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Histórias da Nova Holanda

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Introdução

por Bruno Miranda, Mark Ponte
A vida entre o Recife e Amsterdã

No Arquivo Municipal de Amsterdã podem ser encontrados milhares de documentos relacionados ao Brasil no tempo em que a Companhia das Índias Ocidentais governava aquela região (1630-1654). As declarações dadas aos notários de Amsterdã por soldados, marinheiros, mercadores e suas esposas dão uma imagem da vida efervescente da colônia ali instalada.


Conquista de São Salvador no Brasil pelo Almirante Jacob Willekes, 1624. Claes Jansz Visscher (II), 1624 (coleção do Rijksmuseum)

Pouco tempo depois de sua fundação, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais logo direcionou suas atividades para as áreas açucareiras da região nordeste do Brasil. Em 1624, as forças da Companhia tomaram Salvador, a capital da colônia. Incapazes de segurar o território, os holandeses capitularam e deixaram a cidade. Em 1630, eles repetiriam o assalto ao Brasil, tomando Olinda, capital da Capitania de Pernambuco. Pernambuco e áreas vizinhas constituíam a área de maior produção de açúcar do mundo. Nos anos seguintes, várias capitanias foram caindo nas mãos das forças da Companhia. Esses territórios formariam a base da Nova Holanda, ou do que comumente se chama o Brasil-holandês, que teve por sua capital ‘t Recief, atual cidade do Recife.

O curto período sob domínio dos holandeses foi uma época de diversidade sem precedentes. Moravam no Recife pessoas de religiões, origens étnicas e culturas variadas. A Companhia se ocupava do comércio de escravos em grande escala e milhares de africanos escravizados foram levados para o Recife e de lá destinados para as plantações de cana-de-açúcar. Os holandeses ainda forjaram alianças com os nativos, os chamados "brasileiros" (brasilianen). No Recife também foi organizada a primeira comunidade judaica da América. Como a colônia estave quase permanentemente em guerra, também havia milhares de mercenários: rapazes e jovens adultos de toda a Europa que trouxeram consigo seus próprios idiomas e culturas.

Forte das Cinco Pontas

A Companhia construiu no Recife o Forte Fredrik Hendrik, também chamado de Forte das Cinco Pontas por causa de seu formato pentagonal. Mais tarde, o forte foi demolido pelos portugueses e reconstruído com quatro baluartes, mas continuou a ser chamado de "Forte das Cinco Pontas". Centenas de soldados ficavam estacionados no Forte das Cinco Pontas, muitos dos quais morreram em violentos confrontos ou por doença, a exemplo do alferes Johannes Rinckhout, que morava no forte com sua esposa brabantina Margarita. Em 1646, aconteceu uma tragédia e Johannes morreu duas semanas antes do nascimento de seu filho. O bebê também não viveu muito. Após a queda da colônia, em 1654, Margarita voltou para a Holanda e, em Amsterdã, casou-se com um velho conhecido do Brasil.


O Forte Vijfhoeck no Forte das Cinco Pontas (foto Berg Alves, coleção Andresa Santana).

A Rua dos Judeus

Uma das memórias mais palpáveis e emblemáticas do Brasil-holandês é a antiga sinagoga, redescoberta em 1999 após pesquisa arqueológica. O edifício se encontra na Rua do Bom Jesus, uma rua que no período holandês se chamava Rua dos Judeus. Atualmente abriga um museu. No Brasil viviam muitos dos chamados cristãos-novos, descendentes de judeus portugueses e espanhóis convertidos à força ao cristianismo nos séculos anteriores. Após a ocupação holandesa, judeus de Amsterdã migraram para a nova colônia. Em 1638, dois navios partiram de Amsterdã com cerca de duzentos colonos judeus a bordo. Sob a influência desses imigrantes, muitos cristãos-novos já residentes no Brasil voltaram à sua antiga religião. Juntos eles formaram a primeira comunidade abertamente judaica da América e erigiram a sua sinagoga, a Kahal Zur Israel, na Rua dos Judeus.

Um dos cristãos-novos que se juntou logo no princípio à comunidade judaica foi o rico comerciante Simon Drago. Drago negociava com a República e provavelmente aprovava a conquista holandesa, ainda que tenha não sido particularmente boa para ele. Durante a conquista de Pernambuco, foi espancado e colocado na prisão. Naquele período, sua casa e seu armazém foram saqueados por soldados da Companhia e ele perdeu cerca de 87 pipas de vinho – mais de quarenta mil litros –, que os soldados sem dúvida puderam desfrutar na euforia da vitória.

Após a revolta dos moradores portugueses do Brasil-holandês, em 1645, muitos judeus partiram para Amsterdã temendo o retorno dos portugueses ao poder e, com ela, a Inquisição. Com o fim do domínio holandês dez anos depois, os últimos judeus foram obrigados a partir com os holandeses. Entre eles estava Drago, que se estabeleceu em Amsterdã e lá teve sua história registrada.

Um "príncipe" no Brasil

O mais famoso administrador do Brasil Holandês foi sem dúvida o conde Johan Maurits van Nassau-Siegen — João Maurício de Nassau-Siegen. Maurício de Nassau levou artistas e cientistas para o Brasil. Ele residiu no Palácio de Friburgo, no Recife, enquanto construía a Mauritshuis na Haia. No Palácio de Friburgo, que possuía um enorme jardim botânico e ficava nas imediações do atual Palácio do Campo das Princesas, Frans Post e Albert Eckhout podem ter feito pinturas que definiriam a imagem da colônia holandesa.

Para manter seu jardim, Maurício de Nassau tinha um grande cortejo de serviçais, incluindo africanos e "turcos" escravizados. Estes últimos chegaram com um corsário francês, em 1640, e foram vendidos no Recife. No entanto, uma declaração notarial no Arquivo da Cidade de Amsterdã mostra que Maurício de Nassau nem sempre adquiria seus escravos de acordo com as regras. Em 8 de agosto de 1643, o capitão do navio negreiro Princes declarou que ele teria recebido, por fora dos registros, cinquenta e cinco africanos escravizados que estavam a bordo. Esses africanos não foram entregues ao "depósito de escravos" no Recife, mas foram desembarcados antes da chegada ao porto e levados “à corte” em violação às regras da Companhia.

Não europeus

Nem todos os africanos no Brasil Holandês eram escravos. Havia também soldados e marinheiros negros, como Francisco de Angola. Este angolano exercia função de alferes numa "companhia de negros". Após a queda do Brasil Holandês, Francisco se estabeleceu com sua esposa Sesijelij Krableije em Amsterdã, onde faleceu. Nos documentos se encontra a informação que "Francycks van Angola alferes do Brasil" foi enterrado no domingo, 17 de janeiro de 1659, no cemitério Sint Anthonies. O casal vivia "sob o anjo" na esquina da rua Jodenbreestraat com a travessa Markensteeg. Francisco não era o único "afro-brasileiro" em Amsterdã naquela época. Pieter Claesz Bruin casou-se em 1649, Francisco Cordero em 1661, e Joris Anthonissen em 1663. Todos os três eram marinheiros negros e se casaram com mulheres negras em Amsterdã.

Um papel ainda maior nas tropas da Companhia foi reservado aos indígenas do Brasil. As relações com eles já tinham começado antes da conquista de Pernambuco. Em 1625, um grupo de potiguaras tinha ido aos Países Baixos junto com as tropas que se retiravam da Bahia. Na República, eles foram treinados como intérpretes e informantes. Um deles adoeceu no caminho e recebeu durante trinta dias cuidados no hospital Sint Pietersgasthuis, em Amsterdã. Os potiguaras tiveram até o fim um papel importante na defesa do interior da colônia holandesa.

Motim

A Companhia recrutava a grande maioria de suas tropas na Europa, mas nem todos esses mercenários se mostravam confiáveis. O pagamento insatisfatório e as condições adversas constantemente levavam a motins e deserções. Um desses motins acabou levando à rendição aos portugueses em janeiro de 1654. A revolta começou no Forte Altena e se espalhou para outras fortalezas dos arredores. Ao menos dois dos amotinados, Pauwel Mulder, da Dinamarca, e Jacob Jacobsz, de Maastricht, tinham partido para o Brasil via Amsterdã. Eventualmente, o tumulto se alastrou pelo Recife, forçando a Companhia a se render aos portugueses. Foi o fim de um período dinâmico e turbulento.

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