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Música | José Bispo Clementino dos Santos: o Jamelão

01 jun 2021

Artigo arquivado em Música
e marcado com as tags Carnaval, Estação Primeira de Mangueira, Foliões, Jamelão 108 Anos, Partido Alto, Sambas Enredo, Secult, Verde Rosa

Mangueira teu passado de glória
Está gravado na história
É verde e rosa a cor da tua bandeira
Prá mostrar a esta gente
Que o samba é lá em Mangueira

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor
Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som de teus tamborins
E o rufar do teu tambor
Chegou ô-ô-ô
A mangueira chegou ô-ô


(Exaltação à Mangueira. Compositores: Enéas Brites da Silva e Aluízio Augusto da Costa. Intérprete: Jamelão. O Cruzeiro, http://memoria.bn.br/docreader/003581/103289)

Intérprete, sambista, compositor. Apaixonado pelo carnaval, pelo samba em estilo partido-alto, e pela Estação Primeira de Mangueira - escola de samba do Rio de Janeiro, carinhosamente apelidada Verde-rosa. José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, é dessas figuras icônicas do samba e da Música Popular Brasileira. Um dos baluartes da Estação Primeira de Mangueira, que a amou e defendeu até o fim de seus dias - de corpo, alma e coração (O Cruzeiro).

Com personalidade marcante, mau humor característico, e voz inconfundível, interpretou sambas de Paulinho Soledade, Enéas Brites da Silva, Aluízio Augusto da Costa, Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues – de quem gravou uma antologia com suas músicas (Manchete), e outros. Foi contemporâneo de Zé Kéti, Elza Soares, Marlene, Dircinha Batista, Moreira da Silva, além de ter consagrado obras como Leviana (Zé Kéti, 1954), Exaltação à Mangueira (Enéas Brites e Aluízio Augusto, 1955), Perdi você (Jamelão, 195?), Estamos em Paz (Jamelão,196?), e os próprios sambas-enredo da Verde-rosa. Sambas esses compostos por Cartola, Delegado, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Nelson do Cavaquinho, Clementina de Jesus, Alcione, Beth Carvalho (Manchete; O Cruzeiro). Não admitia ser chamado de “puxador” de samba: Intérprete de Samba, era como gostava de ser conhecido - com letra maiúscula mesmo, como o sublime Intérprete merecia (Manchete).

Nascido no ano de 1913, Jamelão fazia pequenos trabalhos, em sua infância e juventude, para ajudar no sustento da casa - época em que transitava entre os bairros de São Cristóvão, Engenho Novo e Mangueira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Ainda jovem, logo se aproximou do samba, chegando à Mangueira pelas mãos do sambista Gradim, tocando tamborim e cavaquinho - instrumentos de percussão e corda, respectivamente (Manchete). Assim, histórias que se confundem, a vida de Jamelão permeia a própria trajetória existência da Mangueira, morro e escola de samba, tanto que comemorou seus 50 anos de carreira no mesmo ano em que a Verde-rosa comemorava o cinquentenário de sua fundação (O Cruzeiro,http://memoria.bn.br/DocReader/003581/197520 e http://memoria.bn.br/docreader/003581/198722). Comunidade que vive do espetáculo do Carnaval, ser Mangueira é, sobretudo, um destino dos moradores da comunidade, uma paixão arrebatadora que extrapola os limites do morro e segue pelo Rio de Janeiro afora, formando uma verdadeira nação entre os apaixonados pela agremiação: a nação mangueirense (O Cruzeiro).

Foi efetivado, em 1949, na posição de intérprete dos sambas-enredo da Mangueira. Na ocasião, as escolas de samba desfilavam nas ruas do Centro do Rio de Janeiro. Ao som de sua voz potente, a escola venceu vários campeonatos (O Cruzeiro). Contudo, a consagração definitiva viria 35 anos depois, com a apresentação estrondosa na inauguração da Avenida Marquês de Sapucaí (1984), o Sambódromo do Rio de Janeiro, onde a Estação Primeira levou o público a uma verdadeira Apoteose, em um desfile duplo (Manchete). Mestre Jamelão participou, ainda, de desfiles nas escolas de samba da cidade São Paulo, levando sua bagagem repleta de experiência aos sambistas paulistanos (Manchete, http://memoria.bn.br/DocReader/004120/255487 e http://memoria.bn.br/DocReader/004120/298055).

Ao longo de sua carreira, Jamelão se apresentou rem casas de show e dança, conhecidas como gafieiras. Dentre elas, a Jardim do Meyer - no Méier, Zona Norte do Rio (O Cruzeiro) - e Eldorado Danças - na Lapa, Centro do Rio (O Cruzeiro). Transitando por esses estabelecimentos, entrou em contato com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo (Manchete), para quem trabalhou como crooner - uma das vozes que compunham a orquestra - experiência reconhecida por Jamelão como essencial para a sua formação (Manchete). Nas gafieiras teria surgido o apelido: o apresentador, de um dos grupos para o qual tocava, não sabia seu nome e o introduziu ao público como Jamelão (Manchete).

Foi um dos convidados de Assis Chateaubriand, para representar o Brasil em uma festa no Castelo de Coberville, em Paris, no ano de 1952 (Manchete; O Cruzeiro). Por várias vezes dividiu palcos com artistas brasileiros de grande nome, como Emilinha (O Cruzeiro), divulgando a arte para a qual trabalhava incessantemente. Justificada e merecidamente, foi premiado com vários Estandartes de Ouro e troféus, como o Troféu Orniex (Careta), e o Título de Campeão de 1960, com o samba Fechei a Porta (Careta).

Em meados da década de 90, no auge de seus oitenta anos, Mestre Jamelão ostentava uma voz de menino, límpida e clara aos seus ouvintes, fruto de seu cuidado (Manchete). Nas palavras de Carlos Heitor Cony:

Uma das coisas mais difíceis que já tentei foi definir a voz dele. Um vozeirão pror sinal, mas que se ouve como se fosse um sussurro, um lamento saído de uma alma sofrida às vezes, às vezes gozadora, mas sempre legítima, autêntica, inconfundível (Manchete).

Seu sonho era desfilar, pela Estação Primeira de Mangueira, até os anos 2000 (Manchete). E foi realizado (Manchete). Apesar de ter anunciado, em 1990, que deixaria de cantar (Jornal do Brasil), sua atuação, até os 93 anos de idade, se encerraria devido a problemas de saúde, como os dois acidentes vasculares que teve. O ano de 2006, marca sua despedida da Avenida Marquês de Sapucaí (Manchete). A ausência foi sentida, por toda a nação mangueirense, no ano seguinte (Manchete). Entretanto, o vazio completo seria após seu falecimento, no ano de 2008.

Ele partiu, mas sua obra ficou. Assim como algumas de suas frases: verdadeiras pérolas da rabujice, mas com sua genialidade ímpar! A uma fã, que pedia autógrafo, teria respondido: “Infelizmente acabaram. Dei o último agorinha…”(O Cruzeiro). Ou quando o chamavam, inadvertidamente, de puxador de samba, ao que logo respondia: “Não sou puxador, sou intérprete. Puxador é quem puxa carro, é ladrão de automóvel. Meu negócio é cantar samba” (Jornal do Brasil). Diante de um fã que o queria beijar, respondeu: “Não! Não sei onde você andou com essa boca” (Manchete). Esse era o Mestre Jamelão.

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