Olhares Cruzados
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Olhares Cruzados
No século XIX e até a Segunda Guerra Mundial, a França gozava de grande prestígio internacional. As ideias, as artes, a língua e o modo de vida franceses exerciam um forte fascínio, não apenas no Brasil, mas em muitos outros países. Paris era a “Cidade Luz”, cujo urbanismo suscitava admiração e atraía, por sua criatividade cultural, visitantes do mundo inteiro. Para alguns, a França é antes de tudo o país da Revolução e dos ideais republicanos, mas também da ousadia e da vanguarda artística. Outros, por outro lado, sentem fascínio pelo requinte e luxo das elites francesas, pela moda e pela gastronomia. Os industriais e comerciantes franceses se apoiam nessa reputação e a reforçam exportando veludos, joias e louças preciosas, vinhos de Bordeaux, champanhe e conhaque. No Brasil, nada era mais “chique” do que um nome francês dado a um sabonete, uma bolsa ou um edifício.
Na França, durante esses dois séculos, o Brasil é visto como um país com futuro. Relatos de viagem, ricamente ilustrados, destacam a grandiosidade da Baía de Guanabara, a exuberante natureza tropical e sua fauna pitoresca aos olhos europeus. Eles também se detêm longamente nas populações indígenas e, sobretudo, na escravidão, tudo o que parece estar nos antípodas da Europa. No século XX, os anúncios publicitários do “café do Brasil” divulgam todo um discurso sobre o país. Logo, é a miscigenação e a chamada “democracia racial” que dominam o olhar francês e que “la samba", o carnaval e as vitórias da Seleção parecem traduzir com brilho. Na década de 1960, com a bossa nova, a inauguração de Brasília e a expansão para a Amazônia, o Brasil se tornou um destino de sonho. O Homem do Rio, uma comédia de aventura realizada em 1964 por Philippe de Broca, com Jean-Paul Belmondo e Françoise Dorléac, molda o imaginário de várias gerações de franceses sobre o Brasil. Mas essas visões positivas têm seu reverso: a fome, a miséria, as favelas, as desigualdades, a violência...
Essas imagens construem cada um dos dois países como o oposto do outro. A França, especialmente Paris, é o lugar da civilização antiga e da sofisticação; o Brasil, o da natureza, da aventura, do hedonismo. Nas novelas, não é raro que o “vilão” deseje fugir para Paris, como uma manifestação suprema de sua rejeição ao Brasil e a prova definitiva de sua maldade. Nos romances ou filmes franceses, a partida para o Brasil também significa uma vontade radical de romper amarras e mudar de vida.
Clichés
Em sua comédia A Estatua amasonica (1851), Manuel de Araújo Porto Alegre critica a arrogância dos cientistas e o imperialismo francês.
Quinze anos mais tarde, La vie parisienne (1866), ópera-bufa de Jacques Offenbach (música) e Henri Meilhac e Ludovic Halévy, impõe a figura do “brasileiro” como personagem de ficção. Esse brasileiro é um rico ingênuo que vem se divertir a Paris e é roubado por um bando de vigaristas. A famosa ária do “brasileiro” é interpretada aqui em 1959 no vídeo por Dario Moreno, um artista turco-mexicano conhecido por suas adaptações em francês de sucessos brasileiros como Madureira chorou (Si tu vas à Rio), de Joel de Almeida (1958) ou Brigitte Bardot, de Jorge Veiga e Miguel Gustavo (1960).
François-Auguste Biard (1798-1882)
Pintor, nascido em Lyon, em 1798, François-Auguste Biard era filho de uma família oriunda dos meios populares. Em 1858, embarcou em direção ao Brasil, quando, após um período de ampla popularidade nos Salões de Paris, sua carreira entrou em um momento de decadência financeira. Ao chegar ao Rio de Janeiro seriam, particularmente, os negros o objeto atento de seu olhar. François Biard elaborou um repertório original de representações dos negros no Brasil, atenuando a violência da escravidão. De forma amena, ele incluiu os escravizados entre os temas que poderiam entreter o público europeu, representação que desagradou os leitores brasileiros.
Pelé et Brigitte Bardot
Pelé, o rei do futebol, e Brigitte Bardot, atriz, mas acima de tudo um símbolo sexual, foram os principais ícones globais das décadas de 1960 e 1970. Sua notoriedade internacional os transformou em embaixadores informais de seus respectivos países. Brigitte Bardot tinha uma ligação especial com o Brasil, especialmente com Búzios, onde se refugiou longe dos paparazzi, gravou “Maria Ninguém” e manifestou várias vezes sua admiração por Pelé. Nos vídeos, é possível vê-la chegando pela primeira vez ao Rio de Janeiro em 1964 e dando o pontapé inicial de uma partida de futebol em 1971 entre o Santos FC e uma seleção francesa.
Na França, durante esses dois séculos, o Brasil é visto como um país com futuro. Relatos de viagem, ricamente ilustrados, destacam a grandiosidade da Baía de Guanabara, a exuberante natureza tropical e sua fauna pitoresca aos olhos europeus. Eles também se detêm longamente nas populações indígenas e, sobretudo, na escravidão, tudo o que parece estar nos antípodas da Europa. No século XX, os anúncios publicitários do “café do Brasil” divulgam todo um discurso sobre o país. Logo, é a miscigenação e a chamada “democracia racial” que dominam o olhar francês e que “la samba", o carnaval e as vitórias da Seleção parecem traduzir com brilho. Na década de 1960, com a bossa nova, a inauguração de Brasília e a expansão para a Amazônia, o Brasil se tornou um destino de sonho. O Homem do Rio, uma comédia de aventura realizada em 1964 por Philippe de Broca, com Jean-Paul Belmondo e Françoise Dorléac, molda o imaginário de várias gerações de franceses sobre o Brasil. Mas essas visões positivas têm seu reverso: a fome, a miséria, as favelas, as desigualdades, a violência...
Essas imagens construem cada um dos dois países como o oposto do outro. A França, especialmente Paris, é o lugar da civilização antiga e da sofisticação; o Brasil, o da natureza, da aventura, do hedonismo. Nas novelas, não é raro que o “vilão” deseje fugir para Paris, como uma manifestação suprema de sua rejeição ao Brasil e a prova definitiva de sua maldade. Nos romances ou filmes franceses, a partida para o Brasil também significa uma vontade radical de romper amarras e mudar de vida.
Clichés
Em sua comédia A Estatua amasonica (1851), Manuel de Araújo Porto Alegre critica a arrogância dos cientistas e o imperialismo francês.
Quinze anos mais tarde, La vie parisienne (1866), ópera-bufa de Jacques Offenbach (música) e Henri Meilhac e Ludovic Halévy, impõe a figura do “brasileiro” como personagem de ficção. Esse brasileiro é um rico ingênuo que vem se divertir a Paris e é roubado por um bando de vigaristas. A famosa ária do “brasileiro” é interpretada aqui em 1959 no vídeo por Dario Moreno, um artista turco-mexicano conhecido por suas adaptações em francês de sucessos brasileiros como Madureira chorou (Si tu vas à Rio), de Joel de Almeida (1958) ou Brigitte Bardot, de Jorge Veiga e Miguel Gustavo (1960).
François-Auguste Biard (1798-1882)
Pintor, nascido em Lyon, em 1798, François-Auguste Biard era filho de uma família oriunda dos meios populares. Em 1858, embarcou em direção ao Brasil, quando, após um período de ampla popularidade nos Salões de Paris, sua carreira entrou em um momento de decadência financeira. Ao chegar ao Rio de Janeiro seriam, particularmente, os negros o objeto atento de seu olhar. François Biard elaborou um repertório original de representações dos negros no Brasil, atenuando a violência da escravidão. De forma amena, ele incluiu os escravizados entre os temas que poderiam entreter o público europeu, representação que desagradou os leitores brasileiros.
Pelé et Brigitte Bardot
Pelé, o rei do futebol, e Brigitte Bardot, atriz, mas acima de tudo um símbolo sexual, foram os principais ícones globais das décadas de 1960 e 1970. Sua notoriedade internacional os transformou em embaixadores informais de seus respectivos países. Brigitte Bardot tinha uma ligação especial com o Brasil, especialmente com Búzios, onde se refugiou longe dos paparazzi, gravou “Maria Ninguém” e manifestou várias vezes sua admiração por Pelé. Nos vídeos, é possível vê-la chegando pela primeira vez ao Rio de Janeiro em 1964 e dando o pontapé inicial de uma partida de futebol em 1971 entre o Santos FC e uma seleção francesa.