França-Brasil: Um Sentimento Atlântico
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La mer toujours recommencée.
Paul Valéry
Quando penso nas relações entre o Brasil e a França, volto às memórias de Joaquim Nabuco, a partir de um laço profundo e afetivo do memorável Minha formação:
“Às vezes me distraio a pensar que povo eu salvaria, podendo, se a humanidade se devesse reduzir a um só. Minha hesitação seria entre a França e a Inglaterra [...] Entre a França e a Inglaterra, porém, fico sempre incerto. O meu dever seria, talvez, socorrer a França. ‘Se madame Récamier e eu estivéssemos a nos afogar, qual de nós duas o senhor salvaria? ’, perguntou uma vez madame de Staël ao seu amigo Talleyrand. ‘Oh! Madame, vous savez nager." A Inglaterra, também, sabe nadar.”No mar ocidental de Joaquim Nabuco, e nas demandas culturais de tantas gerações de brasileiros, a França emerge no plural de suas vozes. No teatro de Artaud e Molière, na poesia de Valéry e Baudelaire, de Claudel e Bonnefoy. Entre a filosofia de Sartre e Descartes, a pintura de Balthus e Monet, a prosa ardente de Rabelais e Perec, o cinema de Remoir e Cocteau,a etnografia de Mauss e Lévi-Strauss, a história de Febvre e Marc Bloch, as composições de Satie e o hip-hop.
Aqui me detenho, incapaz de traduzir a França singular e multiétnica, seu território fluido e poroso, no qual se inscrevem igualmente as potências formidáveis da francofonia.
Mas há também a contraparte: todo o fascínio que o Brasil exerce obre o país de Balzac, desde os tempos da França Antártica e Equinocial. A inspiração das páginas de Claudel e as partituras de Milhaud. a legião de leitores de Clarice, Machado e Guimarães. os fãs de Tom Jobim e Villa-Lobos, Chico, Gil e Caetano, E as vozes afro-brasileiras que nos unem.
Penso em Blaise Cendrars, autor franco-suíço de Etc... etc... (um livro 100% brasileiro), que considerava o Brasil uma segunda pátria espiritual, ou quando buscava descrever a baía da Guanabara, em todas as suas linhas
“scintillantes qui convergent et se nouent comme une torsade de perles lumineuses au cou d’une déité indienne, autour du sombre du majestueux piton du Pain de Sucre.”
Mas como não lembrar, agora por motivos estratégicos e geopolíticos, – o livro interessante de Marco Morel, a partir de documentos esquecidos, rascunhos e projetos suspensos, intitulado: O dia em que Napoleão quis invadir o Brasil. Os planos secretos que poderiam ter mudado a história do novo mundo. O condicional se ilumina o processo histórico, atenuando a ideia de um destino irrevogável.
Seja como for, motivos não faltam para celebrar nossos quinhentos anos de proximidade e convergência cultural.
Tudo isso vive na memória de nosso acervo, nas coleções raras e preciosas da FBN. Eis a razão pela qual nossa instituição aparece nos Atos adotados por ocasião da visita ao Brasil do Presidente da França, Emmanuel Macron - 28 de março de 2024: “iniciativas de cooperação entre a Fundação Biblioteca Nacional do Brasil e a Biblioteca Nacional da França”
As relações entre nossas bibliotecas nacionais refletem e renovam os laços culturais que regem a diplomacia do livro, desde o acordo assinado em 2009, por ocasião do projeto “A França no Brasil”, quando se reuniram, na portal web de nossos respectivos acervos, documentos virtuais de altíssimo relevo.
Hoje, em novembro de 2025, a FBN e a FBNF firmaram um acordo mais profundo e abrangente, centrado nas novas tecnologias, numa agenda, sem precedentes, em conceitos transversais e interativos.
O primeiro fruto do acordo é a presente exposição dos 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a França. Inaugurada no âmbito da Rio Capital Mundial do Livro, esse evento conta com o apoio de instituições representativas, como a Prefeitura do Rio de Janeiro, o Institut Français, a Embaixada da França, o Instituto Guimarães Rosa e o Itamaraty.
A curadoria tripartite revela, na escolha dos objetos, na estrutura semiótica e na moldura expográfica, o diálogo bem-sucedido entre Armelle Enders (Paris 8), Gisele Venâncio (UFF) e Mônica Carneiro Alves (FBN). Importante destacar o sentimento geral dessa reunião de saberes, quando a curadoria se interroga:
“As relações franco-brasileiras são resultado de afinidades especiais forjadas pela história e pela geografia, ou essa suposta especificidade é apenas retórica e clichê? Elas diferem das relações que o Brasil e a França mantêm com outros países ou áreas culturais? Sempre que possível, a exposição buscará ampliar o escopo do confronto face a face e optará por uma perspectiva transnacional, incorporando outros atores ou outras áreas.”Uma série de questões em aberto convidam à reflexão, a um percurso de proximidade e empatia, segundo uma abordagem crítica e lúdica, serena e sensível.
Sete seções, ou capítulos, com ênfase na economia das relações, nos duetos, dinâmicos e descentrados, intensos e extensivos, sob o critério de infinitas adesões. Cruzamento é a palavra de ordem, o leitmotiv, a ideia recorrente, a delicada rede que compõe o imaginário, as trocas simbólicas, as metáforas de um diálogo produtivo.
Agradecemos às equipes da FBN e da FBNF, cujas siglas formam um palíndromo espelhado, entre coincidência e destino.
Possam todos cumprir: na soma dos saberes e da aliança dos povos – o sentimento atlântico de Joaquim Nabuco, de um mar que sempre recomeça.
Marco Lucchesi
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional
Consulte o Catálogo da Exposição.