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Lutas e Conflitos Políticos

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Lutas e Conflitos Políticos

A construção da democracia representativa e do Estado de Direito não é um processo linear, nem no Brasil nem na França. Nos últimos duzentos anos, os dois países passaram por experiências autoritárias, várias mudanças constitucionais e de regime político, na maioria das vezes violentas, e momentos de forte polarização. A França se destaca por sua instabilidade política. No século XIX, foi o país das revoluções: a de 1789, cuja memória permanece viva em todos os republicanos do mundo, mas também as de 1830 e 1848. Em 1851, a Segunda República sucumbiu ao golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte (Napoleão III). A “Comuna”, uma insurreição parisiense, assumiu proporções de guerra civil em 1871. A França, derrotada em 1940, sofreu quatro anos de ocupação nazista e a ditadura do Estado francês (conhecido como “regime de Vichy”) e, nas décadas de 1950 e 1960, graves crises provocadas pelas guerras coloniais. O Brasil não ficou atrás, seja pelos conflitos internos durante o reinado de Dom Pedro I, pelas diferentes repúblicas, pelo período do Estado Novo ou, mais recentemente, pela ditadura militar.

Essas crises políticas geraram ondas de exílio para a França ou para o Brasil. Do lado francês, os artistas da “missão francesa de 1816” vieram em 1816 para servir à Corte do Rio de Janeiro porque estavam ameaçados por serem bonapartistas. Meio século depois, Victor Frond e Charles Ribeyrolles, dois republicanos, fugiram para o Brasil da repressão de Napoleão III.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor Georges Bernanos apoiou a França Livre a partir do Brasil e a orquestra de sucesso “Ray Ventura et ses collégiens” navegou entre Buenos Aires e Rio de Janeiro para se proteger das perseguições antisemitas. Do lado brasileiro, a lista de proscritos que escolheram a França é longa.

Entre os exilados ilustres, citamos José Bonifácio, na década de 1820, Dom Pedro II, que morreu em Paris em 1891, e a princesa Isabel. O pintor Cícero Dias fugiu do Estado Novo para Paris em 1937 e, durante a Segunda Guerra Mundial, contribuiu para a luta contra o ocupante. Outro brasileiro, Apolônio de Carvalho, combateu heroicamente na Resistência Francesa. Durante a ditadura militar, cerca de 7.000 brasileiros se refugiaram na França. Entre eles, o geógrafo Josué de Castro, o economista Celso Furtado, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso...

 

A abolição da escravidão no Brasil: um debate franco-francês

Após a Revolução de 1848, Victor Schœlcher, membro do governo provisório, é o autor do decreto que aboliu a escravidão nas colônias francesas, em 4 de abril de 1848.

Até o fim de sua vida, Schœlcher militou pela abolição da escravidão e denunciou o Brasil, culpado, em sua opinião, de imobilismo nessa questão e, por essa razão, indigno de fazer parte das nações civilizadas.

Louis Couty, professor de medicina que trabalhava no Rio de Janeiro, tentou convencer Schœlcher da justeza da posição brasileira. Couty se dizia antiescravagista, mas enumerava os argumentos apresentados para manter a instituição no Brasil: a abolição imediata causaria a ruína do país, por falta de mão de obra nas fazendas. Couty elogia a sabedoria do governo brasileiro que, segundo ele, transforma os costumes antes de proceder à emancipação, afirma que o Brasil está isento de preconceitos raciais e que os libertos estão totalmente integrados na sociedade.

 

A “guerra da lagosta”

No início dos anos 1960, um crustáceo foi a causa de tensões muito sérias entre o Brasil do presidente Goulart e a França do general de Gaulle. Barcos de pesca franceses se aventuraram ao largo de Pernambuco e começaram a pescar lagostas em uma zona localizada fora das águas territoriais brasileiras, segundo a França, mas considerada pelo Brasil como uma zona de pesca exclusiva. Em 1962, a Marinha brasileira apreendeu os barcos franceses e os acompanhou de volta ao mar. As mesmas cenas se repetiram no ano seguinte, mas desta vez o governo francês enviou um navio de guerra para a região. A opinião pública brasileira se indignou, a imprensa se agitou. Em março de 1963, os franceses se retiraram da região. A questão acabou sendo resolvida de forma amigável e não atrapalhou a visita de Charles de Gaulle ao Brasil, de 13 a 16 de outubro de 1964, ao final de uma viagem por dez países da América do Sul.