BNDigital

Abertura

< Voltar para Exposições virtuais

Abertura

Dois Séculos de Amizade

Sébastien Auguste Sisson criou um desenho para o Brasil Império, com grande interesse e repercussão. Parte integral de nosso imaginário. O Álbum do Rio de Janeiro moderno representa o encontro feliz entre arte e documento e projeção.

Vejam a baía da Guanabara, cujos navios guardam algo de William Turner, isento de fumaça e cromatismo, atravessado de profunda solidão. Sintam o antigo cemitério dos ingleses, tão íntimo das ondas, a desvelar a fome inexcedível dos aterros. Ouçam a igreja do Santíssimo Sacramento, cujas figuras sem rosto, e para sempre inabordável, evocam a técnica de um Kaspar David Friedrich. Pensem nas palmeiras do Jardim Botânico, como se eterna fosse a perspectiva: de ontem e de hoje. Olhem a ilha quase impalpável da Boa Viagem, mais bela e quase indevassável.

Imagens que não sabem descansar, voltadas para o sonho, a partir de uma rede, ou retina, sutil e delicada. Eis como surgem nas páginas machadianas de O velho senado, um dos capítulos fundamentais do memorialismo brasileiro: 

“A propósito de algumas litografias de Sisson, tive há dias uma visão do Senado de 1860. Visões valem o mesmo que a retina em que se operam. Um político, tornando a ver aquele corpo, acharia nele a mesma alma dos seus correligionários extintos, e um historiador colheria elementos para a História. Um simples curioso não descobre mais que o pitoresco do tempo e a expressão das linhas com aquele tom geral que dão as cousas mortas e enterradas.”

Machado de Assis refere-se ao poder visual das litografias de Sisson, entre memória e ressurreição, dos mortos convocados para a vida, de que foi íntimo Brás Cubas. Machado voltava-se aos 90 retratos litografados que vivem na Galeria dos brasileiros ilustres. E o fato de ter inspirado o autor de Quincas Borba, merece nosso reconhecido aplauso. Sisson é uma das lentes valiosas do Brasil imperial, através de cujo desenho e litografia deu rosto ao que hoje, talvez, não passasse de uma frase, de um nome ou parágrafo. Promoveu a conjunção entre a imagem e a palavra, essencialíssima para o recorte biográfico. E usando o mesmo fundo claro-escuro, emprestou às figuras imóveis – congeladas em vida, as que morrido não haviam, tão inquilinas do panteão nacional –, emprestou-lhes. uma dinâmica secreta: a solitária dimensão do herói. Absolutamente solitária sem distinguir vivos e mortos, cujo destino corresponde à vida eterna da memória nacional. Assim diz o autor da Galeria:

Foi e é nossa ideia bosquejar somente, sob o ponto de vista histórico, a vida e o caráter dos homens que se têm ilustrado no belo Império americano; desenhar as principais figuras, que têm deixado vestígios de sua passagem neste país e em sua cena política desde a Independência até os nossos dias; em uma palavra, apresentar os quadros e a história do Brasil neste período, expondo, a par dos retratos, os feitos dos seus varões que mais se têm distinguido. 

Uma filosofia da história atrelada ao singular, ao herói modelar, conjugado no irrepetível, na biografia absoluta, fixada para sempre: da impressão dramática de Monte Alverne ao insólito vigor de Pereira da Silva; do hesitante Marquês de Maricá à cabeça impassível de Pedro II; de Evaristo da Veiga, condenado à juventude, ao tão severo olhar de Gomes de Campos; do vaidoso Marquês de Barbacena à pose tão moderna de Jequitinhonha.

A criação de Sisson não se limita apenas ao recorte alto. Move-se da vagarosa exposição de insígnias de poder à forma ágil e contundente da caricatura. Vejam as páginas do Brasil Ilustrado ou da L’Iride Italiana, ao longo das quais não poupa maestros, políticos, cantores, e desce muito aquém da Galeria, na crítica mordaz à capital do Império.

Assim, portanto, o mesmo autor nos oferece uma dialética relativa de canto e contracanto, de afirmação e negação, embora em diferentes narrativas.

Sisson foi também um amigo da Biblioteca Nacional. Fez doações ao acervo da Instituição, ajudou a conservar certas imagens com máximo desvelo e gratuidade. Os anais da BN registram o restauro da “preciosa coleção araujense, cujos volumes estão em máxima parte encadernados de modo condigno, e de quase todas as estampas expostas, principalmente das batalhas de Alexandre, cujo desenho foi restaurado pelo sr. Sebastião Augusto Sisson, distinto litógrafo francês, mui conhecido entre nós pelos seus trabalhos, o qual com a maior benevolência se constituiu colaborador gratuito da Biblioteca Nacional.”

Tudo isso aparece na curadoria sensível e de Barbara Ferreira, artista de renome, genealogista e pesquisadora, a quem reconhecemos a dedicação e o cuidado dessa marcante exposição.

Marco Lucchesi
Presidente da Biblioteca Nacional