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História do Livro | A Casa Leuzinger

12 mar 2021

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Pioneiro das artes gráficas no Brasil, o suíço Georg -- ou, como ficou mais conhecido, Georges Leuzinger (1813 – 1892) -- chegou ao país aos 19 anos de idade, para trabalhar numa firma de exportações. Esta faliu em 1840, e no mesmo ano Georges abriu seu próprio negócio, iniciado com a compra da papelaria e encadernadora de um conterrâneo, Jacques Bouvier. Conhecida como Casa Leuzinger, a empresa se expandiria, ao longo das décadas seguintes, até se converter num complexo editorial que incluía tipografia, oficinas de gravura, estamparia e um atelier fotográfico, tudo equipado com o que havia de mais moderno em termos de tecnologia.

Em seu livro “O Velho Comércio do Rio de Janeiro”, publicado em 1908, o jornalista Ernesto Senna descreve Leuzinger como um excelente empreendedor, figura humana interessante e generosa e muito bem adaptado ao Brasil, após um estranhamento inicial. De fato uma empresa como a sua não poderia ter encontrado ambiente mais propício: sede da Corte brasileira e importante polo cultural do país, o Rio de Janeiro oitocentista era o lugar ideal para fazer prosperar uma firma que oferecia não apenas livros, mas também medalhas, diplomas, brasões, cartões de visita, retratos, gravuras e, mais tarde, fotografias.

As primeiras estampas editadas por Leuzinger foram, possivelmente, um conjunto de vistas do Rio de Janeiro, fruto de colaboração entre dois artistas: o tenente da Marinha Warre e o francês Alfred Martinet. As imagens foram impressas em 1845 na Litografia Heaton & Rensburg, no Rio de Janeiro.

Veja uma das estampas, em edição do início do século XX, pertencente à Divisão de Iconografia:

Nos anos 1850, Leuzinger passou a editar estampas executadas a partir de daguerreótipos e não mais de desenhos. Suas gravuras eram vendidas tanto no Brasil como na Europa, e sua loja também oferecia litografias estrangeiras, principalmente da Maison Lemercier, sediada em Paris. O mercado era favorável, com demanda cada vez maior por livros e revistas ilustrados. No entanto, apesar de ter a colaboração de vários artistas, Leuzinger acabou por fechar a oficina de gravura e se dedicar à fotografia, de que criou um atelier em 1865. Dele sairiam trabalhos importantes para a história da fotografia brasileira, tais como a série de imagens da Amazônia feitas pelo alemão Albert Frisch, que viajara ao norte do país na companhia do engenheiro, cartógrafo e desenhista Franz Keller. Este, que se casou com a filha mais velha de Georges Leuzinger e acrescentou ao seu o sobrenome da esposa, é tido como o provável responsável pelo atelier de fotos, no qual teria dado aulas a Marc Ferrez. Além do genro, Leuzinger contava com a ajuda de vários de seus treze filhos para administrar e expandir os negócios; sua empresa, da qual os pesquisadores sempre destacam o caráter familiar, passou a se chamar G. Leuzinger e Filhos a partir de 1873.

Veja uma fotografia publicada pela Casa Leuzinger entre 1865 e 1874, retratando o Alto da Boa Vista.

Além do trabalho iconográfico, que lhe rendeu prêmios, menções honrosas e elogios de artistas como Victor Meireles – bem como do Imperador Pedro II, aficionado por fotografia --, a Casa Leuzinger também publicou periódicos e livros. Entre eles, obras de Taunay, Joaquim Nabuco, Capistrano de Abreu; o Censo Geral do Império, de 1872; o primeiro volume dos Anais da Biblioteca Nacional, de 1876, e o catálogo da Exposição Permanente de Cimélios da Biblioteca Nacional, editado por João Saldanha da Gama (1885).

Leia artigo da bibliotecária Maria Ione Caser da Costa sobre “O Besouro: folha ilustrada humorística e satírica” e veja o periódico, fundado pelo caricaturista português Rafael Bordallo Pinheiro e editado pela Casa Leuzinger em 1878.

Percorra o catálogo de cimélios (ou seja, objetos notáveis) da Biblioteca Nacional.

Em 1881, ano em que publicou o primeiro volume do “Catálogo da Exposição de História do Brasil”, Georges doou à Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional um conjunto de 114 imagens, boa parte das quais está atualmente disponível na BN Digital. Em 1889, a Casa Leuzinger, que estivera em várias mostras e obtivera prêmios internacionais, participou da Exposição Universal de Paris. Georges Leuzinger faleceu em 1892, às vésperas dos 80 anos; a firma continuou em atividade, mas, nas primeiras décadas do século XX, já não tinha qualquer ligação com a família de seu fundador.



Rio de Janeiro e seus arredores. Gravura publicada por Leuzinger sobre desenho de Martinet. Ca. 1850. Div. Iconografia