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AO ENCONTRO DA COR

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Estampas e temas

Ao contrário dos livros da Laemmert, nos quais as ilustrações são advindas do exterior, as figurinhas do jogo do bicho são uma produção inteiramente nacional. Esse tipo de cromo – distribuído em pequenas figurinhas coloridas – inspiraria aquelas produzidas posteriormente para a marca Eucalol, que se tornariam uma febre para o colecionismo carioca. Na frente das folhas impressas, ainda sem o corte que separaria as figuras, apresentam-se as estampas referentes aos 25 animais do jogo. No verso, impresso em uma cor, veiculava-se a propaganda do anunciante: casas de fumo e manufaturas de cigarros, que pegavam carona na devoção popular ao jogo, como estratégia publicitária para seus produtos. Assim, celebra-se a antiga parceria entre o jogo e o fumo (Figura 3).


Figura 3. O reverso das figurinhas (b, d) ilustra a parceria do jogo do bicho com as casas de fumo e as manufaturas de cigarros. Na imagem do lado esquerdo, anuncia-se a promoção de que quem apresentasse o conjunto completo de figuras teria direito a um jogo completo.


Figura 4. Variações temáticas das ilustrações – algumas infantis (a, b, c, d, f) e outras adultas (e, g).
O conjunto de estampas é heterogêneo (Fig. 4): as imagens ilustram bichos em seu habitat (a), sobre pares de dados (b), provavelmente para a prática do dominó, e junto ao abecedário (c). Aparecem, também, composições mais fantasiosas, nas quais os animais apresentam-se humanizados, com corpos antropomórficos, vestidos com fardas ou peças de figurino: montados a cavalo e tocando instrumentos musicais (d), protagonizando situações fabulescas ou sociais (e) ou em performances circenses (f; g). Fica clara a abrangência iconográfica e como algumas imagens têm apelo mais ingênuo e infantil (a, b, c, d, f).

O jogo, talvez precisamente por ser proibido, invadiu todos os círculos sociais: toda criança no Rio, mal havia aprendido na escola a contar, já sabia que número correspondia a cada bicho e sabia dizer toda a série de bichos melhor do que o alfabeto (ZWEIG, Stefan).
Outras imagens são mais ácidas e picantes, destinadas a um público mais adulto, seja de apelo sensual com mulheres em trajes menores e seios desnudos (g) ou pelo teor satírico de personagens e por fatos correntes, como a briga de galo (e), operando de maneira semelhante aos memes de nossa época, alguns em quadrículas duplas e sequenciais (antes e depois).

As imagens representam animais humanizados e colocados em situações antagônicas – como nas fábulas de Esopo, Fedro e La Fontaine – e remetem a variadas situações do cotidiano carioca e brasileiro: a falta de ética na política, as relações desiguais de poder, as conjunturas econômicas que penalizam os mais pobres, os dramas das relações amorosas, etc. Há, em todas as fábulas em miniatura, referências a fatos e personagens da época, a política especialmente, que, obscuros para nós, deviam ser de uma clareza meridiana em sua época. O que não se perde para o leitor nosso contemporâneo, nem dele se afasta, é o encanto gráfico indiscutível dessas estampas (LOREDANO apud GOMES, 20, p. 110.).




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