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à memória de Candido Mendes, Luiz Paulo Horta e Tarcísio Padilha
Marco Lucchesi
A poesia de Jorge de Lima, antiga e nova, ubíqua e universal, traduz o sentimento da presente exposição. Inscreve-se na página das grandes utopias. Ilustra uma possível narrativa do bicentenário das relações entre o Brasil e a Santa Sé:
“Sou velhíssimo e apenas nasci ontem,Essa profunda forma de pertencimento, católica e brasileira, invoca uma poética da Diferença, que já não perde seu olhar universal. Eis o fio-condutor que rege a nossa narrativa, disposta a celebrar essa efeméride.
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos,
todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu
unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.”
Não é pequeno o desafio. A História do Ocidente e a do Brasil coincidem, herdeiros de um certo cristianismo, marcado, aqui, por seu tempero ibérico e romano, renovado pela cultura das nações indígenas e africanas, Ocidente profundo, em síntese barroca e jesuítica. Uma História de aportes variáveis, incerta e descontínua, feita de avanços e contradições, no cenário da longa duração.
Como se não bastasse o desafio, urge voltar ao século XVI, à gênese de um plano fundador, a uma gramática da conversão, nas malhas do sistema colonial, como quem considera um bicentenário de quinhentos anos, cujas matrizes formam, hoje, parte expressiva do Sul global.
Distinguir as vozes autorais, frente ao discurso diplomático, os gestos solitários e as grandes linhas políticas entre o Brasil e a Santa Sé, empresta uma dinâmica ao processo, complexa e aderente, capaz de atenuar visadas parciais, marcada por anacronismos.
Em todas as vertentes apontadas, nos vários níveis ou camadas, as coleções da Biblioteca Nacional indicam um recorte estratigráfico, e expõem a convergência de saberes, na guarda e difusão dessa memória.
Por outro lado, tecer a história da diplomacia, entre a Santa Sé e o Brasil, sem contemplar o viés cultural, seria coligir matéria abstrata, apostar num tecido que se esgarça, nos fios de uma história factual, que armazena datas e efemérides sem alma, gráficos e tabelas, deixando para trás uma razão subjetiva, integrada no campo das mentalidades.
Convocamos uma ideia sinfônica, pluriétnica, de múltiplas conformações a partir do riquíssimo acervo da FBN, entre a Bíblia de Mogúncia e o Documento de Aparecida, as bulas papais e os Sermões de Vieira, o fim da escravidão e a teologia das religiões, o Império e a República, a globalização e a defesa da Casa comum.
Nosso desenho procurou adequar os laços, nada triviais, entre o devir e a memória dos objetos, a lacuna e o sistema, a identidade e a diferença.
A memória da Biblioteca oferece páginas sublimes e dramáticas, que inspiram formas de reparação e de mudança, inafastáveis do processo democrático. E a BN se reveste dessa missão, ao ampliar, dentro de novos padrões, sensíveis e abertos, a memória das etnias do Brasil.
Para além das demandas pragmáticas, políticas e funcionais da esfera da diplomacia, esse bicentenário é também uma convergência de eutopias: da promessa cristã, do sebastianismo, da Terra sem males, da resistência quilombola, das tradições judaica e muçulmana.
Protagonista desse diálogo, a partir do Vaticano II, e do pontificado do Papa Francisco, a Santa Sé vem promovendo o diálogo inter-religioso, a cultura do acolhimento e da paz, a defesa da diversidade cultural e do planeta onde vivemos.
São estes os elementos mais preciosos de nossa agenda comum, voltada para um futuro, cujos motores apressamos, em termos teológicos e filosóficos, entre cristãos e não cristãos, crentes e ateus, segundo uma esperança obstinada: uma demanda de paz e justiça.
E só depois, enquanto promotores da utopia, cresce uma agenda poética, como naquela página de Degustação, de Antônio Carlos Villaça, ao imaginar um mosteiro ideal no coração do Brasil. Pura metáfora de sonho e e de acolhida, como quem diz templo, terreiro, sinagoga ou mesquita. Que essa demanda emocionante de Villaça aqueça nossos vínculos futuros:
“O mosteiro se chamaria da Ressurreição. Ou se chamaria de Nossa Senhora da Ternura?
“Bem. Sonho com esse mosteiro. Seria um mosteiro naquela ponta entre Goiás, Maranhão, Piauí e Bahia. Uma ponta. Sempre sonhei com um mosteiro ali, naquele ponto, naquela ponta, no meio do mato, em pleno sertão.
“E lá ficaríamos em paz. Naquele fim de mundo. E seria um mosteiro com aeroporto, com piscina, com sauna, com terraço para banho de sol, com jardins, com bosque. Sim, um parque, uma espécie de fazenda, para nosso regalo. E naturalmente uma biblioteca.”