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Abertura

Por séculos, a Ilha de Bom Jesus acolheu os doentes, os egressos das guerras, os imigrados, os lugares de cura e fé, de asilo e abrigo. Por décadas, retribuímos aterrando suas águas, contaminando o mar que banhava suas margens, fazendo-a o destino dos descartes de nosso voraz consumo. Ações predatórias que impactam de modo cada vez mais irreversível não apenas a Ilha e seus ecossistemas, mas todo este astro que habitamos: as florestas ardem, as águas reagem em dilúvios e desertos, espécies desaparecem. A crença arrogante na excepcionalidade do humano sobre as demais espécies definiu sua maneira de se relacionar com a vida e a matéria do planeta: como propriedade sempre disponível a ser explorada, consumida, destruída.

Mas a Ilha está viva, basta olhar ao redor: flores, peixes, mamíferos, insetos e pássaros por lá zanzam e voam, nutrindo os sistemas vitais. Eles nos alertam à urgência de pensar a comunidade de todos os viventes, nos ensinam a sobrevivência nos campos de morte, a sabedoria das partilhas e dos cuidados.

A exposição “Olhar ao redor” apresenta o resultado de pesquisas realizadas pela Escola de Belas Artes (UFRJ) no projeto Ilha Viva – projeto de sustentabilidade e recuperação da Ilha de Bom Jesus, parceria da L’Oréal com a Universidade Federal do Rio de Janeiro –, em diálogo com o acervo e a dimensão simbólica da Biblioteca Nacional.

Se na constituição de um arquivo, há constante tensão entre preservação e recalque da memória, a exposição optou então por transformar os processos de classificação e arquivamento em um
dispositivo performático e poético, por perceber a Biblioteca não apenas como lugar de memórias revisitadas, mas como reserva da imaginação que se abre às trocas, à conjunção de campos de saber separados na modernidade (ciência, arte e história), à emergência de tempos vários que se encontram, ao despertar de fantasmas mas também de promessas de que algo poderá́ vicejar e recomeçar, em outros possíveis, em outros porvires.

Olhar ao redor se trama, portanto, a partir de cinco “arquivos taxonômicos”, terminologias emprestadas da história e da ciência biológica para recodificar e transformar seus conteúdos. Taxonomia (do grego antigo τάξις, táxis, "arranjo" e νομία, nomia, "método, regra, lei, uso") é a ciência que classifica, descreve e nomeia os seres vivos, ramo da biologia que estuda a biodiversidade do planeta, hoje sob grave ameaça.

A taxonomia das sobrevivências expõe a pesquisa e obras realizadas pela Escola de Belas Artes da UFRJ: são fotografias, vídeos, áudios e acervos digitais que registram, mapeiam e catalogam a
biodiversidade da Ilha e suas histórias, como também as ilustrações em aquarela que evidenciam a diversidade resistente de sua fauna e flora.

A taxonomia dos naturalistas apresenta parte do rico acervo da Biblioteca Nacional dos viajantes naturalistas que aqui estiveram. Se os viajantes dos séculos XVI e XVII, maravilhados com o “novo mundo”, transmitiram em seus desenhos e descrições, um misto de precisão pré-científica e roteiros mágicos, os viajantes a partir dos oitocentos, influenciados pelo iluminismo europeu, sistematizaram em ilustrações da fauna e da flora, de modo considerado científico, suas observações e sensações. Esse acervo histórico estabelece diálogos com as aquarelas produzidas pela Escola de Belas Artes. Ao se valer de métodos e do inventário imagético das antigas taxionomias dos artistas viajantes, as ilustrações atuais da EBA fabulam outras miragens: das sobrevivências e das esperanças.

A taxonomia das ameaças emerge nas obras da artista Cláudia Lyrio, em três pinturas de pássaros de sua série História Natural (série em processo com 10 obras já realizadas e busca alcançar os 80
pássaros de Eckhout, artista holandês integrante da comitiva de Maurício de Nassau, obras hoje que ocupam o teto e as paredes do Castelo de Hoflössnitz na Saxônia). Sob perigo, esses pássaros possuem tons exuberantes em contraste com detalhes em grafite, como se a cada explosão vital, uma presença fantasmática recordasse a ameaça sombria de sua extinção.

Na taxonomia dos descartes, o lixo recolhido da orla da Ilha do Bom Jesus, higienizado, catalogado e analisado, é exibido em vitrines expositivas pelo Projeto Orla Sem Lixo, da DRHIMA - Escola
Politécnica AECO/PEnO – COPPE/UFRJ, realizado também em parceria com a L’Oréal. Na taxionomia dos aromas, experimentamos as fragrâncias desenvolvidas pela L’Óreal no processo de recuperação da Ilha de Bom Jesus, como uma transmutação simbólica de nossos rejeites e descasos.

“Olhar ao redor” busca refletir como habitar coletivamente em uma era de extermínio acelerado das espécies, de iminente catástrofe ambiental. A Ilha que ainda vive nos faz compreender a interdependência das formas de vida e dos mundos, que somos um encontro multiespécies, que as existências estão entrelaçadas, dos fungos que reciclam os solos degradados às estrelas que correm em nossas veias.

Marisa Flórido Cesar
Curadora