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O BRASIL ENCONTRA O EXTREMO ORIENTE: A MISSÃO CHINESA (1880)

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Ir ao Oriente é a solução?

Como vimos, o problema central no debate sobre a validade de trazer ou não os “Chins” era que os intelectuais brasileiros sabiam muito pouco sobre a China e sua cultura. As informações eram todas de segunda mão. De fato, o imaginário brasileiro era tocado por uma forma própria de Orientalismo – uma alternância entre o fascínio pelo outro (o asiático) e a necessidade de submetê-lo a uma hierarquia excludente de culturas, que privilegiava uma visão eurocêntrica de mundo. No geral, se as pessoas detestavam ou tinham curiosidade pelos chineses, ninguém sabia exatamente por quê: e as ideias que se alinhavam em nossa imaginação eram baseadas em estereótipos e fantasias. Isso ocorria porque o Brasil imperial construíra um orientalismo de matizes nativas, denominado como “Orientalismo crioulo”. A sociedade brasileira acreditava ter sido criada com base no mito da “harmonia das três raças” - portuguesa, africana e indígena - como aparece na literatura romântica, com a poesia indigenista de Gonçalves Dias data, ou na pintura da Batalha dos Guararapes, de Victor Meirelles (1879); por outro lado, a escravidão dos afro-brasileiros, a imposição do catolicismo, com a exclusão de toda diversidade cultural, e os anseios eugenistas revelavam as contradições de nossa sociedade.

Fig. 12 - 'Batalha dos Guararapes', por Victor Meirelles, 1879: Imagens como essa ajudavam a reforçar o mito de que éramos uma nação integradora e diversa no século 19, apesar das contradições latentes na sociedade. Imagem capturada em Wikimedia Commons.
A FBN possui os croquis da pintura realizados pelo próprio Meirelles.
Fonte: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.Imagem original: Acervo do Museu Nacional de Belas Artes.
Veja uma análise sobre essa obra no livro de João Zeferino Paio.

Nossos acadêmicos começaram a se preocupar em entender algo sobre a Ásia, ainda que por vias indiretas. O fascínio pelas civilizações ancestrais, pelo exótico, pelo ‘mistério oriental’ – fosse na arte ou no pensamento – inspiraram os intelectuais, dos quais o exemplo máximo foi o próprio imperador Pedro II, orientalista e classicista renomado. Erudito e poliglota, que dominava o hebraico e sânscrito, ele passava parte do seu tempo fazendo traduções da literatura oriental, como dos contos indianos Hitopadesa (2020). O soberano viajou pelo Oriente Médio, formou uma coleção destacada de antiguidades e produziu um acervo marcante de fotografias, como podemos ver nos trabalhos de Bergonha Berdiaga (1999) e Roberto Khatlab (2015). José Abreu, o Barão de Marajó, também foi ao Egito, comparando o Amazonas ao Nilo – um exemplo peculiar de criação de imagens orientalistas (Abreu, 1874-76). Os intelectuais brasileiros podiam imitar os europeus, mas tinham ideias próprias: e quando a questão chinesa explodiu em 1878-79, vários ensaios sobre os chins já tinham surgido. Enviar uma missão a China não era um projeto estranho aos âmbitos públicos e acadêmicos, mas lidar com os preconceitos que turvavam uma visão mais clara sobre o ‘Oriente’ era um desafio de peso, com o qual o império teria que lidar.



Fig. 13 e 14 - Pedro II, o maior orientalista brasileiro do século 19, em expedição ao Egito. O Imperador traria uma coleção respeitável de antiguidades, que formariam o acervo do Museu Nacional.
Fonte: Coleção 'Thereza Christina Maria', disponível no acervo digital da FBN.

 

»Veja mais: saiba mais sobre o Orientalismo brasileiro no artigo de Maffra & Stallaert.


 

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