Vizinhança
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Vizinhança
A grande singularidade da relação entre a República Francesa e o Brasil é a existência de uma fronteira terrestre comum com 730 km de extensão. Uma fronteira muito pequena para o Brasil, mas a mais extensa do território francês, que é mais de dezasseis vezes menor do que a superfície do gigante brasileiro. Esta vizinhança única entre a segunda economia da União Europeia e o maior país da América do Sul, membro fundador do Mercosul, é destacada para enfatizar as afinidades entre os dois países. A região amazônica é hoje, de fato, um desafio geopolítico global. Por muito tempo periférica, ela gradualmente ganhou uma importância que antes estava longe de ter, tanto para Brasília quanto para Paris.
Antes de ser celebrada, essa proximidade foi durante muito tempo conflituosa e chegou mesmo a causar confrontos sangrentos durante o século XIX. Em 1900, a arbitragem do presidente da Confederação Suíça decidiu o litígio, dando razão ao Brasil com base nos argumentos apresentados pelo Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores de 1902 a 1912.
A fronteira franco-brasileira, finalmente fixada no rio Oyapoque, como qualquer limite internacional, distingue duas soberanias, mas é também um local de intercâmbios e circulações. As duas margens do Oyapoque partilham experiências históricas que moldaram a sua sociedade e cultura, como a dominação das populações indígenas, a escravatura, a colonização e todas as suas consequências sociais e ambientais. Elas enfrentam os mesmos desafios imensos: integração regional, melhoria das condições de vida da maioria dos habitantes, respeito ao multiculturalismo, desenvolvimento que não coloque em risco os ecossistemas e a biodiversidade, combate ao narcotráfico e ao garimpo...
Uma fronteira disputada
As disputas territoriais entre portugueses e franceses são muito antigas. Em 1713, o Tratado de Utrecht, que pôs fim à Guerra da Sucessão Espanhola, designou o rio «Japoc ou Vicente Pinzon» como a fronteira entre os dois domínios. O problema é que, para os franceses, esse rio é o Araguary, localizado no atual estado do Amapá, enquanto que para os portugueses, e posteriormente para os brasileiros, trata-se do Oyapock. Na falta de mapas e de conhecimentos precisos sobre essas regiões, muito distantes dos interesses dos dois governos, a região «disputada» é neutralizada a partir de 1840. Na década de 1880, enquanto a França participava muito ativamente da grande expansão imperialista e estendia seu império colonial na África, as reivindicações tornaram-se mais precisas. As tensões degeneram a partir da descoberta de ouro no Contestado em 1893 e do afluxo de milhares de garimpeiros. Em maio de 1895, combates entre militares franceses e brasileiros causam cerca de cinquenta mortes. O «massacre do Amapá», como o episódio ficou conhecido, levou o governo francês e a jovem República Federativa do Brasil a recorrer à arbitragem da Suíça, que colocou o território disputado sob a soberania brasileira e fixou a fronteira no rio Oyapock.
A «República do Counani»
O território disputado não era nem francês nem brasileiro até 1900. A região do rio Cunani foi percorrida pelo explorador Henri Coudreau (1859-1899), que a considerou promissora. Garimpeiros se instalaram ali, escravos fugitivos se refugiaram ali (a escravidão foi abolida em 1848 nas colônias francesas). Em 23 de julho de 1886, a «República Independente da Guiana» ou «República do Cunani» foi proclamada por alguns cidadãos franceses. O microestado dotou-se de uma bandeira, um hino e cunhou moeda. O jornalista Jules Gros (1829-1891) manifestou o seu apoio e foi nomeado «presidente vitalício». Nem a França nem o Brasil reconheceram essa independência. O fim da disputa territorial não impediu que outro aventureiro, Adolphe Brézet, mantivesse a ficção de um «Estado Livre do Cunani» de 1904 até à sua morte em 1911.
“Madame Coudreau em traje de viagem (1898)”
Octavie Coudreau (1867-1938) acompanhou seu marido, Henri Coudreau, em várias explorações na Amazônia, a serviço do governo da Guiana Francesa e das províncias do Pará e Amazonas. Após a morte dele em 1899, perto do Rio Trombetas, ela decidiu continuar na profissão de exploradora.
Antes de ser celebrada, essa proximidade foi durante muito tempo conflituosa e chegou mesmo a causar confrontos sangrentos durante o século XIX. Em 1900, a arbitragem do presidente da Confederação Suíça decidiu o litígio, dando razão ao Brasil com base nos argumentos apresentados pelo Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores de 1902 a 1912.
A fronteira franco-brasileira, finalmente fixada no rio Oyapoque, como qualquer limite internacional, distingue duas soberanias, mas é também um local de intercâmbios e circulações. As duas margens do Oyapoque partilham experiências históricas que moldaram a sua sociedade e cultura, como a dominação das populações indígenas, a escravatura, a colonização e todas as suas consequências sociais e ambientais. Elas enfrentam os mesmos desafios imensos: integração regional, melhoria das condições de vida da maioria dos habitantes, respeito ao multiculturalismo, desenvolvimento que não coloque em risco os ecossistemas e a biodiversidade, combate ao narcotráfico e ao garimpo...
Uma fronteira disputada
As disputas territoriais entre portugueses e franceses são muito antigas. Em 1713, o Tratado de Utrecht, que pôs fim à Guerra da Sucessão Espanhola, designou o rio «Japoc ou Vicente Pinzon» como a fronteira entre os dois domínios. O problema é que, para os franceses, esse rio é o Araguary, localizado no atual estado do Amapá, enquanto que para os portugueses, e posteriormente para os brasileiros, trata-se do Oyapock. Na falta de mapas e de conhecimentos precisos sobre essas regiões, muito distantes dos interesses dos dois governos, a região «disputada» é neutralizada a partir de 1840. Na década de 1880, enquanto a França participava muito ativamente da grande expansão imperialista e estendia seu império colonial na África, as reivindicações tornaram-se mais precisas. As tensões degeneram a partir da descoberta de ouro no Contestado em 1893 e do afluxo de milhares de garimpeiros. Em maio de 1895, combates entre militares franceses e brasileiros causam cerca de cinquenta mortes. O «massacre do Amapá», como o episódio ficou conhecido, levou o governo francês e a jovem República Federativa do Brasil a recorrer à arbitragem da Suíça, que colocou o território disputado sob a soberania brasileira e fixou a fronteira no rio Oyapock.
A «República do Counani»
O território disputado não era nem francês nem brasileiro até 1900. A região do rio Cunani foi percorrida pelo explorador Henri Coudreau (1859-1899), que a considerou promissora. Garimpeiros se instalaram ali, escravos fugitivos se refugiaram ali (a escravidão foi abolida em 1848 nas colônias francesas). Em 23 de julho de 1886, a «República Independente da Guiana» ou «República do Cunani» foi proclamada por alguns cidadãos franceses. O microestado dotou-se de uma bandeira, um hino e cunhou moeda. O jornalista Jules Gros (1829-1891) manifestou o seu apoio e foi nomeado «presidente vitalício». Nem a França nem o Brasil reconheceram essa independência. O fim da disputa territorial não impediu que outro aventureiro, Adolphe Brézet, mantivesse a ficção de um «Estado Livre do Cunani» de 1904 até à sua morte em 1911.
“Madame Coudreau em traje de viagem (1898)”
Octavie Coudreau (1867-1938) acompanhou seu marido, Henri Coudreau, em várias explorações na Amazônia, a serviço do governo da Guiana Francesa e das províncias do Pará e Amazonas. Após a morte dele em 1899, perto do Rio Trombetas, ela decidiu continuar na profissão de exploradora.