 1952. Esgotou-se logo a tiragem inicial de 50 mil exemplares do primeiro, com as cinco milhões de edições do semanário evaporadas em apenas dois dias. Daí, o fenômeno faturou o prêmio Pulitzer na categoria de ficção, em maio de 1953, e muito contribuiu para que o Nobel de Literatura, em 1954, fosse parar no colo de seu autor, agora uma celebridade internacional. O último galardão levou em conta o conjunto da obra de Hemingway, mas O velho e o mar foi o empurrão definitivo para imortalizar o escritor, tanto junto à crítica quanto junto ao público: narrativa simples, atemporal e pungente, sem embromação, de fácil compreensão para qualquer um e ainda coroada com um ensinamento-chave. Tudo que um clássico precisa e merece. Tanto é, hoje, um livro usado em escolas de diversos países quanto foi, dizem, o livro favorito de Saddam Hussein.

O velho e o mar foi a última obra de ficção publicada por Hemingway ainda em vida. Foi reconhecida, de início, como uma fábula sobre a esperança desmedida, mas essa é uma leitura um tanto superficial: trata-se, ainda, de uma metáfora tanto sobre a criação artística do autor quanto sobre a condição humana, como um todo. O livro foi visto pela academia como uma forma de comentário alegórico sobre toda a obra pregressa de Hemingway: dentro de uma ordem simbólica que evoca o cristianismo, ele compõe a maturação daquilo que o escritor chamava de sua “filosofia da Humanidade”, que, em última análise, para o autor, bem poderia ser uma religião. Embora isso coloque o legado realista de Hemingway sobre outra perspectiva, mais refinada, nem todos viram o lançamento redentor do livro sobre a empreitada pesqueira de Santiago com bons olhos: que o diga o crítico Robert P.Weeks. E, para ser sincero, o próprio Hemingway chegou a afirmar, em carta para Bernard Berenson, singelamente, que “O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira”.

Em outro plano que não o espiritual, todavia, o sucesso editorial de O velho e o mar refletiu, afinal, no concreto, longe de questões técnicas e abstratas. A medalha de ouro recebida da coroa sueca, quando do Nobel de 1954, foi remetida por Hemingway para o povo cubano, a quem o prêmio foi dedicado; para evitar que ela fosse encaçapada pela ditadura de Fulgencio Batista, o laureado a doou para o santuário de El Cobre, em Santiago de Cuba, para que figurasse junto à imagem de Nuestra Señora de la Caridad del Cobre. Bem nessa época, em que atingiu o ápice como escritor, Hemingway tinha chegado a desconfiar que, em parte, o prêmio Nobel lhe fora dado também por conta do fato de que seu nome era esperado nos obituários dos jornais: sua saúde não andava nos melhores dias, vítima que foi de mais de um acidente aéreo quando esteve excursionando pela África, poucos meses antes da conquista da medalha. Havia ainda a bebedeira, a pressão alta...

Em 1957, em meio aos trabalhos em torno de Paris é uma festa, ocasionados pela fantástica recuperação de anotações do autor em seu tempo vivendo na capital francesa – só isso dá uma história e tanto –, Hemingway caiu em depressão. A Finca Vigía, sua residência cubana, uma fazendo a 25km de Havana, agora um tanto badalada, começava a se tornar um peixe a mais no grande oceano da Guerra Fria. E eclosão da Revolução Cubana, que o autor defendeu, julgando-a necessária e angariando antipatia do governo de seu próprio país, mudou tudo. Apesar de amar o lugar, o autor considerava, então, se mudar definitivamente para outra casa, que possuía desde 1959, em Ketchum, no estado americano de Idaho. Apesar de Hemingway ter aplaudido quando Fidel Castro chutou Batista para fora da ilha caribenha, no contexto da invasão da Baía dos Porcos, entre 17 e 20 de abril de 1961, momento em que o escritor já havia partido definitivamente de Cuba, a Finca Vigía foi expropriada, por pertencer a estrangeiro – mesmo este sendo um “bom americano”, nas palavras de Castro. Junto com a fazenda, ficaram em posse do governo cubano uma biblioteca contendo de quatro a seis mil volumes e, num cofre, manuscritos de True at first light, The Garden of Eden (capítulos adicionais) e Islands in the stream. Nos EUA, Hemingway começou a ficar preocupado com dinheiro, mais precisamente com o fisco americano, e com sua própria integridade física: calculava que jamais reaveria seus papeis em Cuba e que o FBI o vigiava, em sua casa em Idaho – o que não era paranoia, já que nos anos 1950 J. Edgar Hoover mantivera, em Havana, um infiltrado especialmente dedicado a observar o escritor, por suspeitas de proximidade com comunistas. Na tranquila Ketchum, não era diferente.

Depois de ter pescado seu grande marlim, Hemingway o viu, pouco a pouco, sendo devorado por tubarões – os de Cuba, os do FBI e, principalmente, os de sua frágil condição física, seja por doenças, seja por sequelas de acidentes. Eis que numa bela manhã do final de abril de 1961 sua última esposa, Mary, o flagrou com uma espingarda na mão, na cozinha da casa de Ketchum, três meses depois do escritor ter sido liberado de uma clínica, para tratamento contra depressão. Nada anormal: Hemingway caçava, e aquela espingarda de cano duplo era praticamente sua melhor amiga. Mas ainda assim algo não parecia bem. O autor acabou sendo sedado, hospitalizado, tratado com eletrochoque. Novamente liberado, em 30 de junho já estava de volta, em casa. Mas também em casa continuava sua melhor amiga. Dois dias depois, na manhã de 2 de junho de 1961, Ernest Miller Hemingway tirava a própria vida. Ao menos entre as correntes, o FBI teria uma ficha a menos. Em outra seara, quanto aos papeis cubanos, o próprio presidente americano John F. Kennedy deu uma colher de chá: arranjou para que Mary viajasse para Cuba, onde se reuniu pessoalmente com Fidel Castro, de quem recebeu os papeis do finado marido, em troca da devida doação da Finca Vigía para o regime socialista, que a transformou em museu e centro cultural. Já os escritos recuperados no incidente, desde 1964 podem ser vistos na JFK Presidential Library and Museum, em Boston, Massachusetts, para onde foram doados, pela mesma Mary Hemingway.

Na vida e na ficção, no personagem e no escritor, no fim, o que resta ao homem? Derrotas e carcaças sem valor? Também. Restam ainda histórias. Registros que atestam pelo que esse homem lutou, suas aventuras e decepções, seus pavores e percalços – quem não os possui? Fora isso, não resta muito mais. Resta, sobretudo, honra.

Explore os documentos:

Hemingway: um “homenzarrão” na revista Manchete, em 1954:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/6117

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/6118

Hemingway “vive todos os seus livros”, sobre o Nobel de 1954, na Manchete:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/8787

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/8788

Num safári com Hemingway, reportagem do próprio publicada na revista Cruzeiro, no ápice da carreira do autor, em 1954:

http://memoria.bn.br/DocReader/003581/90373

http://memoria.bn.br/DocReader/003581/90374

http://memoria.bn.br/DocReader/003581/90375

http://memoria.bn.br/DocReader/003581/90376

http://memoria.bn.br/DocReader/003581/90377

Dez edições depois, Cruzeiro noticia os acidentes aéreos sofridos por Hemingway na África, em texto do próprio, novamente.

Ainda na África, pela Cruzeiro, em 1954

Fuentes, a inspiração para Santiago, na Manchete, em 1956:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/15461

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/15462

Às vésperas da morte de Hemingway, Manchete anuncia saúde frágil do escritor, em 1961:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/37756

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/37757

A morte do escritor, em 1961, noticiada na Cruzeiro

O último tiro de Hemingway, na Manchete, em 1961:

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/40050

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/40051

Willy Lewin, no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, fala sobre a obra de Hemingway, em 1970

O mesmo crítico, no mesmo suplemento, discute o prêmio Nobel, em 1971

De Nobel para Nobel: Gabriel García Márquez, também Nobel na categoria literária, escreve sobre Hemingway, para o Suplemento Literário do Estadão, em 1981:

http://memoria.bn.br/DocReader/098116x/9980

http://memoria.bn.br/DocReader/098116x/9981



Às vésperas da morte de Hemingway, Manchete anuncia saúde frágil do escritor, em 1961.