BNDigital

O Cruzeiro

19 Nov 2015

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Aliança Liberal, anticomunismo, Arte e cultura, Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Cinema, Colunismo social, Comércio, Comportamento, Conservadorismo, Costumes tradicionais, Crítica política, Cultura popular, Di Cavalcanti, Diários Associados, Ditadura civil-militar brasileira, Economia, Entretenimento, Esportes, Estado Novo, Fotografias, Getúlio Vargas, Gilberto Freyre, Henrique Teixeira Lott, História, Humor político, Jornalismo investigativo, José Lins do Rego, Liberalismo econômico, Literatura, Manuel Bandeira, Millôr Fernandes, Moda, Nelson Rodrigues, Publicidade, Questões sociais, Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1930, Rio de Janeiro, Samuel Wainer, Segunda Guerra Mundial, União Democrática Nacional

Lançada no Rio de Janeiro (RJ) em 10 de novembro de 1928 por Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, O Cruzeiro foi uma das mais proeminentes revistas ilustradas da história da imprensa brasileira. Circulando semanalmente em todo o território nacional, foi um dos primeiros órgãos a integrar os Diários Associados, a primeira rede de comunicação brasileira, que, em seu auge, contabilizaria 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de televisão, dentre as quais, a TV Tupi. Fundada num período de franca expansão da rede, quando Chateaubriand já mantinha O Jornal, a revista foi um dos bastiões dos Associados, tendo revolucionado o mercado editorial brasileiro ao criar e ditar padrões, além de ter influenciado fortemente a opinião pública nacional de acordo com as predileções políticas de seu proprietário. Com a decadência da cadeia após a morte de Chateaubriand, em 1968, o semanário perdeu muito de seu brilho na década de 1970, até fechar definitivamente em 1985.

O idealizador d’O Cruzeiro, ao contrário do que possa parecer, não foi Assis Chateaubriand. O projeto editorial da revista, visando grande circulação, foi concebido pelo jornalista português Carlos Malheiro Dias, criador da Empresa Gráfica Cruzeiro S.A. No entanto, o capital necessário para manter tal empreitada não estava em suas mãos e a recém-fundada empresa foi passada a Chateaubriand, que conseguiu os recursos necessários através de um empréstimo junto ao Banco da Província, intermediado pelo então ministro da Fazenda Getúlio Vargas. O banco era propriedade do então recém-nomeado presidente do Banco do Brasil, Antônio Mostardeiros, e o caráter político da negociação era altamente conveniente tanto a Chateaubriand quanto a Vargas, que veria o total apoio dos órgãos Associados à Aliança Liberal e à Revolução de 1930. Malheiro Dias acabou figurando como o primeiro diretor da revista, ao lado de José Mariano Filho, o diretor-presidente.

Graficamente, O Cruzeiro era a opção mais sofisticada no jornalismo brasileiro de então. Sua boa impressão somava-se ao uso de um papel de qualidade superior e ao grande uso de fotografias, tornando-a muito atraente ao público de classe média. O plano textual, por outro lado, não ficava atrás: grandes nomes do jornalismo nacional e internacional davam as caras em suas páginas. Para manter seu caráter cosmopolita, O Cruzeiro contava com o serviço de agências de notícias em diversas cidades brasileiras, bem como de grande rede de correspondentes internacionais – em Paris, Londres, Madri, Lisboa, Berlim, Roma e Nova Iorque. Fazendo o gênero de revista de variedades, o semanário de Chateaubriand focava de tudo um pouco: tratava de assuntos políticos, sociais e econômicos, sem deixar de lado efemérides e assuntos de vulto na semana, esportes, moda e celebridades, humor ilustrado, noticiário internacional, história, concursos e promoções, colunismo social, arte e cultura – além da publicação de contos e poemas, O Cruzeiro dava grande atenção ao cinema, tendo inclusive firmado contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer para a divulgação de filmes da companhia na revista em troca da exibição de propagandas da mesma antes das projeções da MGM nos cinemas. Em verdade, a revista começou inovando, de forma ambiciosa, já na publicidade quanto ao seu lançamento: a 5 de dezembro de 1928 quatro milhões de panfletos promocionais foram jogados do alto de edifícios do Centro carioca, nos arredores da Avenida Rio Branco, com dizeres como “Sábado! A revista Cruzeiro atravessará o Brasil de extremo a extremo” ou “Cruzeiro, a revista contemporânea dos arranha-céus!”. A circulação em todas as capitais e principais cidades do país, que fazia com que o periódico tivesse tiragem inicial de 50 mil exemplares, era uma novidade no mercado editorial de então.

Logicamente, o apoio dos Diários Associados à Aliança Liberal traria efeitos sobre O Cruzeiro. Tendo, na capital, colocado tanto o semanário ilustrado quanto O Jornal na defesa da chapa encabeçada por Getúlio Vargas, Assis Chateaubriand conseguiu financiamentos via membros da Aliança Liberal para a o lançamento de mais um jornal no Rio de Janeiro, o Diário da Noite, de caráter popular, e para a aquisição d’O Estado de Minas em Belo Horizonte. Tais aportes ainda permitiram, em 1929, através da firma Oscar Flues & Cia., a importação de cinco impressoras americanas de rotogravuras em quatro cores, nunca antes usadas no Brasil, que foram utilizadas tanto para as tiragens d’O Cruzeiro quanto dos suplementos a cores dos jornais diários da cadeia – como até então a impressão da revista se dava em Buenos Aires, o feito resultou em grande agilidade. Em campanha pró-Vargas, contra a continuidade do sistema oligárquico da República Velha, Chateaubriand e os Associados contribuíram para uma mobilização política junto à opinião pública até então inédita no país.

Ao passo em que as candidaturas de Getúlio e João Pessoa ganhavam amplo destaque nas páginas d’O Cruzeiro, o candidato de continuidade, Júlio Prestes, só era visto na revista caso a situação pagasse para isso – aparecia ali, afinal, minimamente. Chateaubriand, então, prestava um serviço não apenas à Aliança, mas a si mesmo: na cúpula aliancista o empresário era praticamente um membro. Com a vitória de Prestes e a articulação para uma saída insurrecional à situação, o assassinato de João Pessoa a 26 de julho de 1930 foi largamente explorado pelos Associados, fomentando a força aliancista no sentido de impedir a posse de Júlio Prestes: o governo federal, ainda sob o mandato de Washington Luís, era diretamente acusado pelo crime (ver edição de 16 de agosto de O Cruzeiro, por exemplo). Tal engajamento político, naquele ano, dividia as páginas da revista com o lançamento do seu primeiro concurso de beleza, algo que passou a ser uma das marcas do periódico; além de ter lançado um número especial sobre a eleição da miss Universo de 1930 no Rio de Janeiro, o concurso recebeu ampla propaganda e elevou a tiragem d’O Cruzeiro para 80 mil exemplares, algo mais do que conveniente para os partidários da Aliança Liberal. O levante de 3 de outubro que depôs a presidência da República e instalou um governo provisório composto por uma junta governativa, portanto, foi altamente comemorado pelos órgãos Associados. A edição de 8 de novembro de 1930 da principal revista da cadeia, lançada apenas cinco dias depois de a presidência ter sido entregue a Getúlio Vargas, foi emblemática: chegou mesmo a ser renumerada por conta do triunfalismo em torno do feito, como se, assim como o país, o semanário também “renascia” a partir da Revolução de 1930. Ademais, pouco depois chegou a ser lançada uma edição especial d’O Cruzeiro, intitulada “A revolução nacional: documentos para a história”.

A instalação da nova situação, ao contrário do que se poderia esperar, acabou não sendo favorável a Chateaubriand e seus Associados. Todavia, em 1931 o empresário lançou o Diário da Tarde e a Rádio Mineira em Belo Horizonte, além de ter comprado o antigo Diário de Pernambuco. No mesmo ano foi fundada a Agência Meridional de Notícias, a primeira do país, e a cadeia estabeleceu contrato com a Wide World Photo, de Paris, inaugurando um serviço fotográfico pioneiro no Brasil e garantindo imagens de vários jornais internacionais aos Diários Associados. Por outro lado, logo começaram a surgir divergências entre Vargas e Chateaubriand. Este pregava contra o estabelecimento de um governo ditatorial no Brasil, pedindo a rápida reconstitucionalização do país em seus meios de comunicação. Repentinamente as partes voltadas aos costumes, à família e ao lar em O Cruzeiro foram dando espaço a um jornalismo politizado, crítico às ações do governo. Ligado então a um grupo integrado por Lindolfo Collor, João Batista Luzardo e Raul Pilla, Chateaubriand levou seu grupo a apoiar a Revolução Constitucionalista de 1932; o que resultou no confisco da sede e da maquinaria do principal diário da rede, O Jornal, pelas mãos de João Alberto Lins de Barros, e na decretação da deportação do dono dos Associados. Sua revista, entretanto, continuava cobrindo o desenrolar do conflito em São Paulo, apesar da censura, mas durante a ausência de Chateaubriand a tiragem do semanário caiu para 20 mil exemplares. No final de 1932, com o fim da Revolução Constitucionalista, O Cruzeiro acabou tendo sua circulação interrompida por um mês: as pressões do governo enfim prevaleceram.

Chateaubriand permaneceu à surdina até novembro de 1933, momento em que foi instalada a Assembleia Constituinte. Retomando o controle de seus periódicos e voltando ao cenário público, o empresário reconciliou-se com Vargas e, apesar da ditadura, empenhou-se em manter e melhorar os órgãos Associados, O Cruzeiro em especial. A revista já não contava mais com Carlos Malheiro Dias na direção, mas mesmo assim foi reerguida, levando consigo toda a rede de comunicação a que pertencia. No semanário, então, Dario de Almeida Magalhães foi colocado na presidência, Accioly Neto na chefia de redação, Martinho Luna de Alencar na chefia da contabilidade, e o primo de Chateaubriand, Leão Gondim de Oliveira, passou a cuidar dos projetos gráficos – mas logo em seguida, o último passou a ser o diretor do periódico. O Cruzeiro começou então a se modernizar; junto com a nova chefia, diversos nomes de peso da intelectualidade brasileira passaram a integrar as páginas da revista de 1934 em diante: Cândido Portinari, Anita Malfatti, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Otto Maria Carpeaux, Graça Aranha, Edmar Morel, Viriato Correia, Alex Viany, Gustavo Barroso, Viriato Correia, Carlos Castelo Branco, Aldo Bonadei, Ismael Néri, Carlos Lacerda, entre outros. A reestruturação d’O Cruzeiro, afinal, ocorreu muito pela assinatura de contratos publicitários, como o firmado com a General Electric do Brasil, que permitiu a compra de novo maquinário.

Após esse período de retomada de forças, as relações entre Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas voltaram a se deteriorar, particularmente quando do apoio dado pelos Diários Associados a Armando Salles ao pleito à presidência da República previsto para janeiro de 1938. Em 1937 O Cruzeiro estava praticamente a serviço de Salles, acompanhando a campanha do candidato por todo o país, mas a instituição do Estado Novo, em regime de inspiração fascista, frustrou os interesses de Chateaubriand. Após o recrudescimento das relações entre o empresário e Vargas, o primeiro teve que se adequar: os principais periódicos de sua cadeia passaram a focar os principais feitos do governo federal, atuando mais como veículos de propaganda do que de jornalismo.

Ironicamente, foi sob esse contexto que, em 1943, quando já estava sob a direção do talentoso sobrinho de Chateaubriand, Frederico (ou “Freddy”, como era conhecido), O Cruzeiro atingiu seu grande momento editorial. Foi ele o responsável por abrir espaço ao talento de Millôr e Hélio Fernandes, José Lins do Rego, Joel Silveira, Franklin de Oliveira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues nas páginas da revista, que entrava então em franca expansão. Além de manter as atenções da revista no mundo das celebridades cinematográficas e nos lançamentos dos grandes estúdios, sob a gestão do novo diretor entrevistas ilustradas com astros internacionais não só catapultavam as vendas do semanário como faziam eco à expansão do cinema norte-americano no Brasil de então. Em outro campo, “Pif-Paf”, a página humorística que Millôr assinava sob o pseudônimo de Vão Gogo, passava a fazer sucesso estrondoso. O primeiro ilustrador dessa seção, o cartunista Péricles, foi, a partir de outubro de 1943, o autor de “Amigo da Onça”, cartum que teve aceitação maior ainda – de fato, o gosto do público pelo personagem foi tamanho que uma equipe de desenhistas d’O Cruzeiro teve que dar continuidade ao desenho de humor mesmo após o suicídio de Péricles, em 1961.

Foi também sob a responsabilidade de Freddy Chateaubriand que se firmou a primeira e mais célebre parceria entre repórter textual e repórter fotográfico da imprensa brasileira, entre Jean Manzon e David Nasser. Tudo começou com um contrato estabelecido entre O Cruzeiro e o francês Jean Manzon. Com grande experiência adquirida como repórter fotográfico na Paris-Match e no Paris Soir, Manzon acabou redefinindo o padrão visual do semanário, que passou a apresentar a imagem de uma nova maneira. Suas fotos, ao lado dos textos de David Nasser, que foi parar no periódico por sua indicação, se tornaram o conteúdo jornalístico de maior qualidade e destaque na revista, ao longo de 15 anos de parceria. O trabalho de ambos, em dupla, foi na verdade uma exigência do francês, que queria introduzir na revista um hábito da imprensa europeia: a “dobradinha” repórter-fotógrafo, onde um só se preocuparia em escrever e o outro em fotografar. A reportagem sobre índios da etnia xavante feita pela dupla e publicada em 24 de junho de 1944 é celebrada tanto como ponto revolucionário para a fotografia de imprensa brasileira quanto pelo papel que desempenhou na exposição inédita da comunidade indígena aos olhos do público de massa nacional. Em paralelo, a série “Falta alguém em Nuremberg”, iniciada em 1945, denunciando as atrocidades cometidas contra presos políticos por Filinto Muller, chefe da polícia política durante o Estado Novo, atingiu grande repercussão, provocando uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre atos delituosos cometidos durante a ditadura.

Dado o turbulento momento brasileiro, no plano político, a meados da década de 1940 O Cruzeiro e os demais órgãos Associados foram veículos ativos, porém cautelosos, junto à opinião pública, tendo demonstrado, inclusive, inclinações contraditórias, dependendo do contexto. No ano de 1945 Chateaubriand voltara seus periódicos ao apoio à redemocratização do Brasil, indo contra, portanto, Getúlio Vargas. Em outubro desse ano sua principal revista havia dado destaque aos últimos momentos da ditadura, com uma reportagem de Nasser e Manzon sobre o último dia de Vargas no Catete. Esse tipo de conteúdo fazia eco aos diversos anúncios – publicados gratuitamente em todos os órgãos da cadeia – de propaganda eleitoral do brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN). Apesar disso, os Associados eram cuidadosos quanto à forma de apresentar o candidato de situação, o general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático (PDS), que ao menos de O Cruzeiro recebia referências elogiosas. Sob o argumento da conciliação nacional, todavia, após a vitória de Dutra os Associados passaram a apoiar o governo.

Tal postura situacionista, aliada à boa gestão de Freddy Chateaubriand, rendeu bons frutos a’O Cruzeiro; o período da segunda metade dos anos 1940 ao final da década de 1950 é considerado o ápice da revista. Sua redação continuava reunindo a nata da imprensa e da literatura nacionais: além de a partir de 1948 manter a célebre coluna “Os arquivos implacáveis”, de João Condé, cerca de um ano antes Samuel Wainer foi contratado, fazendo algumas das maiores reportagens dos Associados à época. Ademais, oito rotativas para impressão a cores e 12 impressoras novas foram instaladas no parque gráfico d’O Cruzeiro no ano de 1946, dando suporte a uma grande alavancada nas tiragens. Se sua tiragem média era de 200 mil exemplares até então, por volta de 1955 esse número se elevou a 550 mil, em marca que seria mantida até a década de 1960.

Na virada da década de 1940 para 1950, apesar de suas preferências pela candidatura udenista de Eduardo Gomes, Assis Chateaubriand julgou conveniente se posicionar a favor da reeleição de Getúlio Vargas. A cobertura de sua campanha presidencial, feita por Samuel Wainer, acabou sendo uma das séries de reportagens mais célebres da história da revista. As entrevistas feitas por Wainer com Vargas ainda em São Borja, publicadas com estardalhaço, embora compartilhando espaço na revista com artigos de Murilo Marroquim explicitamente contrários ao ex-ditador, foram influentes para que o antigo líder pudesse se eleger. Mas, assim que Vargas ganhou o pleito e se iniciou seu novo mandato, Chateaubriand e os Diários Associados voltaram à franca oposição – muito ajudado por sua própria cadeia, em 1952 o empresário inclusive se elegeu como senador, pelo PSD, representando a Paraíba. Naquele ano O Cruzeiro era, disparado, o periódico com maior número de leitores no Brasil, com vendagens de cerca de 370 mil exemplares por semana, muito graças ao alinhamento entre bons anunciantes e conteúdo jornalístico interessante: em especial, as grandes reportagens feitas por repórteres e fotógrafos espalhados pelo mundo, casos de David Nasser, João Martins, Luciano Carneiro, Pierre Verger, Eugênio Silva, José Medeiros, José Amádio, Indalécio Wanderley, Ubiratan de Lemos, Jorge Ferreira, Nicolau Leite, entre outros.

No plano político, as novas desavenças entre Vargas e Chateaubriand se davam então por conta das propostas nacionalistas do governo, em particular a campanha “O petróleo é nosso”, atacada em todos os Associados, e a criação da Petrobras. Na esfera jornalística, entretanto, o presidente despertara o ódio do empresário ao dar o apoio necessário para que Samuel Wainer criasse seu próprio jornal, o Última Hora, que, além de fazer concorrência com os Associados com sua proposta jornalística popular, que teve grande sucesso, ainda denunciou em suas páginas um escândalo de desvio de dinheiro público pela cadeia de Chateaubriand. A resposta viria em 1952, quando O Cruzeiro acabou gerando uma crise diplomática entre o Brasil e a Argentina, ao publicar a reportagem “Os últimos dias de Eva Perón”, onde se anunciava o câncer que acabaria levando a primeira-dama argentina à morte, em furo de reportagem desaprovado pelo governo argentino, que não queria divulgar a notícia. Como mesmo a imprensa internacional foi superada nesse furo, o episódio não só acabou revelando que a revista tinha como competir com a imprensa estrangeira como, num segundo momento, pela ampliação do investimento aplicado na reportagem, gerou a edição de O Cruzeiro Internacional, dirigido por Wilson Aguiar e Odilo Costa Filho, uma versão do semanário transcrita para o espanhol e adaptada às peculiaridades de cada local por onde circulava: Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru, Bolívia, Venezuela, repúblicas do Caribe e sul dos Estados Unidos.

Dado o clima hostil entre Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas durante o último mandato deste, O Cruzeiro e os outros Associados tiveram papel de destaque na crise política que levou ao atentado à bala contra o líder opositor Carlos Lacerda, em 5 de agosto de 1954, e no próprio suicídio de Vargas, no dia 24 do mesmo mês. Além de ter transcrito declarações dramáticas de Lacerda quando o mesmo convalescia no hospital, o semanário cobriu a perseguição do autor dos disparos, adentrando mesmo o processo instalado pela Aeronáutica para a apuração da morte do major Rubens Vaz na emboscada da Rua Tonelero. A edição de 4 de novembro, que noticiou o suicídio do presidente com um furo de reportagem de Arlindo Silva, que estava no palácio do Catete no instante em que Vargas disparava contra o próprio peito, com direito a imagens exclusivas do presidente em seu leito de morte, bateu o recorde de tiragem da história da revista e das demais publicações do gênero: 720 mil exemplares. Ali, apesar da comoção popular e dos protestos da população contra a oposição a Vargas, noticiados nessa mesma edição, O Cruzeiro procurava isentar o alvo da ira popular de qualquer culpa: “A verdade irá, portanto, prevalecendo, de modo a deixar claro que nem o jornalista Carlos Lacerda, nem o general Zenóbio da Costa, nem a Aeronáutica, nem a UDN mataram o sr. Getúlio Vargas”.

Nas eleições à presidência da República de 1955, os Associados apoiaram discretamente o nome de Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ao final do mandato de JK, em 21 de setembro de 1959, Chateaubriand criou o Condomínio Acionário dos Diários Associados, modelo de gestão então inédito no Brasil, formado por 22 condôminos responsáveis pela perenidade dos órgãos da rede sem, no entanto, firmarem-se como donos – com isso, o empresário garantia a vida do grupo após a sua morte. Para o pleito de 1960 o escolhido para a presidência foi o marechal Henrique Teixeira Lott. Com a vitória de Jânio Quadros, o novo presidente passou a sofrer a oposição da cadeia de Chateaubriand. Isso se deu de tal forma que O Cruzeiro e seus periódicos coligados chegaram a aplaudir a posse de João Goulart à renúncia de Jânio, em agosto de 1961 – um apoio que, todavia, durou pouco. Durante o governo Jango, todos os Associados foram órgãos de oposição.

Independente do que ocorria no plano político, O Cruzeiro não adentrou os anos 1960 da melhor forma: um período de crise se iniciava. De início, logo em 1960 Assis Chateaubriand sofreu um acidente vascular cerebral, tendo, por isso, se afastado das funções administrativas de seus órgãos de comunicação. Em paralelo, o modelo jornalístico que a revista sedimentara simplesmente não conseguia se renovar, ou seja, não surtia efeito algum no público que, aos poucos, passou a compor as audiências televisivas. Aos poucos, após desavenças com novos administradores das empresas de propriedade de Chateaubriand, mais de 15 dos principais nomes de O Cruzeiro abandonaram a revista: Jean Manzon foi trabalhar na Manchete, então sua maior concorrente, que ademais estava em ascensão, e Freddy Chateaubriand decidiu migrar para a imprensa diária da cadeia, deixando o cargo de diretor para David Nasser. Mesmo uma fatalidade veio a contribuir para a queda de qualidade da revista: o cartunista Péricles, em dezembro de 1961, surpreendeu a todos com seu suicídio. Além de não conseguir esboçar reação frente ao advento da TV, uma crise financeira vivida pelos Diários Associados, em conjunto, passou a se manifestar. Desde o fim do governo Kubitschek as empresas não recebiam qualquer verba dos cofres públicos. O Diário da Noite carioca foi fechado e O Cruzeiro, então, passou a economizar, veiculando cada vez mais matérias pagas: a queda na qualidade ocasionou rápido declínio nas vendas – a ponto de a revista deixar de publicar suas tiragens nos expedientes.

Nesse período de crise, no entanto, O Cruzeiro tinha que seguir a cartilha política imposta pelo seu proprietário. David Nasser voltou a revista contra o governo Jango, atacando principalmente o deputado Leonel Brizola, acusando-o de corrupção semanalmente. Mas, quando do golpe militar em 1º de abril de 1964, a revista que antes publicara tantos furos só veio a noticiar o ocorrido em edição extra publicada no dia 10 de abril, com o título “Edição histórica da Revolução”, trazendo na capa uma imagem do governador mineiro Magalhães Pinto, consagrado como “herói”. Em verdade, naquele momento, a decadência d’O Cruzeiro era nítida. Tanto a revista quanto os demais Associados não conseguiam acompanhar o ritmo de seus concorrentes, perdendo paulatinamente a atenção de anunciantes – à época o lançamento da revista mensal Realidade pela Editora Abril, em São Paulo, foi um duro golpe no semanário Associado, ao passo que no Rio o conglomerado de Roberto Marinho despontava como forte rival, tanto no mercado jornalístico quanto pela proximidade com o poder. Nesse sentido, aliás, as relações entre Chateaubriand e o presidente Castelo Branco não ajudavam: o empresário havia idealizado e promovido uma campanha chamada “Dê ouro para o bem do Brasil”, visando sanar os problemas financeiros da nação. Como o valor angariado permanecera sob custódia do governo, em certo momento, Chateaubriand pedira ao presidente que lhe fosse entregue o montante, para que os Associados pudessem realizar uma “obra de interesse nacional”. Castelo Branco acabou recusando o pedido, passando a sofrer certa oposição dos Associados.

A morte de Assis Chateaubriand em 4 de abril de 1968 aprofundou a crise sobre a cadeia. Até então, somente O Cruzeiro, novamente sob a direção de Leão Gondim de Oliveira, acumulava anualmente um prejuízo de 340 milhões de cruzeiros – sua edição internacional já havia sido suspensa, por falta de anunciantes. Por conta da situação, parte do patrimônio dos Associados teve que ser vendida, para tampar o rombo. Deu-se então a venda de uma das empresas mais lucrativas do grupo: o braço brasileiro do laboratório farmacêutico alemão Schering, comprado pela empresa congênere americana. A “torra” do laboratório em face às dívidas, que consumiram na mesma ocasião ainda outras propriedades de Chateaubriand, acabou gerando uma desavença no círculo diretor dos Associados. Em verdade, essa situação havia começado nove anos antes, quando da instituição do Condomínio Associado. Gilberto Chateaubriand, filho do criador da cadeia, que, como seus irmãos, nunca se dera bem com o pai, era contra a venda da Schering, acusando o presidente dos Diários Associados, João Calmon, figura de confiança do antigo dono da cadeia, de tirar proveito da transação.

Com a crise, a redação do Jornal do Commercio, então dirigida por Nélson Dimas Filho, teve que ser realocada para a sede da revista, o prédio de arquitetura moderna projetado por Oscar Niemeyer no nº 189 da Rua do Livramento. Ali, na verdade, tiveram que ser reunidos outros Associados cariocas, como o Diário Mercantil e a Rádio Tupi. Poucos anos depois, em julho 1975, O Cruzeiro, principal periódico dos Associados, teve que ser suspenso. Quando deixou de circular, as demais empresas do grupo passaram a ocupar toda a sua sede. Seu arquivo foi entregue ao estado de Minas Gerais, seu maquinário foi vendido e, para o pagamento de dívidas trabalhistas a um diretor de publicidade, seu próprio título foi cedido.

O Cruzeiro foi relançado em julho de 1977, mas apenas numa espécie de sobrevida, fora da cadeia dos Associados. Seus novos proprietários eram Hélio Bianco e Joaquim José Freire Lagreca. Após circular por cerca de um ano, a revista voltou a ter dificuldades financeiras e seus proprietários a transferiram à Editora Von Baumgarten Indústria e Comércio Ltda. Nessa fase José de Anchieta Távora foi seu diretor, mas não ficou no cargo por muito tempo: o periódico passou logo à firma A. A. Editores Associados Ltda., passando a ter Antônio Abissâmara como presidente. No entanto, já em 1985 O Cruzeiro deixou de ser publicado, definitivamente.

Curiosamente, a principal revista dos tempos áureos dos Diários Associados ganhou certa atenção da imprensa brasileira depois de extinta, mais precisamente em outubro de 1982, com o estouro do chamado “caso Baumgarten”. Conforme relata Muza Clara Chaves Velasquez, em verbete sobre O Cruzeiro publicado no segundo volume do “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”:

No dia 25 daquele mês, foi encontrado o cadáver de Alexandre Von Baumgarten – que havia dedicado seus últimos anos de vida a tentar reerguer a revista. Baumgarten, sua esposa Janete Hansen e o barqueiro Manoel Valente Pires estavam desaparecidos desde o dia 13, quando teriam embarcado na traineira Mirini para uma pescaria. A morte de Baumgarten, noticiada primeiramente como resultado de afogamento e mais tarde apresentada como um assassinato a bala, ganhou notoriedade em fevereiro do ano seguinte, quando a revista Veja publicou um dossiê escrito pelo jornalista em 1981, após a falência de O Cruzeiro, em que relatava seus contatos com o Serviço Nacional de Informações (SNI) desde 1979, quando buscou o apoio do órgão de informação para reerguer a revista. No dossiê, Baumgarten reuniu 21 documentos, em 74 páginas, tentando mostrar que as dificuldades da revista, suas relações com o SNI e as negociações de que participava davam amparo ao temor de ser eliminado pelo órgão ou seus agentes. Citava nominalmente o ministro-chefe do SNI, general Otávio Medeiros, e o chefe da Agência Central do serviço em Brasília, general Newton Cruz, apresentando dúvidas sobre qual dos dois teria decidido a sua eliminação. (p. 1.730)

Fontes:

– CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: história dos Diários Associados. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

– LEAL, Carlos Eduardo. O Jornal. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, vol. 3. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001.

– LEAL, Carlos Eduardo; SANDRONI, Cícero. Jornal do Comércio. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001. Vol. 3.

– MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

– VELASQUEZ, Muza Clara Chaves. O Cruzeiro. In: ABREU, Alzira Alves et al. (Coord.) Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, vol. 2. Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001.

– SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.