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As relações franco-brasileiras são muito anteriores à independência do Brasil. Elas remontam ao século XVI, aos primeiros intercâmbios entre os europeus e o Novo Mundo e aos primórdios da colonização. Os franceses frequentavam as costas, vinham carregar o pau-brasil e partiam para a Normandia, levando consigo, por vezes, alguns habitantes. Uma colônia efêmera foi implantada em uma ilhota da baía de Guanabara em 1555, perto do local onde hoje fica o aeroporto Santos-Dumont. Dessa “França antártica” restam um testemunho e uma obra literária da maior relevância, Histoire d'un Voyage faict en la Terre du Brésil, de Jean de Léry (1534-1613), cuja importância e força evocativa o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) sempre destacou. Segundo ele, Jean de Léry era capaz de dar vida aos "Toüoupinambaoults" (tupinambás) e mergulhar o leitor na Guanabara dos anos 1550. O autor quinhentista está muito presente nas páginas de Tristes trópicos (1955), obra em que Claude Lévi-Strauss, que em 1935 veio lecionar sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo, examina o papel que o Brasil desempenhou em sua formação e em sua obra.

É sob os auspícios dessas duas viagens filosóficas que se inicia este percurso documental por dois séculos de história das relações franco-brasileiras.

Citação:

“Passo pela Avenida Rio Branco, onde outrora se erguiam as aldeias tupinambás, mas tenho no bolso Jean de Léry, breviário do etnólogo” Claude Lévi-Strauss, Tristes tropicos, 1955.

História de uma viagem feita à terra do Brasil:

Entre os muitos tesouros da FBN, encontra-se uma cópia da 3ª edição de História de uma viagem feita à terra do Brasil, de Jean de Léry (1534-1613), publicada em Genebra em 1585. É o relato humanista de uma viagem singular realizada ao Brasil trinta anos antes da primeira publicação da obra.

Em 1555, o almirante de Coligny, chefe do partido protestante na França, encarrega o cavaleiro Nicolas de Villegagnon de fundar uma colônia na baía de Guanabara. Em março de 1557, desembarcam quatorze protestantes, entre eles Jean de Léry, mas as relações destes com os católicos se deterioram. Os huguenotes são expulsos do "Fort Coligny" em outubro, e vários são executados sob ordens de Villegagnon. Os proscritos vivem entre os Tupinambas até que um barco os trouxesse de volta à França em janeiro de 1558. No ano seguinte ao retorno de Léry à França, as "guerras de religião" eclodem, causando massacres e atrocidades durante cerca de quarenta anos. Jean de Léry é uma testemunha afligida e escreve que os europeus são muito mais bárbaros do que os supostos "selvagens". Durante a vida de Jean de Léry, o livro passou por cinco edições (1578, 1580, 1585, 1599-1600, 1611), sinal de seu sucesso. Um historiador, Paul Gaffarel, propôs uma edição anotada (sem as gravuras) em 1880. Esta foi a edição escolhida por Monteiro Lobato e Sérgio Milliet para as traduções no Brasil.