Documento da Semana | A página corrigida de Balzac
por Iuri Lapa
24 abr 2026
No acervo da Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, encontra-se uma folha impressa, toda rabiscada e anotada, que, futuramente, iria compor uma das páginas do panfleto intitulado Monographie de la presse parisienne do escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850). A folha era parte de uma prova tipográfica da obra. Na época, a confecção de livros impressos passava por várias etapas que podemos simplificar da seguinte maneira: o envio do manuscrito para a gráfica; a transposição do manuscrito para a folha impressa, num processo realizado com uso de uma prensa de tipos móveis (letras fundidas em metal e dispostas seguindo o texto recebido); a revisão e correção das folhas que saíam dessa primeira composição, ou seja, as provas; e a devolução das páginas corrigidas para nova composição tipográfica. Por vezes, bastava uma única rodada para se chegar a um bom termo. Mas, dependendo do autor, tal ciclo poderia se repetir várias vezes. Este é o caso do documento em destaque.

Figura 1 - A página corrigida.
Fonte: Balzac, [18--].
Antes de fazer parte do acervo da Biblioteca Nacional, a página corrigida de Balzac pertencia a outro escritor, Stefan Zweig (1881-1942). Se o nome não lhe soa familiar, a tarefa de dimensionar sua importância é um desafio. Nascido numa família judaica na Áustria, Zweig foi um prolífico autor de vários gêneros. Aclamado por seus contemporâneos – por pares, críticos e público –, ele deixou romances, contos, novelas, poesia, teatro, biografias e crítica, muitos de grande influência até hoje. Conviveu com os mais importantes intelectuais europeus de sua época e empreendeu viagens por todo o mundo. Tendo vivenciado com alarme a Primeira Guerra Mundial, tornou-se pacifista e crítico da lógica que empurrava os Estados-nação modernos uns contra os outros. Assistiu à ascensão de Hitler e do nazismo com grande assombro e teve seu nome incluído entre os autores proibidos pelo regime. Um de seus livros foi possivelmente queimado na infame fogueira de 1933. Como consequência da escalada de tensões, vai morar na Inglaterra e se torna cidadão britânico. Depois da tomada de Paris pelo regime nazista em 1940, deixa de vez a Europa e empreende uma viagem pelas Américas, de norte a sul. Decide finalmente se fixar no Brasil em 1941, na cidade de Petrópolis. Encantado pelos lugares e pessoas que conheceu aqui, publicaria Brasil, um país do futuro (1941), ensaio em que exalta nossa formação social.
Estes breves apontamentos biográficos podem ser complementados acessando a exposição virtual da FBN intitulada Stefan Zweig, autor universal, disponível neste link.

Figura 2 - O passaporte britânico de Stefan Zweig, aberto na página de identificação e na sua derradeira anotação ao aportar no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1941.
Fonte: [Passaporte], [1940].
A vida de Stefan Zweig ficou marcada pela maneira como escolheu findá-la. Mesmo refugiado e seguro no Brasil com sua esposa Lotte Altmann (1908-1942), entusiasmado com o país e fisicamente distante dos conflitos, as notícias das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial pesaram sobre o casal. Stefan e Lotte se envenenariam num pacto de morte calculado. A carta de despedida de Zweig, intitulada “Declaração” – assim mesmo em português –, data de 22 de fevereiro de 1942, um dia antes da consumação do suicídio. Na carta, como seu “último dever”, o escritor agradece a hospitalidade brasileira e relata o amor que devota ao país. No entanto, cansado de tantas andanças pelo mundo, desenraizado e impaciente demais para esperar pela “alvorada da longa noite” (ou seja, o fim da guerra), a escolha foi por uma morte sob seus termos (ZWEIG, 1942b). A “Declaração” e um primeiro esboço da mesma estão disponíveis em formato digital aqui.1
Ao que tudo indica, no mesmo mês de fevereiro de 1942, Zweig escreveu uma carta ao então Diretor da Biblioteca Nacional, Rodolfo Garcia, oferecendo a página corrigida de Balzac e explicando o significado que aquela folha lhe tinha. A carta original está em francês. Em tradução livre, seu conteúdo em português pode ser lido assim:
Sr. Diretor da Biblioteca Nacional,
Desejando testemunhar a enorme gratidão que sinto por seu país, permito-me remeter à sua bela biblioteca uma relíquia literária que me era muito cara. Trata-se de uma das célebres provas tipográficas de Honoré de Balzac, corrigida ao menos cinquenta vezes e reescrita de seu próprio punho.
Estas provas tipográficas – outrora o terror dos impressores parisienses que pediam o dobro do salário para “fazer uma hora de Balzac” – são hoje a delícia dos bibliófilos. Em muitos dos livros em que foram estudadas e reproduzidas, fica evidente o esforço infatigável desse grande escritor para chegar à perfeição formal de sua prosa. Sempre fui da opinião que nada pode incitar mais num autor a severidade para si mesmo que o olhar sobre estas folhas; é por isso que carrego estas provas tipográficas em todas as minhas viagens e com frequência elas me lembram do esforço necessário para um autor não se contentar rápido demais.
Apenas porque sei que estas páginas balzaquianas se tornaram hoje em dia muito raras e procuradas pelas grandes bibliotecas é que encontrei a coragem de lhes oferecer as minhas; mas não meça minha grande afeição por seu país por esta pequena oferta! (ZWEIG, 1942a)

Figura 3 - A carta de Stefan Zweig ao Diretor da Biblioteca Nacional.
Fonte: Zweig, 1942a.
A página corrigida de Balzac seria uma espécie de musa de sua escrita, uma musa severa e rigorosa. Ao se desfazer dela, fica evidente que seu papel estava cumprido e não lhe haveria mais utilidade. O tom é de despedida. Descolada de sua trajetória completa, o significado dessa folha toda rabiscada não é plenamente alcançável. Dificilmente outro literato que a tenha consultado na Divisão de Manuscritos da Biblioteca conseguiu extrair dela o mesmo sentido que um dia Zweig lhe dotou. Sua presença está sobreposta e inscrita no papel.
No Relatório anual da Diretoria da Biblioteca Nacional de 1942, publicado nos Anais da BN, o donativo está descrito da seguinte forma: “Entre as doações recebidas merece especial menção o legado feito pelo ilustre e saudoso escritor Stefan Zweig, de uma página de provas tipográficas de Honoré [de] Balzac [...]” (GARCIA, p. 291). Pensar uma doação apenas como um ato de generosidade e desinteresse encobre sua compreensão plena. O ato de presentear é uma forma de se estabelecer vínculos. Existe uma troca na doação: uma das partes dá, a outra recebe e depois retribui. Uma maneira de retribuir é reconhecer o aspecto simbólico da dádiva como legado e alçá-la à posteridade, tal qual a descrição do Relatório. A Biblioteca Nacional é uma instituição dedicada ao porvir.
Alguns bens culturais são carregados de sentido. Recuperar suas trajetórias possibilita decantar camadas de significado. Por vezes, esses objetos permitem estabelecer pontes entre passado e presente, trazendo de volta à memória aqueles que algum dia lhe imprimiram marcas. Sejam elas anotações e correções, ou nódoas de tempos sombrios.
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* Iuri Lapa é Técnico em Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional. O documento deste texto fez parte de sua tese de doutorado defendida no CPDOC da FGV (orientação da Profa. Dra. Luciana Heymann), que trata de coleções e peças doadas para a Biblioteca Nacional e pode ser acessada aqui.
1 As cartas, esboços de obras e a riquíssima coleção de autógrafos manuscritos de Zweig, hoje dispersa por várias instituições, estão reunidos no site Stefan Zweig Digital, acompanhados de textos explicativos e outros recursos: https://stefanzweig.digital/.
Referências
BALZAC, Honoré de. [Prova tipográfica de texto iniciado por: Le gouvernement soutient les revues...]. [s.l.], [18--]. Fundação Biblioteca Nacional. Divisão de Manuscritos. Coleção Abrahão Koogan. Localização: I-7,17,13, n.005. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss24_1942/mss24_1942.pdf.
GARCIA, Rodolfo. A Biblioteca Nacional em 1942. Relatório da Diretoria. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v.64, p.278-307, 1944. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/402630/11166.
[PASSAPORTE de Stefan Zweig]. [Grã-Bretanha], [1940]. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1381849_50/mss1381849.pdf.
ZWEIG, Stefan. [Carta ao diretor da Biblioteca Nacional sobre a obra de Balzac]. Petrópolis, [1942a]. Fundação Biblioteca Nacional. Divisão de Manuscritos. Coleção Abrahão Koogan. Localização: I-7,17,13, n.004. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss_I_07_17_013_n04/mss_I_07_17_013_n04.pdf.
__________ . [Declaração]. Petrópolis, [22 fev. 1942b]. Disponível em: https://stefanzweig.digital/o:szd.thema.5/sdef:TEI/get?locale=en.

Figura 1 - A página corrigida.
Fonte: Balzac, [18--].
Antes de fazer parte do acervo da Biblioteca Nacional, a página corrigida de Balzac pertencia a outro escritor, Stefan Zweig (1881-1942). Se o nome não lhe soa familiar, a tarefa de dimensionar sua importância é um desafio. Nascido numa família judaica na Áustria, Zweig foi um prolífico autor de vários gêneros. Aclamado por seus contemporâneos – por pares, críticos e público –, ele deixou romances, contos, novelas, poesia, teatro, biografias e crítica, muitos de grande influência até hoje. Conviveu com os mais importantes intelectuais europeus de sua época e empreendeu viagens por todo o mundo. Tendo vivenciado com alarme a Primeira Guerra Mundial, tornou-se pacifista e crítico da lógica que empurrava os Estados-nação modernos uns contra os outros. Assistiu à ascensão de Hitler e do nazismo com grande assombro e teve seu nome incluído entre os autores proibidos pelo regime. Um de seus livros foi possivelmente queimado na infame fogueira de 1933. Como consequência da escalada de tensões, vai morar na Inglaterra e se torna cidadão britânico. Depois da tomada de Paris pelo regime nazista em 1940, deixa de vez a Europa e empreende uma viagem pelas Américas, de norte a sul. Decide finalmente se fixar no Brasil em 1941, na cidade de Petrópolis. Encantado pelos lugares e pessoas que conheceu aqui, publicaria Brasil, um país do futuro (1941), ensaio em que exalta nossa formação social.
Estes breves apontamentos biográficos podem ser complementados acessando a exposição virtual da FBN intitulada Stefan Zweig, autor universal, disponível neste link.

Figura 2 - O passaporte britânico de Stefan Zweig, aberto na página de identificação e na sua derradeira anotação ao aportar no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1941.
Fonte: [Passaporte], [1940].
A vida de Stefan Zweig ficou marcada pela maneira como escolheu findá-la. Mesmo refugiado e seguro no Brasil com sua esposa Lotte Altmann (1908-1942), entusiasmado com o país e fisicamente distante dos conflitos, as notícias das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial pesaram sobre o casal. Stefan e Lotte se envenenariam num pacto de morte calculado. A carta de despedida de Zweig, intitulada “Declaração” – assim mesmo em português –, data de 22 de fevereiro de 1942, um dia antes da consumação do suicídio. Na carta, como seu “último dever”, o escritor agradece a hospitalidade brasileira e relata o amor que devota ao país. No entanto, cansado de tantas andanças pelo mundo, desenraizado e impaciente demais para esperar pela “alvorada da longa noite” (ou seja, o fim da guerra), a escolha foi por uma morte sob seus termos (ZWEIG, 1942b). A “Declaração” e um primeiro esboço da mesma estão disponíveis em formato digital aqui.1
Ao que tudo indica, no mesmo mês de fevereiro de 1942, Zweig escreveu uma carta ao então Diretor da Biblioteca Nacional, Rodolfo Garcia, oferecendo a página corrigida de Balzac e explicando o significado que aquela folha lhe tinha. A carta original está em francês. Em tradução livre, seu conteúdo em português pode ser lido assim:
Sr. Diretor da Biblioteca Nacional,
Desejando testemunhar a enorme gratidão que sinto por seu país, permito-me remeter à sua bela biblioteca uma relíquia literária que me era muito cara. Trata-se de uma das célebres provas tipográficas de Honoré de Balzac, corrigida ao menos cinquenta vezes e reescrita de seu próprio punho.
Estas provas tipográficas – outrora o terror dos impressores parisienses que pediam o dobro do salário para “fazer uma hora de Balzac” – são hoje a delícia dos bibliófilos. Em muitos dos livros em que foram estudadas e reproduzidas, fica evidente o esforço infatigável desse grande escritor para chegar à perfeição formal de sua prosa. Sempre fui da opinião que nada pode incitar mais num autor a severidade para si mesmo que o olhar sobre estas folhas; é por isso que carrego estas provas tipográficas em todas as minhas viagens e com frequência elas me lembram do esforço necessário para um autor não se contentar rápido demais.
Apenas porque sei que estas páginas balzaquianas se tornaram hoje em dia muito raras e procuradas pelas grandes bibliotecas é que encontrei a coragem de lhes oferecer as minhas; mas não meça minha grande afeição por seu país por esta pequena oferta! (ZWEIG, 1942a)

Figura 3 - A carta de Stefan Zweig ao Diretor da Biblioteca Nacional.
Fonte: Zweig, 1942a.
A página corrigida de Balzac seria uma espécie de musa de sua escrita, uma musa severa e rigorosa. Ao se desfazer dela, fica evidente que seu papel estava cumprido e não lhe haveria mais utilidade. O tom é de despedida. Descolada de sua trajetória completa, o significado dessa folha toda rabiscada não é plenamente alcançável. Dificilmente outro literato que a tenha consultado na Divisão de Manuscritos da Biblioteca conseguiu extrair dela o mesmo sentido que um dia Zweig lhe dotou. Sua presença está sobreposta e inscrita no papel.
No Relatório anual da Diretoria da Biblioteca Nacional de 1942, publicado nos Anais da BN, o donativo está descrito da seguinte forma: “Entre as doações recebidas merece especial menção o legado feito pelo ilustre e saudoso escritor Stefan Zweig, de uma página de provas tipográficas de Honoré [de] Balzac [...]” (GARCIA, p. 291). Pensar uma doação apenas como um ato de generosidade e desinteresse encobre sua compreensão plena. O ato de presentear é uma forma de se estabelecer vínculos. Existe uma troca na doação: uma das partes dá, a outra recebe e depois retribui. Uma maneira de retribuir é reconhecer o aspecto simbólico da dádiva como legado e alçá-la à posteridade, tal qual a descrição do Relatório. A Biblioteca Nacional é uma instituição dedicada ao porvir.
Alguns bens culturais são carregados de sentido. Recuperar suas trajetórias possibilita decantar camadas de significado. Por vezes, esses objetos permitem estabelecer pontes entre passado e presente, trazendo de volta à memória aqueles que algum dia lhe imprimiram marcas. Sejam elas anotações e correções, ou nódoas de tempos sombrios.
______________________________________________
* Iuri Lapa é Técnico em Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional. O documento deste texto fez parte de sua tese de doutorado defendida no CPDOC da FGV (orientação da Profa. Dra. Luciana Heymann), que trata de coleções e peças doadas para a Biblioteca Nacional e pode ser acessada aqui.
1 As cartas, esboços de obras e a riquíssima coleção de autógrafos manuscritos de Zweig, hoje dispersa por várias instituições, estão reunidos no site Stefan Zweig Digital, acompanhados de textos explicativos e outros recursos: https://stefanzweig.digital/.

Arte ilustrativa utilizada como peça de divulgação nas redes sociais institucionais
Autores/criadores: Wilian Correia e Ana Sanches
Referências
BALZAC, Honoré de. [Prova tipográfica de texto iniciado por: Le gouvernement soutient les revues...]. [s.l.], [18--]. Fundação Biblioteca Nacional. Divisão de Manuscritos. Coleção Abrahão Koogan. Localização: I-7,17,13, n.005. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss24_1942/mss24_1942.pdf.
GARCIA, Rodolfo. A Biblioteca Nacional em 1942. Relatório da Diretoria. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v.64, p.278-307, 1944. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/402630/11166.
[PASSAPORTE de Stefan Zweig]. [Grã-Bretanha], [1940]. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1381849_50/mss1381849.pdf.
ZWEIG, Stefan. [Carta ao diretor da Biblioteca Nacional sobre a obra de Balzac]. Petrópolis, [1942a]. Fundação Biblioteca Nacional. Divisão de Manuscritos. Coleção Abrahão Koogan. Localização: I-7,17,13, n.004. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss_I_07_17_013_n04/mss_I_07_17_013_n04.pdf.
__________ . [Declaração]. Petrópolis, [22 fev. 1942b]. Disponível em: https://stefanzweig.digital/o:szd.thema.5/sdef:TEI/get?locale=en.