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Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica: do século XVI ao XVIII

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TABULA GEOGRAPHICA PERUA, BRASILIAE & AMAZORIUM REGIONIS

O mapa com o título “Carte de la Terre Ferme de Perou, du Bresil e du Pays des Amazones dressée sur les descriptions de Herrera de Laet, et des P.P. D’Acuña et M. Rodriguez et sur plusiers relations et observations posterieures”, é de autoria de Guillaume de L’Isle e foi feito no início do século XVIII. Não se sabe, exatamente, sua data; somente que é uma cópia do original publicado no ano de 1703.

Em toda extensão da margem superior aparece como subtítulo: Tabula Geographica Perua, Brasiliae & Amazorium Regionis.

O mapa representa os atuais territórios do Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Panamá, Costa Rica, Colômbia, Equador, Peru e Paraguai representados em seis grandes regiões delineadas por três cores diferentes rosa, verde e amarelo. Estas regiões estão divididas em Brasil ou Terra de Santa Cruz, País das Amazonas, Terra Firme, Costa Rica, Peru e Paraguai.

Na carta onde o relevo é representado de forma pictórica, podemos destacar o grande número de topônimos indicando rios, ilhas, cidades, vilas e povoações. É importante ressaltar que também constam indicações das missões jesuíticas, que na carta, são mais numerosas no Peru e das tribos indígenas que presentes em toda a carta, aparecem, em certos casos, acompanhadas de legendas.

A parte da carta delineada de verde e denominada Brasil ou terra de Santa Cruz é a área delimitada pelo Tratado de Tordesilhas. De acordo com Isa Adonias, antes mesmo de saberem da existência do Novo Mundo, Portugal e Espanha já o tinham dividido entre si pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494. O Governo português procurou honrar o compromisso quando instituiu o regime das capitanias hereditárias, mas as fronteiras ao norte e a oeste ficaram indefinidas, como conseqüência direta da ignorância geográfica do que havia além da estreita faixa litorânea.

Segundo Ronaldo Vainfas, após o descobrimento do Brasil, em 1500, a coroa portuguesa enviou durante três décadas, várias expedições encarregadas de reconhecer o litoral brasílico. Tais viagens ficaram conhecidas ora como expedições de reconhecimento, ora de exploração e, ainda, como expedições guarda-costas. Na verdade, a maioria dessas expedições fez um pouco de cada coisa: identificação da geografia para fins cartográficos e de navegação, escambo de pau-brasil com os índios, fundação de feitorias e defesa da costa contra a crescente presença dos entrelopos franceses, rivais no escambo do pau-brasil.

Quanto ao País das Amazonas, que no mapa aparece delimitado de rosa, trata-se da vasta região banhada pelo rio Amazonas e seus afluentes. O mito das amazonas remonta ao passado greco-romano, quando poetas e escritores narraram histórias de guerreiras que viviam apartadas dos homens. Na América, as mulheres guerreiras foram identificadas pelos espanhóis durante uma jornada ao “País das Canelas”, entre 1541 e 1542, quando Orellana comandou a primeira viagem que partiu do Peru rumo ao Atlântico. Segundo relato, essas mulheres, brancas, altas e de cabelos longos, trançados e enrolados no alto da cabeça e excepcionalmente hábeis no manejo de arcos, tinham corpos musculosos e andavam nuas, cobrindo a nudez com os arcos e as flechas.

No período colonial, cronistas e viajantes retomaram o tema das amazonas. O grande rio percorrido por Orellana recebeu inicialmente o nome de Marañon. Logo, essa denominação tornou-se rara. Devido a fama das guerreiras, o rio seria, mais tarde, conhecido como Amazonas. No século das luzes, os viajantes narravam a história com muito descrédito. Para além da crítica, elas nunca deixaram de constar nos relatórios de viagens. Mesmo no oitocentos, a Amazônia ainda era concebida como espaço remoto, envolto em mistérios insolúveis.

Quanto aos índios, que estão presentes em toda a carta, Ronaldo Vainfas esclarece que, a palavra índio como designativa dos povos nativos da América, resultou, antes de tudo, do equívoco de Colombo, que julgou ter chegado às Índias e não ao novo continente, em 1492. No Brasil colonial, índio era termo empregado para designar as mais diversas etnias, grupos e culturas nativas. Cabe ressaltar que, os colonizadores inseriram os índios no imaginário cristão, classificando-os não a partir das tradições indígenas, mas do ponto de vista europeu.

No Brasil, desde cedo, os religiosos, sobretudo os jesuítas, destacavam a humanidade dos índios e seu pendor para a cristianização. No entanto, muitas vezes, os próprios jesuítas, duvidavam das possibilidades de catequese diante do canibalismo, da nudez e de certas manifestações que chamaram de feitiçaria. Os colonos, por sua vez, não tinham dúvida em classificar os índios como selvagens e bárbaros.

Nos primeiros séculos de colonização, havia, portanto, uma dicotomia básica. Os missionários, particularmente os jesuítas, defendiam a conversão e a “liberdade” dos índios, enquanto os colonos, necessitados de mão-de-obra, lutavam pelo direito de escravizar os nativos.

Quanto às missões jesuíticas, podemos dizer que no início da colonização do Brasil, a tarefa de conversão dos gentios à fé católica colocava desafios inéditos para os religiosos. Ronaldo Vainfas esclareceu que desconhecendo as sociedades nativas, os europeus tinham a impressão de que os índios viviam “sem Deus, sem lei, sem rei, sem pátria, sem república, sem razão”. O grande mérito dos jesuítas, segundo este historiador, consistiu na percepção da humanidade dos nativos da América. E através dos colégios jesuítas, incentivou-se o desenvolvimento de procedimentos capazes de atingir a sensibilidade dos nativos, aproximando-os da cultura cristã. Esta estratégia assentava-se em três convicções básicas: a de que os índios eram tão capazes dos sacramentos quanto os europeus; a de que os índios eram “livres por natureza” e a de que tinham o caráter de um “papel branco”, em que poderia ser impressa a palavra de Deus. Ao contemporizar com alguns modos indígenas, esperando, como argumenta Serafim Leite, tornar mais factível a pregação do Evangelho, revelavam agudo senso prático e compreensão da distância que separava as culturas tão diferentes.

Vainfas salientou que a Coroa apoiou a organização desses aldeamentos, cuja expressão final foi o Ressurgimento das Missões (1686), que somava à jurisdição espiritual o privilégio de administra-los temporalmente. Essa política converteu-se, de um lado, em motivo de tensão permanente para os colonos, sempre ávidos de mão-de-obra indígena. De outro lado, ao fixar populações seminômades e alterar radicalmente seu modo de vida, os aldeamentos desarticulavam as culturas indígenas, o que foi objeto, de forte crítica historiográfica.


REFERÊNCIAS

ADONIAS, Isa. Mapa: imagens da formação territorial brasileira. Rio de Janeiro: Odebrecht, 1993.
_____________ A Cartografia da Região Amazônica. Catálogo descritivo: 1500-1961. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1963.
LEITE, Serafim S. Breve história da Companhia de Jesus no Brasil, 1549-1760. Braga: Apostolado da Imprensa, 1993.
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

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