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Literatura | Bulgakov, endiabrado e ignorado

25 maio 2021

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Diga lá, sem titubear, caro leitor: já leu o romance O mestre e Margarida, que narra a pitoresca visita do diabo à Moscou dos anos 1920? Ou quem sabe outros trabalhos do mesmo autor, como Coração de cão, Guarda Branca ou Anotações de um jovem médico? Caso a resposta tenha sido negativa para ambas as perguntas, e caso tenhamos dificuldade mesmo em imaginar quem tenha escrito as obras citadas, bom, não é de admirar. Seu autor, Михаи́л Афана́сьевич Булга́ков, digo, Mikhail Bulgakov, o injustiçado, completaria redondos 130 anos hoje, nascido a 15 de maio de 1891 em Kiev, atual Ucrânia. Morreu aos 48 anos sem ter visto sua obra prima, O mestre e Margarida, publicada: hoje, é considerada um fantástico e satírico clássico da literatura moderna. Ocorre que seu autor foi vítima de ostracismo por parte do regime soviético: um daqueles intelectuais mais duramente prejudicados quando o stalinismo tomou conta da URSS. Tivesse o rolo compressor da história sido menos duro com o talentoso ucraniano, hoje, talvez, seus dotes literários fossem mais conhecidos – e sua obra, quem sabe, fosse um cadinho mais extensa. Intensa foi, afinal: em estilo mais ou menos realista, escreveu muito sobre a Guerra Civil Russa no pós-1917, e sobre o destino de intelectuais e oficiais do exército imperial russo no contexto do triunfo bolchevique. Pesa, entretanto, o fato de que, em tempos em que a Queda do Muro de Berlim já se deu há 30 anos, a história pessoal de Bulgakov seja mais conhecida do que suas qualidades como escritor, dramaturgo e espírito crítico, muito atuais, diga-se de passagem.

As primeiras incursões de Mikhail Bulgakov pelo mundo das letras foram através do jornalismo. No início da Primeira Guerra Mundial foi voluntário na Cruz Vermelha, obtendo o diploma para exercer a medicina em 1916, pela Universidade de Kiev. Veio então o fim do Império Russo em 1917, com duas revoluções que gerariam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas cinco anos depois. Iniciada a Guerra Civil Russa, ao passo em que seus irmãos tinham ido parar no Exército Branco, o jovem foi alistado no Exército Nacionalista Ucraniano, em 1919, como médico de campanha no conflito instaurado no sempre problemático Cáucaso, em tempos para lá de confusos e turbulentos, dando uma palhinha como correspondente para a imprensa. Bulgakov foi marcado pela violência: no mesmo ano de 1919 decidiu abandonar a medicina para mergulhar de cabeça na literatura e no teatro, se mudando para Moscou dois anos depois: viu surgir, de perto, no ano seguinte, o regime soviético, por aquelas bandas.

A rigor, o discreto Mikhail Bugakov nem apoiava nem rejeitava a causa bolchevique: o problema é que simplesmente não se interessava em colocar sua arte a serviço da propaganda política esperada pelo novo regime. É bem verdade que teve uma vida intelectual profícua ao longo da primeira metade da década de 1920, condizente com um dos mais intensos momentos da história russa. Mas em 1924 Vladimir Ilych Ulianov, mais conhecido como o camarada Lênin, líder máximo da União Soviética, bateu as botas: em seu lugar assumiu o até então Secretário Geral do Partido Comunista da URSS, Josef Stálin. Na guinada autoritária, nada mais foi como antes. Em 1926 o temperamento crítico de Bulgakov começou a lhe render certos incômodos: começou a ser mais firmemente dedurado como antissoviético e nunca mais conseguiu publicar sua literatura de ficção, ao menos em vida. Seus trabalhos preexistentes começaram a ser duramente rebatidos por outros intelectuais, alinhados incondicionalmente com o poder, quando não totalmente censurados. Segundo seus opositores, o autor “glorificava” a emigração e antigos inimigos dos soviéticos, como os generais brancos, além de fazer uma arte “incompreensível” para o povo e, portanto, essencialmente burguesa.

Três ou quatro anos depois de tamanho veredicto, Bulgakov só não estava oficialmente “acabado” porque Stálin gostara de uma de suas peças, “Dni Turbinykh”: “Os dias dos Turbins”, de 1926, adaptação do romance A Guarda Branca, que narra a Guerra Civil Russa do ponto de vista de uma tradicional família de classe média. Foi um dos maiores sucessos da história do teatro russo. O líder bigodudo a assistira, dizem, dezesseis vezes. Ela apresentava favoravelmente a revolução bolchevique, mas chocava os comunistas mais ortodoxos ao mostrar seus antagonistas como pessoas de carne e osso, defeitos e virtudes – ou seja, não era exatamente o tipo de arte que interessava ao regime, apesar da alta bilheteria. Detratores estavam atentos. Tal glória, se não ilusória, era passageira. Desde 1929 toda e qualquer obra de Bulgakov foi banida dos palcos, incluindo o sucesso que havia caído nas graças de Stálin e de meia Moscou. Um tanto quanto desesperado, o dramaturgo chegou a escrever uma carta ao líder máximo, segundo alguns sem reais intenções de envio, um desabafo, onde pedia para emigrar. Pelo sim, pelo não, a carta acabou chegando a seu destino. Provavelmente porque, em dado momento, o escritor chegou a ter seus escritos apreendidos e copiados, depois devolvidos.

No dia 18 de abril de 1930, um telefonema frustrava a sesta que Bulgakov esperava tirar após o almoço, em casa. Era do Kremlin. O camarada Stálin, do outro lado da linha, ao falar que havia recebido e lido a carta, fazia uma pergunta que o deixava boquiaberto, sem encontrar resposta: “Nós o aborrecemos tanto assim?”. Um tanto constrangido, o escritor acabou admitindo que não lhe parecia razoável um artista soviético viver fora de sua terra, afinal. Stálin concordava. E, satisfeito, o oferecia um cargo de diretor assistente no Teatro de Arte de Moscou, que havia encenado “Os dias dos Turbin”, um pedido constante na carta, que Bulgakov aceitou. Mas o terreno era movediço: as críticas e os dedos em riste ainda vinham de todos os lados, sempre apontando para ele. Em consequência, seus novos projetos cênicos nunca eram aprovados, situação mais tipicamente kafkiana do que bulgakoviana – ambas, no fim das contas. Como se não bastasse a paranoia, Bulgakov teve ainda uma curta passagem pelo Teatro Bolshoi, como roteirista, mas se demitiu depois de ver que seus escritos não saíam do papel. Conforme já denunciava na carta ao ditador, o autor vinha sendo massacrado na imprensa soviética por mais de dez anos: que reputação duraria? Quatro dias antes do telefonema de Stálin, bom lembrar, o poeta de vanguarda Vladimir Maiakovski, tanto amigo quanto crítico de Bulgakov, tinha se suicidado: uma bala no peito.

“Os dias dos Turbin” só voltou ao cartaz no Teatro de Arte de Moscou por acaso, obra e graça de uma simples visita de Stálin a suas dependências, em 1932: o líder teria perguntado por que diabos não era mais encenada. Fora isso, no ostracismo de sempre, Mikhail Bulgakov passou a década de 1930 trabalhando, com seu modesto salário do Teatro de Arte, ou no Bolshoi: escrevia contos, críticas e peças, fora as traduções e as adaptações teatrais que fazia. Nada publicado, claro. No meio desse nada estava, quem diria, O mestre e Margarida, romance que tivera a personagem do título inspirada em sua terceira esposa, Yelena Chilovskaya, casada com o intelectual ucraniano em 1932. Escrita em condições adversas, a obra prima do autor, cumpre ressaltar, levou doze anos para ficar pronta. Sua primeira versão, concebida em 1928, foi incinerada pelo autor dois anos depois, depois de saber que outro livro seu, de conteúdo cabalístico, fora proibido de circular. Em 1931, entretanto, a trama foi retomada, e concluída em 1936, mas uma nova versão foi trabalhada no ano seguinte. A quarta e última data de 1940: nesse momento Bulgakov já sentia os efeitos de uma doença hereditária nos rins: cego, recorria à ajuda de Yelena, que datilografava os últimos retoques do romance. Mas, naquele ano, o autor não resistiria mais. Morreu quatro semanas depois de parar de trabalhar no original de O mestre e Margarida. Quem o concluiu, enfim, foi a própria Margarida, ou melhor, Yelena.

Felizmente, O mestre e Margarida não precisou esperar pelo fim da URSS para ser publicado: teve sim que esperar pelo fim do stalinismo, vindo a lume pela revista soviética Moskvá (Moscou), em 1966 e 1967. Mas, que não nos enganemos: era ainda uma versão censurada da obra, com pouco mais de 10% do conteúdo retirado e trechos adulterados. Nada que a boa prática do samizdat não pudesse dar conta: o livro circulou em cópias e distribuição clandestinas, livre, como deveria ser. Uma versão dita original de O mestre e Margarida, editada com base em um documento de 1940, foi publicada em 1973, pela editora Posev, mas em Frankfurt, longe da censura. Ora, para que passasse ao lado de lá da Cortina de Ferro era um já. No mesmo ano, a censura soviética arrefeceu e, pela primeira vez, o romance era publicado sem cortes ou alterações em sua terra natal, na impronunciável revista Khudojestvyennaya Lityeratura (algo como “Literatura de ficção”). Mais de quinze anos depois, a especialista Lidiya Yanovskaya, com base em manuscritos do autor, comporia aquela que seria a versão definitiva da obra, já depois da glasnost de Mikhail Gorbatchov, ao respiro final da União Soviética.

Lírico, filosófico e de estilo primoroso, lido como obra prima tanto do horror macabro quanto do humor negro e da sátira política, O mestre e Margarida é também uma alegoria religiosa, provavelmente uma influência da criação de Bulgakov, filho de um proeminente pensador da Igreja Russa Ortodoxa. Mete o malho não só no status quo soviético, mas também na superficialidade e nas fraquezas humanas, em geral. Embora um tanto maniqueísta ao tratar da eterna luta entre o bem e o mal, o romance aborda ainda outros opostos: racionalidade versus irracionalidade, verdade versus mentira, liberdade de espírito versus subjugação às autoridades. E, afinal, covardia versus valentia, esta supervalorizada, num arroubo um tanto autobiográfico por parte de Bulgakov. Os valores e reflexões da novela, afinal, permanecem atuais, mais do que nunca.

Um fato curioso: o apartamento do falecido autor, onde se passaria parte da narrativa de O mestre e Margarida, virou local de peregrinação e culto lá pelos anos 1980, quando algumas cópias em samizdat começavam a virar obras raras. Ah, a juventude nunca decepciona. Quem era o mestre, afinal? Sabe-se que o livro maior de Bulgakov influenciara tanto Os versos satânicos de Salman Rushdie, de 1988, quanto “Sympathy for the Devil”, sinistro sucesso dos Rolling Stones em 1968. Hoje transformado num museu, o local foi, aliás, vandalizado em 2006, justamente por causa do romance: os novos fanáticos do momento não tinham vínculo estatal, eram os de ordem religiosa, que julgavam O mestre e Margarida uma obra satanista. Ora, bolas. Как жаль, Булга́ков!

Explore os documento:

Em reportagem da revista Manchete, sobre a União Soviética de Gorbatchov, em 1987, dois jovens punks cumprem expediente às portas do antigo apartamento de Bulgakov.


Jovens fazendo peregrinação à casa do escritor nos anos 80.