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UM APÁTRIDA NO MUNDO-PALAVRA

A voz de um grande escritor não se apaga facilmente. E a de Stefan Zweig conta com uma legião de leitores, sentida e cultivada mundo afora, com extrema participação.

Tempos difíceis, os dele,  assim como os nossos, entre insulados, proscritos, exilados. Tal como Zweig, ao declarar-se, em O mundo de ontem , “austríaco, judeu, escritor, humanista e pacifista.” Cabe, na sua identidade, a biografia de um século. Trágico e breve, como disse Hobsbawm. Metáfora ou confissão, por onde erramos, o autor e seus leitores, na incerta proporção de luz e sombra, no círculo fatal da solidão.

Pouco importa chegar ou partir. Antes, sentir-se em trânsito, nas formas do improvável, nas teias do destino. Se houver.

A literatura é a casa do apátrida, língua salvada, como disse Canetti, forma de abrigo, adesão ao mundo-palavra. Ulisses pode esquadrinhar o mundo inteiro, porque não perdeu a memória da Ilha.

Um novo mapa surge com Stefan Zweig, a partir de Brasil, um país do futuro, e da agenda de contatos do autor, publicada por Alberto Dines. Ou, ainda, com A novela de xadrez.

Dines propõe em Morte no paraíso um romaneio de contradições de nosso autor, explorando as razões de tanto exílio e de sua imaginação incontroversa. Para Dines, Zweig “matou-se para  serenar, fabricou um estrondo. Pretendia sossego, ganhou tormentos. Escreveu sensualmente, morreu seco. Descobriu um paraíso, premiaram-no com o desdém. Sonhava com a segurança, viveu atocaiado. Almejava a renúncia, mas não teve estofo para a marginalização integral.”

Parte essencial dessa história habita a Seção de Manuscritos da BN, com mais de 500 itens, fruto das doações de Abrahão Koogan, Dines e do próprio autor. Preciosa coleção, constelada de cartas, textos originais, em rascunho ou definitivos. Fotos, poemas, papéis da imigração, recibos de aluguel. Toda uma correspondência com seus tradutores e editores, contratos firmados, direitos  autorais, acréscimos e revisões. Memórias de viagem que recortam outro exílio, para além do exílio, novos caminhos, personagens.

Nosso agradecimento à Embaixada da Áustria, no diálogo entre as fontes da Biblioteca Nacional e de outras instituições. Não há fronteiras. Nem pode haver. Sonhamos, como Zweig, desde nossas raízes, com uma cidadania global.

Marco Lucchesi
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional