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O endereço dos bailes: o funk como representação cultural carioca

23 nov 2023

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Por todas as implicações sociais que ele traz e pela força com que conquistou o público consumidor carioca, o movimento funk é o maior acontecimento cultural do Rio de Janeiro nos últimos anos (Milagres, 1997, p. 43).


Em 2009, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro reconheceu o funk como patrimônio cultural carioca (Rio de Janeiro, 2009a). Muitos discursos giram em torno do funk, tanto no sentido de marginalizá-lo quanto de legitimá-lo como expressão cultural. Ao longo dos anos medidas combativas foram postas em prática, inclusive a proibição das festas onde era consumida a música − os bailes.

Historicamente, o funk nasce da soul music e, inicialmente, o termo funk era usado para designar a música negra dançante. O gênero funk chega ao Brasil, especificamente à periferia da cidade do Rio de Janeiro, nos anos 70. O ritmo carrega influências musicais africanas e americanas e foi se desenvolvendo, ao longo dos anos, como um gênero musical brasileiro genuinamente carioca.

No entanto, o surgimento do gênero nos anos 70 não obteve sucesso nos diversos grupos “sociais” carioca, pelo contrário, foi motivo de repúdio por alguns, principalmente por ser uma manifestação musical advinda do subúrbio carioca, isto é, uma música de periferia, criada por jovens negros e pobres: “As depreciações mais comuns são: pobreza, cafonice, abandono, atraso” (Vianna, 1997, p. 67).

Nos anos 70, os primeiros bailes ocorreram no Canecão, aos domingos. Os bailes, conhecidos como “Bailes da Pesada”, eram inspirados nos negros americanos e na sua luta pelos direitos civis. Em 1976 os bailes foram proibidos pela ditadura militar por reunirem grande quantidade de negros, e assim, levantarem a suspeita de ser um movimento social. Desde então, o Canecão virou um espaço destinado ao gênero MPB, iniciando a temporada de shows com Roberto Carlos (Vianna, 1997).

Nos anos 74 e 75, a proibição dos “Bailes da Pesada”, iniciou um movimento cultural de afirmação da identidade negra chamado de Black Rio ou bailes black. O movimento tinha como características principais: o penteado black power e a música executada nos bailes – soul music. Diversos artistas surgiram influenciados pela soul music, entre eles, Tim Maia, Cassiano e Sandra de Sá.

O movimento funk no Rio de Janeiro se mantém nos anos 80 – os bailes continuam a serem realizados, mas não mais sob a ideia de protesto dos bailes black. Os bailes, realizados nos subúrbios cariocas, passam a ter grupos de dançarinos e campeonatos de equipes de danças coreografadas.

No Rio de Janeiro, no ano de 1992, houve um “arrastão” na praia de Ipanema e a imprensa associou esse evento aos funkeiros. A pesquisadora Janaína Medeiros (2006) registra a entrevista do Nilo Batista, vice-governador do Rio de Janeiro, à época do arrastão onde Nilo afirma não ter tido vítima, nem roubo, apenas “um furto de uma toalha e um par de sandálias havaianas” (Medeiros, 2006).

Com o medo que o arrastão suscitou na população carioca, o funk começou a ser reprimido e a mídia passou a direcionar críticas, acusando-o – e assim, a seus adeptos – de ser uma música repleta de violência, de mau gosto e ouvida apenas por bandidos do morro. Após os arrastões – e a ideia do funk como ameaça – surgiram projetos como o Rio Funk, da Prefeitura do Rio, que incentivava e promovia o lazer e a vida cultural do gênero oferecendo cursos de DJs, dança etc. (Herschmann, 2000).

O funk, apesar da ascensão nos anos 90, tanto na TV quanto no rádio, continuou recebendo diversas críticas de uma parcela da população que, amparada pela mídia, começa a protestar contra a realização dos bailes. Segundo os opositores, os bailes funk trazem drogas e violência para as cercanias dos locais onde são realizados.

Em 29 de maio de 2000, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) instituiu regras para a organização de bailes onde se executava o gênero funk, e ao longo de oito artigos, discorria sobre segurança e responsabilidades dos realizadores. No entanto, essa lei (Rio de Janeiro, 2000), em outros termos, proibiu a realização dos bailes, pois os organizadores não conseguiam cumprir todos os decretos para realização.

Figura 1 – A onda que embala um milhão.

Fonte: Fonte: Souza (2000, p. 45).

Iniciaram-se os protestos contra a lei, artistas que aderiram ao gênero se manifestaram publicamente em prol da liberação dos bailes e da descriminalização do funk. Diversos manifestos e abaixo-assinados foram direcionados à ALERJ e campanhas foram iniciadas em prol do movimento de descriminalização e, portanto, liberação dos bailes. Dentre os manifestantes em defesa da descriminalização do gênero estão nomes reconhecidos em todo o país, como DJ Marlboro, Fernanda Abreu e Neguinho da Beija- flor.

Figura 2 – Coreografias ousadas e descontração.

Fonte: Fonte: Souza (2000, p. 44).

Em 2009, dois projetos de lei foram aprovados pela ALERJ (Rio de Janeiro, 2009a, 2009b), no que se refere ao funk. Em matéria intitulada Funk Legal, numa alusão à legalização dos bailes como manifestação cultural, o Jornal da ALERJ emitiu uma nota relativa à aprovação, que foi realizada por unanimidade (Freire, 2012, p. 3):

A cultura exaltou o combate ao preconceito contra o funk, que ganhou status de movimento cultural e teve garantida a sua livre manifestação, a partir da aprovação das leis 5.543/09 e 5.544/09.


Além da revogação das regras que dificultavam a realização dos bailes funks, a lei também conferiu status de movimento cultural e de caráter popular ao gênero funk, reconhecendo-o como patrimônio cultural carioca. Em suma, funk é cultura. As leis – 5.543/09 e 5.544/09 (Rio de Janeiro, 2009a, 2009b) – asseguram a realização das manifestações próprias ao funk e proíbe qualquer ato de discriminação. O funk, a partir desse status de patrimônio cultural, fica liberado para concorrer em editais públicos relacionados à cultura.

Diante desse quadro, no ano seguinte, em 2010, surge o movimento cultural denominado Rio Parada Funk (RPF). O evento realizado anualmente desde então, possui duração de 10 horas e conta com cerca de 100 apresentações, entre DJs e MCs, reunindo variados estilos, do erótico ao romântico.

A construção do gênero funk, a partir da juventude suburbana, demarca um território, um lugar onde símbolos produzem sentidos para aqueles que compartilham do gênero, criando a identidade de um grupo com práticas rotinizadas (Giddens, 2002) como hábitos de vestir, modos de agir e lugares preferidos de encontrar o outro.

Aqui, não consideramos os conceitos – já defasados – que distinguem cultura erudita de cultura popular. Para essa pesquisa nos detivemos nos conceitos de cultura pluralizada de Certeau (1995, p. 104), pois

a relação da cultura com a sociedade modificou-se: a cultura não está mais reservada a um grupo social: ela não mais constitui uma propriedade particular de certas especialidades profissionais (docentes e profissionais liberais) ela não é estável e definida por um código aceito por todos.


Entendemos que o popular compreende o que provém do povo, mas também o que é consumido por ele, gerando um fluxo de produção e consumo. Se entendermos cultura como tudo que é especificamente humano, acabamos por pensar o funk – sua construção – como cultura.

Compreendemos que os diversos gêneros e expressões musicais que surgem, ano após ano no Brasil, acabam por ser a expressão do povo, da sua história e também dos seus anseios, símbolos e valores, e essas manifestações são importantes por contarem a história de um povo, demarcarem épocas e acontecimentos. Hoje, podemos dizer que o funk já obteve o status de cultura e é um produto cultural brasileiro.

Figura 3 – O que importa é a diversão.

Fonte: Souza (2000, p. 46).

[*] Doutora em Comunicação (UERJ) e bolsista do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa (PNAP 2012) da Fundação Biblioteca Nacional (FBN).



REFERÊNCIAS

CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Trad. Enid Abreu Dobránsky. Campinas, SP: Papirus, 1995.


DAYRELL, Juarez. A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.

FREIRE, Libny S. Carioca por cariocas: Uma análise da representação do funk nos jornais O Globo e O Dia. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUDESTE, 17., 2012. Ouro Preto, MG. [Anais]. São Paulo: Intercom, 2012. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2012/resumos/R33-1487-1.pdf. Acesso em: 04 jan. 2013.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

HERSCHMANN, Micael. O funk e o hip hop invadem a cena. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2000.

LIMA, Maria Érica de Oliveira. Mídia Regional: indústria, mercado e cultura. Natal: Editora da UFRN, 2010.

MACEDO, Suzana. Dj Marlboro: Na terra do funk. Rio de Janeiro: Dantes, 2003.

MEDEIROS, Janaina. Funk carioca: crime ou cultura?: o som dá medo e prazer. São Paulo: Terceiro Nome, 2006.

MILAGRES, André Luis. Demorou para abalar: o funk como zona de contato entre classes sociais. Rio de Janeiro: Papéis avulsos, 1997.

RIO DE JANEIRO (Estado). Lei nº 3.410, de 29 de maio de 2000. Dispõe sobre a realização de bailes tipo funk no território do estado do Rio de Janeiro e dá outras providências. Rio de Janeiro: ALERJ, 2000. Disponível em: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/contlei.nsf/bc008ecb13dcfc6e03256827006dbbf5/756831a75d413aa4032568ef005562d8?OpenDocument&ExpandView. Acesso em: 10 nov. 2023.

RIO DE JANEIRO (Estado). Lei nº 5.543, de 22 de setembro de 2009. Define o funk como movimento cultural e musical de caráter popular. Rio de Janeiro: ALERJ, 2009a. Disponível em: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/c8aa0900025feef6032564ec0060dfff/78ae3b67ef30f23a8325763a00621702?OpenDocument. Acesso em: 10 nov. 2023.

RIO DE JANEIRO (Estado). Lei nº 5.544, de 22 de setembro de 2009. Revoga a Lei nº 5265, de 18 de junho de 2008, que dispõe sobre a regulamentação para a realização de eventos de música eletrônica (festas raves), bailes do tipo funk, e dá outras providências. Rio de Janeiro: ALERJ, 2009b. Disponível em: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/c8aa0900025feef6032564ec0060dfff/e10aa060221680ff8325763c005ac9dc?OpenDocument. Acesso em: 10 nov. 2023.

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Trad. Pedro Caldas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

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VIANNA, Hermano. O mundo funk carioca. 2. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.