Ciência e Tecnologia
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Ciência e Tecnologia
Até a chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, os estrangeiros não tinham permissão para entrar no Brasil. Tudo mudou a partir desta data. A flora, a fauna e os costumes desse país despertaram grande interesse entre os cientistas europeus de todas as nacionalidades. Estes últimos empreenderam expedições e viagens científicas pelo país que duraram vários meses, ou mesmo vários anos, e foram incentivados pelas autoridades brasileiras, desejosas de acumular conhecimentos e desenvolver suas próprias instituições. O botânico Auguste de Saint-Hilaire passou seis anos no Brasil entre 1816 e 1822 e trouxe milhares de espécimes que enriqueceram as coleções do Museu de História Natural de Paris. O trabalho de Saint-Hilaire lhe rendeu um busto no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A maioria das expedições contava com pintores e desenhistas em suas fileiras, a fim de registrar visualmente suas descobertas. Assim, Aimé-Adrien Taunay e Hercule Florence (1804-1879) participaram da expedição ao Mato Grosso e ao Pará (1825-1829) do cônsul da Rússia, Georg Heinrich von Langsdorff. Taunay se afogou no rio Guaporé; Florence, que se estabeleceu definitivamente no Brasil, desenvolveu vários processos inovadores relacionados à fotografia e à impressão.
O governo imperial recorreu voluntariamente a europeus para colaborar no desenvolvimento de suas instituições científicas. O mineralogista francês Claude-Henri Gorceix fundou, em 1875, a Escola de Minas de Ouro Preto, em Minas Gerais. Na mesma época, o médico Louis Couty estudou as propriedades do curare e de várias plantas no Museu Nacional.
Engenheiros e cientistas franceses tornam-se celebridades internacionais. Louis Pasteur, cientista renomado, a quem devemos, entre outras coisas, a “pasteurização” e a vacina contra a raiva, é um dos poucos franceses a quem as ruas prestam homenagem em várias cidades do Brasil, embora ele nunca tenha estado lá.
As visitas e os intercâmbios se multiplicam no século XX. Em 1926, a franco-polonesa Marie Curie, acompanhada por sua filha Irène, veio ao Rio para dar palestras. Ela foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne, a primeira mulher a dirigir um laboratório, a primeira mulher a receber um prêmio Nobel, o prêmio de Física em 1903, juntamente com seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel. Em 1911, ela também recebeu o Prêmio Nobel de Química. Quanto à sua filha Irène, esta recebeu, junto com seu marido Frédéric Joliot, o Prêmio Nobel de Química em 1935.
Diplomacia acadêmica
No início do século XX, acadêmicos, liderados pelo professor de psicologia Georges Dumas, desejavam ampliar a influência da ciência e da cultura francesa na América Latina, principalmente no Brasil. Em 1908, foi fundado, com esse objetivo, o Groupement des universités et Grandes École de France pour l'Amérique latine (Grupo de Universidades e Grandes Escolas da França para a América Latina), que organizava intercâmbios e cursos. Assim, em 1911, o diplomata e historiador Manuel de Oliveira Lima ministrou uma série de cursos de história brasileira nas instalações da Universidade de Paris, na Sorbonne. Seu curso foi publicado sob o título Formação histórica da nacionalidade brasileira. Nessa mesma linha, em 1922, foi fundado conjuntamente em Paris e no Rio de Janeiro o Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, que promovia intercâmbios científicos entre os dois países.
Quando as primeiras universidades são criadas no Brasil em 1934 e 1935, Georges Dumas recruta professores para a Universidade de São Paulo (USP) e para a Universidade do Distrito Federal (UDF). . Foi assim que os historiadores Fernand Braudel, Henri Hauser e Victor-Lucien Tapié, o sociólogo Roger Bastide, os geógrafos Pierre Monbeig e Pierre Deffontaines, o filósofo Claude Lévi-Strauss, para citar apenas alguns, exerceram suas atividades por vários anos nessas jovens instituições.
Após 1945, cada vez mais pesquisadores brasileiros seguiram para a França para estadias mais ou menos longas ou mais ou menos forçadas. O golpe civil e militar de 1964 expulsou do Brasil cientistas notáveis, como o especialista em malária Luiz Hildebrando Pereira da Silva, que trabalhou no CNRS e no Instituto Pasteur, ou a arqueóloga Niède Guidon, que teve de se refugiar na França e voltou com uma missão arqueológica franco-brasileira.
Desde 1979, o Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária e Científica com o Brasil (COFECUB), a CAPES e o CNPq trabalham para promover projetos de pesquisa conjuntos e aproximar equipes dos dois países por meio da mobilidade.
O programa Guatá
Desde 2023, a Embaixada da França no Brasil concede bolsas de estudo a doutorandos indígenas brasileiros para estadias de 6 a 12 meses em instituições de ensino superior francesas. Após uma experiência pioneira na Universidade Paris 8, o programa se consolida e se expande a cada ano.
Os bolsistas “Guatá” (“caminhar” em tupi-guarani) são acolhidos nas universidades Paris 8, Paris-Nanterre, Sorbonne nouvelle, Paris-Est-Créteil, na École des Hautes Études en Sciences Sociales no Collège de France e na Escola de Minas de Saint-Étienne. As universidades brasileiras parceiras em 2025 são Unicamp, UnB, UEA, UFGD, UFPE, UFRR, UFMG, UFPA, Unilab e USP.
Santos-Dumont, ponte entre a França e o Brasil
O nome Alberto Santos-Dumont (1873-1932) é, por si só, um símbolo das relações franco-brasileiras. Neto de um imigrante francês e filho de um engenheiro e cafeicultor, Alberto Santos-Dumont passou sua vida entre o Brasil e a França, onde realizou a maior parte de suas façanhas como pioneiro da aviação. Por volta de 1900, a região parisiense era, de fato, um local dinâmico para as inovações que eram, na época, o automóvel e a aeronáutica. Santos-Dumont interessou-se primeiro pelos “mais leves que o ar” – os balões, que são muito difíceis de dirigir – e depois pelos “mais pesados que o ar”. Em 1901, ele ganhou o Prêmio Deutsch de la Meurthe, ao conseguir contornar a Torre Eiffel com seu dirigível nº 6, decolando do aeródromo de France em Saint-Cloud e retornando em menos de 30 minutos. Em 1902, outro aeronauta brasileiro, Augusto Severo, teve menos sorte e sofreu um acidente fatal em Paris, onde uma rua leva seu nome. Em 1906, a bordo de seu avião 14 bis, Santos-Dumont conseguiu um salto de 220 metros. Após esse voo, breve, mas muito aplaudido, ele continuou suas experiências e desenvolveu uma aeronave leve, “La libellule” (A libélula), mais conhecida como a “Demoiselle” (A donzela). Santos-Dumont torna-se o “queridinho” das socialites parisienses e recebe todo tipo de homenagens. Em 1904, a seu pedido, o relojoeiro Cartier desenvolveu um relógio de pulso, mais prático do que o relógio de bolso, usados nos bolsos do colete, para poder utilizar durante os voos, mas que, até então, era visto como um acessório feminino. Ao colocar um relógio no pulso, Santos-Dumont lança uma moda masculina duradoura.
Em função da admiração dos franceses por Santos Dumont, levou a que o hidroavião que permitiu a inauguração da linha da Compagnie Air France, fundada em 1933 entre a França e a América do Sul tivesse o seu nome.
Ligações França-Brasil
No final da década de 1920, a Companhia Geral da Aéropostale (1927-1931), comumente chamada de Aéropostale, estabeleceu linhas aéreas a partir de Toulouse (sudoeste da França) para transportar correspondência para a África e a América do Sul, com várias escalas. A partir de Natal, no Rio Grande do Norte, os hidroaviões faziam saltos até o Rio de Janeiro e continuavam sua rota para o Uruguai e a Argentina. Os instrumentos de navegação eram precários e os voos eram muito arriscados. Um dos pilotos da companhia era o escritor Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, cuja obra literária tem como pano de fundo essa experiência única. Após a falência da companhia, o serviço foi assumido pela Air France. No entanto, os viajantes continuaram a atravessar o Atlântico em navios até a década de 1960.

Video 1: INTERVIEW - Projet GUATÁ #1 Mairú.

Video 2: INTERVIEW - Projet GUATÁ #2 Autaki.

Video 3: INTERVIEW - Projet GUATÁ #3 Alicia.

Video 4: INTERVIEW - Projet GUATÁ #4 Adriana.
O governo imperial recorreu voluntariamente a europeus para colaborar no desenvolvimento de suas instituições científicas. O mineralogista francês Claude-Henri Gorceix fundou, em 1875, a Escola de Minas de Ouro Preto, em Minas Gerais. Na mesma época, o médico Louis Couty estudou as propriedades do curare e de várias plantas no Museu Nacional.
Engenheiros e cientistas franceses tornam-se celebridades internacionais. Louis Pasteur, cientista renomado, a quem devemos, entre outras coisas, a “pasteurização” e a vacina contra a raiva, é um dos poucos franceses a quem as ruas prestam homenagem em várias cidades do Brasil, embora ele nunca tenha estado lá.
As visitas e os intercâmbios se multiplicam no século XX. Em 1926, a franco-polonesa Marie Curie, acompanhada por sua filha Irène, veio ao Rio para dar palestras. Ela foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne, a primeira mulher a dirigir um laboratório, a primeira mulher a receber um prêmio Nobel, o prêmio de Física em 1903, juntamente com seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel. Em 1911, ela também recebeu o Prêmio Nobel de Química. Quanto à sua filha Irène, esta recebeu, junto com seu marido Frédéric Joliot, o Prêmio Nobel de Química em 1935.
Diplomacia acadêmica
No início do século XX, acadêmicos, liderados pelo professor de psicologia Georges Dumas, desejavam ampliar a influência da ciência e da cultura francesa na América Latina, principalmente no Brasil. Em 1908, foi fundado, com esse objetivo, o Groupement des universités et Grandes École de France pour l'Amérique latine (Grupo de Universidades e Grandes Escolas da França para a América Latina), que organizava intercâmbios e cursos. Assim, em 1911, o diplomata e historiador Manuel de Oliveira Lima ministrou uma série de cursos de história brasileira nas instalações da Universidade de Paris, na Sorbonne. Seu curso foi publicado sob o título Formação histórica da nacionalidade brasileira. Nessa mesma linha, em 1922, foi fundado conjuntamente em Paris e no Rio de Janeiro o Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, que promovia intercâmbios científicos entre os dois países.
Quando as primeiras universidades são criadas no Brasil em 1934 e 1935, Georges Dumas recruta professores para a Universidade de São Paulo (USP) e para a Universidade do Distrito Federal (UDF). . Foi assim que os historiadores Fernand Braudel, Henri Hauser e Victor-Lucien Tapié, o sociólogo Roger Bastide, os geógrafos Pierre Monbeig e Pierre Deffontaines, o filósofo Claude Lévi-Strauss, para citar apenas alguns, exerceram suas atividades por vários anos nessas jovens instituições.
Após 1945, cada vez mais pesquisadores brasileiros seguiram para a França para estadias mais ou menos longas ou mais ou menos forçadas. O golpe civil e militar de 1964 expulsou do Brasil cientistas notáveis, como o especialista em malária Luiz Hildebrando Pereira da Silva, que trabalhou no CNRS e no Instituto Pasteur, ou a arqueóloga Niède Guidon, que teve de se refugiar na França e voltou com uma missão arqueológica franco-brasileira.
Desde 1979, o Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária e Científica com o Brasil (COFECUB), a CAPES e o CNPq trabalham para promover projetos de pesquisa conjuntos e aproximar equipes dos dois países por meio da mobilidade.
O programa Guatá
Desde 2023, a Embaixada da França no Brasil concede bolsas de estudo a doutorandos indígenas brasileiros para estadias de 6 a 12 meses em instituições de ensino superior francesas. Após uma experiência pioneira na Universidade Paris 8, o programa se consolida e se expande a cada ano.
Os bolsistas “Guatá” (“caminhar” em tupi-guarani) são acolhidos nas universidades Paris 8, Paris-Nanterre, Sorbonne nouvelle, Paris-Est-Créteil, na École des Hautes Études en Sciences Sociales no Collège de France e na Escola de Minas de Saint-Étienne. As universidades brasileiras parceiras em 2025 são Unicamp, UnB, UEA, UFGD, UFPE, UFRR, UFMG, UFPA, Unilab e USP.
Santos-Dumont, ponte entre a França e o Brasil
O nome Alberto Santos-Dumont (1873-1932) é, por si só, um símbolo das relações franco-brasileiras. Neto de um imigrante francês e filho de um engenheiro e cafeicultor, Alberto Santos-Dumont passou sua vida entre o Brasil e a França, onde realizou a maior parte de suas façanhas como pioneiro da aviação. Por volta de 1900, a região parisiense era, de fato, um local dinâmico para as inovações que eram, na época, o automóvel e a aeronáutica. Santos-Dumont interessou-se primeiro pelos “mais leves que o ar” – os balões, que são muito difíceis de dirigir – e depois pelos “mais pesados que o ar”. Em 1901, ele ganhou o Prêmio Deutsch de la Meurthe, ao conseguir contornar a Torre Eiffel com seu dirigível nº 6, decolando do aeródromo de France em Saint-Cloud e retornando em menos de 30 minutos. Em 1902, outro aeronauta brasileiro, Augusto Severo, teve menos sorte e sofreu um acidente fatal em Paris, onde uma rua leva seu nome. Em 1906, a bordo de seu avião 14 bis, Santos-Dumont conseguiu um salto de 220 metros. Após esse voo, breve, mas muito aplaudido, ele continuou suas experiências e desenvolveu uma aeronave leve, “La libellule” (A libélula), mais conhecida como a “Demoiselle” (A donzela). Santos-Dumont torna-se o “queridinho” das socialites parisienses e recebe todo tipo de homenagens. Em 1904, a seu pedido, o relojoeiro Cartier desenvolveu um relógio de pulso, mais prático do que o relógio de bolso, usados nos bolsos do colete, para poder utilizar durante os voos, mas que, até então, era visto como um acessório feminino. Ao colocar um relógio no pulso, Santos-Dumont lança uma moda masculina duradoura.
Em função da admiração dos franceses por Santos Dumont, levou a que o hidroavião que permitiu a inauguração da linha da Compagnie Air France, fundada em 1933 entre a França e a América do Sul tivesse o seu nome.
Ligações França-Brasil
No final da década de 1920, a Companhia Geral da Aéropostale (1927-1931), comumente chamada de Aéropostale, estabeleceu linhas aéreas a partir de Toulouse (sudoeste da França) para transportar correspondência para a África e a América do Sul, com várias escalas. A partir de Natal, no Rio Grande do Norte, os hidroaviões faziam saltos até o Rio de Janeiro e continuavam sua rota para o Uruguai e a Argentina. Os instrumentos de navegação eram precários e os voos eram muito arriscados. Um dos pilotos da companhia era o escritor Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, cuja obra literária tem como pano de fundo essa experiência única. Após a falência da companhia, o serviço foi assumido pela Air France. No entanto, os viajantes continuaram a atravessar o Atlântico em navios até a década de 1960.

Video 1: INTERVIEW - Projet GUATÁ #1 Mairú.

Video 2: INTERVIEW - Projet GUATÁ #2 Autaki.

Video 3: INTERVIEW - Projet GUATÁ #3 Alicia.

Video 4: INTERVIEW - Projet GUATÁ #4 Adriana.