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Literatura | Sérgio Porto: o “Pai espiritual” de Stanislaw Ponte Preta

05 out 2020

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e marcado com as tags Jornalista, Segio Porto, Stanislaw Ponte Preta, Teatrólogo

“Quando vai Stanislaw / como uma nau / antiga, / na certeza / de libertar / o dia brasileiro / de cada /objeto / de tristeza / ponto no ar / seu riso forte / seu riso grande / contra a morte”.
[Luiz Paiva de Castro - O Pasquim]

O carioca Sérgio Porto (1923-1968) colecionava atividades das mais diversas: jornalista, cronista, teatrólogo e radialista, foram algumas das várias que exercia, em uma jornada diária de mais de 15 horas de trabalho (Revista da Semana).

Contemporâneo a Antônio Maria, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo, Ziraldo, Sérgio Cabral, Henfil, Millôr, dentre outros cronistas, cartunistas e jornalistas, fez parte de um grupo bastante significativo nos meios de comunicação brasileiros. No Brasil, da década de 1950, vivenciou o processo de gradual migração dos programas de auditório da Era do Rádio para a TV, veículo de comunicação que Porto caracterizava como “aparelho de fazer doido” (Revista do Rádio).

Sem dúvida, sua grande marca foi o humor. Transitando entre revistas e jornais cariocas de grande circulação, como Sombra, Manchete, Diário Carioca, Última Hora, ficou conhecido pelas sátiras e ironias afiadas, em especial as creditadas ao Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo e personagem de que Porto, segundo a Revista da Semana, seria “pai espiritual”. Stanislaw Ponte Preta seria o primeiro ícone da família Ponte Preta. Depois viriam outros personagens, Tia Zulmira, Primo Altamirando, Rosamundo, Bonifácio Ponte Preta. Como Stanislaw Ponte Preta, Porto foi autor de vários livros, dentre eles: Tia Zulmira, FEBEAPA e Primo Altamirando e Elas. Ponte Preta seria ainda mentor da coluna “As Certinhas do Lalau”, em que selecionava anualmente vedetes que trabalhavam no mundo artístico e as elencava em ranking das dez mais belas – segundo Porto, as ideia das “certinhas” seria fazer um contraponto às colunas sociais que arrolavam as mulheres mais elegantes e refinadas da alta sociedade, cultivando-se o ócio e a frivolidade, ao que respondia, como crítica ao moralismo: “Vestir com classe é fácil, o difícil é tirar a roupa com idem” (Última Hora).

Através da sutileza da escrita irônica, em especial durante a década de 1960, Sérgio Porto/Stanislaw articulava o humor e a crítica, como nessa anedota da personagem Tia Zulmira: “Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital gritando: “Eu sou coronel, eu sou coronel”, o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: “Fora esse, qual outro mal do qual o senhor se queixa?”. Outra característica, que lhe era peculiar, foi o deboche e, ao ser convidado a falar do seu automóvel favorito, para a Revista do Automóvel-Club, Stanislaw responde sem titubear: “A marca de automóvel que eu prefiro é ‘Taxi’, banda branca, bandeirinha pra cima” (Revista do Automóvel-Club).

O Festival de Besteira que Assola o País, ou FEBEAPA, coluna de crônicas de Stanislaw Ponte Preta, publicadas no jornal Última Hora, foi outra criação de Sérgio Porto. Reunidas posteriormente em livro, publicado em três volumes entre 1966 e 1968, constituíam-se de crônicas, e pequenos comentários jocosos, que transformavam as ações tomadas, durante os governos da ditadura civil-militar, em objetos de ironia e sátira por Ponte Preta (Última Hora). Segundo Porto, as notícias eram recolhidas pela agência Pretapress, cujos colaboradores eram os próprios leitores de suas crônicas (A Cigarra).

Sua jornada de trabalho exaustiva, entretanto, gradativamente sobrecarregava Porto. Sua saúde, em 1958, lhe deu o primeiro aviso e, aos trinta e cinco anos, sofreu seu primeiro infarto. Os amigos imaginavam o pior, jornais noticiavam seu estado delicado, aguardando notícias de um desfecho trágico. Superando as tristes expectativas, Sérgio conseguiu se recuperar voltando à rotina (Radiolândia). Muitas também foram as reportagens sobre sua recuperação, como a publicada na Revista do Rádio.

Ainda em 1958 foi lançado, pelos estúdios Herbert Richers, o filme “E o bicho não deu”, adaptado da obra de Stanislaw Ponte Preta por J.B. Tanko, e que conta as trapalhadas de um detetive que perde a memória em consequência de um acidente e transforma-se em um bicheiro. Estrelado por Grande Otelo e Ankito, dois grandes comediantes, que contracenavam ainda com Costinha, Carlos Imperial e Georgete Villas (Revista do Rádio)

Em 1968, não teve jeito. O infarto o pegou novamente e, dessa vez, fulminante, dez anos depois de seu primeiro sinal. Faleceu em 30 de setembro daquele ano. No ano seguinte à sua morte, e prestando homenagem à atuação humorística e crítica de Sérgio Porto, foi fundado O Pasquim. Os editores, desse que foi um dos ícones do humor e da crítica política dos anos 1970, elegeram Porto como patrono do impresso, tributando a Ponte Preta muitas de suas charges em crítica à ditadura civil-militar brasileira (O Pasquim). A ligação entre os editores de O Pasquim e Stanislaw Ponte Preta/Porto é constantemente reforçada nas páginas do impresso e, em uma intrigante entrevista, Sérgio Cabral “psicografa” as respostas de Sérgio Porto aos seus questionamentos. Construída com base nas afinidades entre Cabral e Porto, a entrevista-psicografia, explica o surgimento de vários personagens, como de Stanislaw, Tia Zulmira, assim como ressalta o viés crítico e político de Porto (O Pasquim).

Deixou quatro livros publicados como Sérgio Porto, dentre eles As Cariocas, adaptado para o cinema, em 1966, e para série de TV, em 2010. Como Stanislaw Ponte Preta, foram nove livros publicados, mais as séries de crônicas nos jornais pelos quais passou.

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