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EXTRATO DE UM DICIONÁRIO JESUÍTICO DE 1756 EM LÍNGUA GERAL

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Apresentação - Extrato de um Dicionário Jesuítico

por Cândida Barros, Gabriel Prudente, Jean-Claude Muller, Karl Arenz, Ruth Monserrat, Wolf Dietrich
Tapui significa bárbaro; por isso se alguém dá tal nome ao povo daqui, não gostam, embora êles nos dêem o mesmo nome a nós outros que somos brancos, mas não lusitanos: mas acrescentam ao nome a palavra tinga, que significa branco, donde tapuitinga, isto é, bárbaro branco.

 
David Fay, apud Ronai (1942, p. 268)


Tapuitinga era como os índios chamavam aos jesuítas da Europa Central que chegaram entre 1750 e 1753 na Amazônia, segundo relato de um deles, o padre David Fay (Ronai 1942:268). Tudo indica que o dicionário da língua geral anônimo, datado de 1756, do qual transcrevemos a seção A (folios 1-6r), foi escrito por um tapuitinga (ver Monserrat e Arenz). Doravante, o documento será nomeado ora Trier, a cidade onde se conversa o original, ora 1756, a data que consta no documento.

O documento é composto de duas partes: português-lingua geral e língua geral- português. Há outros dois dicionários semelhantes em língua geral, escritos por jesuítas tapuitinga anônimos. Um deles é o Vocabulario da Lingua Brazil (ms. 3143 da Biblioteca da Universidade de Coimbra) e o outro, a Prosódia (cota 569, Série Azul da Academia de Ciências de Lisboa).

Os três dicionários foram escritos na década de 50 do século XVIII. A observação dos verbetes permite identificar o contexto sociolinguístico nos quais eles foram escritos:

  • diversidade linguística presente nas missões da época, devido à heterogeneidade dos novos grupos continuamente nelas introduzidos. O dicionário ocasionalmente registra tal diversidade, nomeando, por exemplo, Coribaré, Xapi entre outros (ver Prudente);

  • distanciamento entre a língua empregada em catecismos e gramáticas antigos e a falada no cotidiano das missões, identificada como “vulgò” (‘vulgarmente’);


No contexto em que foi escrito o dicionário, em 1756, já se fazia sentir uma mudança na direção da política linguística colonial. O governador Mendonça Furtado, irmão do Marques de Pombal, fez saber aos jesuítas Anselm Eckart e Anton Meisterburg – os jesuítas de língua alemã que ele encontrou nas missões do rio Madeira –, que a catequese deveria ser em português (Anônimo. Murr 1785 Apud Papavero e Porro 2013: 311). É, portanto, um documento linguístico que dava continuidade à política linguística jesuítica na região, em um período em que se dava início às diretrizes pombalinas de evangelização em português.

Uma característica do dicionário de Trier é ter duas “camadas” de escritas. Essas diferenças apontam para diferentes momentos do processo de aprendizado da língua geral pelos jesuitas. Uma primeira escrita distribui os verbetes regularmente em duas colunas no fólio, enquanto uma posterior acrescenta glosas e comentários em letras menores e de forma marginal. A primeira escrita copia outras versões de dicionários, repetindo as mesmas glosas na língua geral. A segunda, posteriormente, intervém nos verbetes acrescentando a experiência linguística do(s) autores(s) adquirida nas missões do rio Xingu e Madeira. Identificamos esses aditamentos pelo uso de negrito na transcrição.

O dicionário de 1756 só se tornou publicamente conhecido em 2012. Ele não consta na bibliografia de Serafim Leite, nos tomos III e IV de sua obra “História da Companhia de Jesus no Brasil” (1943). Da mesma forma Plínio Ayrosa (1954), responsável pela divulgação de muitas das fontes missionárias sobre o tupi colonial, não o cita em seu levantamento bibliográfico sobre a língua.

Deve-se a Jean Claude Muller, linguista luxemburguês, a primeira notícia do códice, a publicação da transcrição de um fólio (Muller 2012) e o contato com os demais pesquisadores que fazem parte desta publicação. Na avaliação desse grupo, seria importante divulgá-lo por meio de sua transcrição e análise desde as diferentes disciplinas nas quais atuam (Linguística e História).

Para contextualizar o dicionário, notas dos pesquisadores acompanham a transcrição do documento. Os temas abordados são os seguintes:

a) Os possíveis autores do manuscrito e a conjuntura sociopolítica da Amazônia à época (Karl Arenz);

b) Um inventário de fontes escritas sobre a língua geral, produzidas pelos jesuítas da Europa Central no século XVIII (Cândida Barros);

c) O levantamento e análise de traços de fala estrangeira no português, na língua geral e no latim presentes no dicionário (Ruth Monserrat);

d) A identificação dos grupos indígenas mencionados nos verbetes (Gabriel Prudente);

e) A comparação do dicionário da Biblioteca de Trier com outras fontes lexicográficas tupi para identificar o estado da língua geral no século XVIII (Wolf Dietrich);

Gabriel Prudente é o responsável pela transcrição paleográfica do documento. A supervisão esteve a cargo de Ruth Monserrat, Wolf Dietrich e Cândida Barros. Agradecemos ao Prof. Nelson Papavero (USP), autor de um estudo sobre o dicionário de 1756 (Papavero 2015) a valiosa contribuição em vários momentos das discussões para a edição do documento.

Para o trabalho, tivemos apoio financeiro da Capes, CNPq e MCT/PCI-Museu Goeldi e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Faculdade de História) da UFPA. Somos gratos à Biblioteca Municipal de Trier que nos permitiu ter acesso direto ao manuscrito e que nos forneceu gentilmente uma cópia digital de alta resolução do mesmo. O Museu Emílio Goeldi e a Universidade Federal do Pará são os patrocinadores da iniciativa de estudo do documento.

A equipe de pesquisadores


Referências bibliográficas

ANÔNIMO. s.d. Prosodia. Dicionario da língua falada por índios do Brasil.Lisboa: Academia de Ciências de Lisboa. no. 569

ANÔNIMO. s.d. Vocabulário na Língua Brazil. Biblioteca Nacional de Lisboa, Códice 3143

ANÔNIMO. 1756. Dicionário Português-Língua Geral e Língua Geral–Português. Ms 1136/2048. Biblioteca Municipal de Trier.

AYROSA, Plínio. “Apontamentos para a Bibliografia da Língua tupi-guarani”. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, n. 169, 1954.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomos III e IV. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1943.

MULLER, Jean-Claude. "Die Identifizierung eines Sprachschatzes in der Trierer Stadtbibliothek das jesuitische Wörterbuch Alt-Tupi/Portugiesisch". Kurtrierisches Jahrbuch, v. 52, p. 371-387, 2012.

PAPAVERO, Nelson; Porro, Antônio (orgs.). 2013. Anselm Eckart S. J. e o estado do Grão-Pará e Maranhão setecentista (1785). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi.

PAPAVERO, Nelson. “Nomes de animais em três manuscritos jesuíticos em Língua Geral do século XVIII (Eckart, ma 569 da Academia de Ciências de Lisboa e manuscrito da Universidade de Trier)”. Arquivos de Zoologia, volume 46 (1): 1-39, 2015.

RONAI, Paulo. “As cartas do P. David Fáy e a sua biografia. Contribuição para a história das missões jesuíticas no Brasil no século XVIII”. in: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 1942, vol. LXIV. 1942.193-273. Disponível: http://biblio.wdfiles.com/local--files/ronai-1944-cartas/ronai_1944_cartas.pdf. Acesso: 7 de agosto de 2015.

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