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Novos Rumos

29 Nov 2016

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Astrogildo Pereira, Censura e repressão, Ciências sociais, Crítica política, Imprensa marxista, Luís Carlos Prestes, Movimento Estudantil, Movimento grevista, Nacionalismo, Partido Comunista Brasileiro, Pedro Motta Lima, Pedro Pomar, Questões agrárias, Questões sociais, Questões trabalhistas, Sindicalismo

Lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 28 de fevereiro de 1959, Novos Rumos foi um semanário de circulação nacional editado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), à época denominado Partido Comunista do Brasil. Junto com A Classe Operária, Voz Operária e Imprensa Popular, também criados pelo PCB, foi um dos mais importantes jornais da história da esquerda brasileira. Acabou sendo extinto em 19 de abril de 1964, em consequência do golpe que iniciou a ditadura militar no Brasil.

Novos Rumos foi criado em decorrência da crise vivida pelo PCB em 1956 (eclodida pela polêmica em torno do revisionismo ao governo de Josef Stálin na União Soviética, depois das denúncias do chamado Relatório Kruschev), que, a princípio resultou no desligamento de vários militantes e em alterações dentro do próprio partido. No desenrolar dos debates para que se estabelecesse um novo rumo ao comunismo nacional, a direção do PCB divulgou a chamada “Declaração de março de 1958”, um manifesto político que representava mudanças na linha de ação do partido ao sublinhar a necessidade da criação de uma frente única nacionalista para combater o imperialismo e o caráter progressista do desenvolvimento capitalista nacional, visando, a partir daí, a instauração de um governo nacionalista democrático. No contexto dessa nova posição, que acarretou a debandada de outra leva de militantes, entre os quais uma parcela considerável de intelectuais ligados a publicações periódicas de esquerda, estava prevista a revisão da política de imprensa até então adotada pelo PCB. Assim, ao longo de 1958 e até o início de 1959, o partido extinguiu os jornais Imprensa Popular e Voz Operária para que, a partir de fevereiro de 1959, seus esforços se concentrassem em um novo órgão, Novos Rumos.

O então novo jornal do PCB era dirigido inicialmente por Mário Alves de Souza Vieira, com Orlando Bonfim Júnior como chefe de redação, Fragmon Carlos Borges como secretário e Guttemberg Cavalcanti como gerente. A redação era então composta por Almir Mattos, Rui Facó, Josué Almeida, Paulo Motta Lima, Maria da Graça e Luís Ghilardini.

Logo quando da sua criação, Novos Rumos circulava legalmente. No entanto, era apenas um órgão “semi-oficial” do PCB: apresentava as propostas do partido para seus próprios quadros (leitores assinantes) sem se mostrar formalmente ligado ao mesmo, ao mesmo tempo em que procurava servir de porta-voz das lutas, das necessidades e das reivindicações da classe trabalhadora. No entanto, segundo verbete sobre o jornal no “Dicionário histórico e biográfico brasileiro pós-1930”, de autoria de Marieta de Morais Ferreira, “este último objetivo era na prática sacrificado ao primeiro, tendo o jornal voltado o seu noticiário muito mais para as elites políticas de esquerda do que para os trabalhadores” (vol. 4, p. 4.126). Não obstante, a autora afirma que o jornal era diferente das publicações anteriores do PCB por se mostrar mais aberto a discussões e questionamentos, postura possibilitada pelo próprio ambiente propício ao debate dentro do partido. Assim, Novos Rumos tinha relativa autonomia frente à cúpula do PCB.

Citando um depoimento de Luís Mário Gazzaneo, chefe de redação do jornal a partir de 1963, Marieta de Morais Ferreira destaca:

Em diversas ocasiões Novos Rumos se adiantou à direção do partido publicando notícias antes que houvesse sido adotada uma posição oficial. Como exemplos, Gazzaneo cita as reportagens sobre a construção de Brasília e a indústria automobilística brasileira, em que foram ressaltados os aspectos positivos desses empreendimentos antes do pronunciamento oficial do PCB. Esses episódios teriam aliás suscitado várias polêmicas e divergências no interior do partido. Outro exemplo citado por Gazzaneo foi a edição do jornal comemorativa do VII Congresso da Internacional, em que se iniciou a publicação em folhetim do livro de Alexander Soljenitzin, Um dia na vida de Ivan Denissovitch. A escolha dessa obra, que mais do que qualquer outro documento retratava o que havia sido o stalinismo, obedecia a uma clara intenção crítica da parte do jornal. Embora tivesse provocado inúmeras divergências dentro do partido, sua publicação não foi suspensa. (vol. 4, p. 4.126)

Apesar da relativa independência de sua linha editorial, em geral, Novos Rumos reproduzia em seus editoriais e artigos as orientações do PCB, enfocando, sobretudo, assuntos nacionais sob o prisma comunista. Nesse sentido, o jornal publicava seções especiais para a discussão de teses e propostas a serem debatidas nos congressos do PCB: é o caso da página “Tribuna de debates”, publicada em 1960 em virtude do V Congresso do PCB, onde ficaram registradas as posições divergentes de Pedro Pomar, Diógenes Arruda, Maurício Grabois e João Amazonas, que dois anos depois fundariam o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), onde reeditariam um antigo periódico do PCB, A Classe Operária.

Ao longo de seus cinco anos de existência, Novos Rumos apresentou artigos discutindo questões variadas em torno do marxismo: a aplicabilidade do modelo socialista na sociedade, teorias marxistas e leninistas em reflexão, a estrutura partidária em países comunistas, entre outras coisas, incluindo explicações didáticas para iniciantes no pensamento socialista. Em seu forte noticiário internacional eram publicadas muitas denúncias de opressão política em países que não eram socialistas; nesse aspecto, fazia franca oposição às ditaduras de Franco e Salazar na Espanha e em Portugal, combatia o domínio estrangeiro em países latino-americanos, repudiava nações consideradas imperialistas, criticava falhas na sociedade norte-americana, etc. Em paralelo, elogiava-se o modelo soviético e exaltava-se o avanço do comunismo em diversas nações, com grande destaque ao caso cubano. Outro nicho temático muito explorado por Novos Rumos foi o das lutas e reivindicações camponesas e o do movimento sindical urbano, com apresentação e discussões de acordos trabalhistas, mobilizações operárias, greves, encontros e assembleias de categorias variadas, etc. Não havia propriamente uma seção de cultura no semanário, à exceção da publicação de resenhas de livros cujos autores estavam afinados com o PCB.

Em suas avaliações políticas sobre a vida pública brasileira, Novos Rumos criticava muito figuras como Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Ademar de Barros e João Goulart (este muito por buscar alianças no Congresso Nacional com políticos do Partido Social Democrático, na chamada “política de conciliação”). Por outro lado, o jornal via com bons olhos figuras ou instituições como Luís Carlos Prestes (liderança máxima do PCB), Miguel Arraes, Leonel Brizola, a Frente de Mobilização Popular (FMP, muito atuante na crítica a Jango), a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), os Centros Populares de Cultura (CPC) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).

No lado material, Novos Rumos saía em formato standard, às terças-feiras, composto inicialmente por dois cadernos, totalizando cerca de 14 páginas. O periódico aparentava não se sustentar através de publicidade comercial, já que publicava poucos anúncios, a maioria de livros da Editorial Vitória; seu sustento vinha provavelmente do PCB e da venda de exemplares avulsos ou por assinatura. Com o passar do tempo, a tiragem de Novos Rumos chegou a atingir 60 mil exemplares, mas seu número de páginas foi reduzido a oito. Em alguns momentos, quando a conjuntura da classe operária exigia informações mais regulares, o jornal chegou a circular diariamente, como durante as greves gerais de 1962.

A partir do início de 1963, Novos Rumos passou a ser dirigido Orlando Bonfim Júnior, com Luís Mário Gazzaneo na chefia da redação, Fragmon Carlos Borges como diretor executivo e Guttemberg Cavalcanti como gerente (esta configuração se manteve até o fim do periódico). Apesar de ser assumidamente socialista – especialmente a partir de meados de 1963, quando passou a circular com o slogan “Nacionalismo – Democracia – Socialismo” –, formalmente, o semanário continuava não se apresentando explicitamente como um órgão do PCB. Nesse ano, o jornal se identificava em expediente apenas como propriedade da Editora Aliança do Brasil Ltda. Já em seus momentos finais, Novos Rumos contava então com uma edição para Minas Gerais, dirigida em Belo Horizonte por Elaon Costa e com Ney Velloso como gerente, e sucursais em São Paulo e no Paraná.

De 1959 a 1964, além do trabalho dos nomes já citados, o semanário contou com valorosas contribuições de Astrojildo Pereira, Carlos Marighella, Giocondo Dias, J. Câmara Ferreira, João Massena Melo, Hércules Correa, Sinval Palmeira, Leandro Konder, Beatriz Bandeira, Ana Montenegro, Roberto Morena, Apolônio de Carvalho, Agostinho Oliveira, Fausto Cupertino, Everaldo Martins, Renato Arena, Jacob Gorender, Antônio Chamorro, Pedro Severino, Zé Vicente, Roma (chargista), entre outros. Algumas das colunas de maior destaque do semanário foram “Teoria e Prática”, de Apolônio de Carvalho, onde eram, aliás, respondidas questões enviadas por leitores; “Tópicos Típicos”, de Pedro Severino; “Fora de Rumo”, de Pedro Motta Lima; “Crônica de Brasília”, de Marco Antônio; “Nota Econômica”, de Josué Almeida; “Vida Sindical”, que não tinha autor fixo, normalmente assinada por Agostinho Oliveira, Roberto Morena e Geraldo Rodrigues dos Santos; entre outras.

Fontes:

– Acervo: edições do nº 1, de 28 de fevereiro a 6 de março de 1959, ao nº 265, de 27 de março de 1964.

– FERREIRA, Jorge. Os comunistas e os Novos Rumos. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, junho 2011. Disponível em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300311193_ARQUIVO_OscomunistaseosNovosRumos.pdf Acesso em 24 abr. 2012.

– FERREIRA, Marieta de Morais. Novos Rumos. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001. Vol. IV.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.