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Música | Vida e Música de Jacob do Bandolim

09 abr 2021

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Quando o menino Jacob Pick Bittencourt, morador do bairro carioca da Lapa, escutou pela janela o violino tocado por um vizinho francês, se encantou com o som e pediu à mãe um instrumento igual. Ele tinha 12 anos e não se adaptou ao uso do arco, improvisando grampos de cabelo como palhetas para tocar as cordas. Até que um dia uma amiga da sua mãe explicou que existia um instrumento específico para ser tocado daquela maneira. E assim Jacob conheceu o bandolim. Autodidata, sem professores e treinando em casa, Jacob se tornou um exímio instrumentista, admirado por sua sonoridade e virtuosismo. Tão identificado ao instrumento que este virou parte do seu nome. Nascia Jacob do Bandolim.

Jacob foi o maior bandolinista brasileiro e responsável por elevar o bandolim da posição de acompanhamento para a categoria de solista. Vários desses solos podem ser escutados no acervo digitalizado da FBN. Ao final do texto listaremos alguns mas, para começar, aceite a sugestão: ligue o som, clique no link e siga lendo acompanhado da interpretação de Jacob para Atlântico, de 1951.

Nascido em 14 de fevereiro de 1918, filho único do capixaba Francisco Gomes Bittencourt e da polonesa Raquel Pick, Jacob se dividiu, durante toda a década de 1930, entre a música diversos trabalhos. Ao mesmo tempo em que tocava nas mais importantes rádios da época, como Rádio Guanabara, Mayrink Veiga, Rádio Clube do Brasil e Rádio Educadora, exercia variadas atividades: foi vendedor, prático de farmácia, corretor de seguros e comerciante. Na década de 40, já casado com Adylia Freitas, foi aconselhado por um grande amigo, o compositor Donga, a prestar concurso público e tornou-se escrivão do Tribunal de Justiça do RJ, cargo que ocupou até pouco antes de sua morte. Com emprego e renda fixa, Jacob não dependia economicamente da música e assim tinha liberdade para tocar e compor sem sofrer pressões de gravadoras ou editoras. Perfeccionista, sempre primando pela excelência artística, soube aproveitar seu prestígio no meio musical por conta do seu incontestável talento e a independência financeira para se permitir recusar a gravar discos que poderiam vender muito, mas que comprometeriam sua integridade musical. Assim, construiu uma obra que é considerada irretocável na história do choro.

Sua estreia em disco foi em 1947, na Jacob foi, além de um grande instrumentista e compositor, um pesquisador incansável da história da música brasileira e responsável pelo resgate e preservação da obra de vários mestres, como Ernesto Nazareth e João Pernambuco. Entusiasta de novas tecnologias, microfilmou centenas de partituras e composições. Também colecionava discos, recortes de jornais e, em 1955, adquiriu um gravador de rolo Phillips onde registrou em rolos magnéticos cerca de 300 horas de áudio incluindo programas de rádio, discos, ensaios e saraus. Utilizava a tecnologia da época para aprimorar seus registros e buscar novas sonoridades, chegando a inventar instrumentos musicais como o vibraplex, um violão tenor ligado a um órgão, que produzia um som parecido com o dos atuais sintetizadores.
Gravadora Continental, registrando o choro de sua autoria "Treme-treme" (escute aqui), hoje um clássico e a valsa "Glória", de Bonfíglio de Oliveira. Antes disso, em 1942, seu bandolim abriu a célebre gravação de "Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago. Após lançar três discos pela Continental, transferiu-se para a RCA Victor, onde ficou até o fim da vida. Jacob do Bandolim se apresentou em todas as grandes emissoras de rádio do Rio de Janeiro, teve um programa semanal na Rádio Mauá e um programa diário na maior emissora da época, a Rádio Nacional.


Em 1966, formou o conjunto Época de Ouro, com Dino Sete Cordas, César Faria, Carlos Leite, Jonas da Silva, Gilberto d'Ávila e Jorginho, músicos que participavam regularmente dos saraus que realizava aos sábados na ampla casa que construiu em Jacarepaguá. Esses saraus eram considerados uma permanente oficina musical, local de troca e convívio entre músicos de diversas localidades e gerações. Reunindo os maiores chorões da época, esses encontros semanais na casa de Jacob do Bandolim contavam com a frequência de grandes nomes das artes, como Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola e Clementina de Jesus.

Em 13 de agosto de 1969, retornando para casa após passar a tarde em visita ao amigo Pixinguinha, Jacob do Bandolim sofreu seu terceiro infarte e faleceu nos braços da mulher, na varanda de casa. Tinha 51 anos. O menino que havia escutado seu primeiro choro aos 13 anos, no som vindo da janela de um vizinho da Lapa e que diria mais tarde que jamais esqueceu essa primeira impressão, já era, a essa altura, considerado um dos maiores nomes do estilo. Em sua homenagem, seu filho Sérgio Bittencourt compôs a música “Naquela mesa”, sucesso da voz de Elizeth Cardoso. Aquela que diz: “Naquela mesa tá faltando ele/e a saudade dele/tá doendo em mim”.

Explore os documentos:

Tenebroso (1950)

Cabuloso (anterior a 1949)

Pé de Moleque (choro, 1950)

Doce de coco (1950)

Eu e você (choro, 1952)

Lamentos (solo de bandolim, 1952)




Revista do Rádio, 01/08/1950.