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O Cruzeiro

por Maria Angélica Bouzada
Na tarde de 5 de novembro de 1928, a Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, foi “inundada” por uma chuva de 4 milhões de papéis. Eram folhetos arremessados de um aeroplano, numa ação inédita que anunciava o lançamento de uma nova revista semanal ilustrada: Cruzeiro (o artigo inicial só seria acrescentado depois). A inovação da publicidade se associava ao slogan da revista, apresentada como “a revista contemporânea dos arranha-céus” – um símbolo da modernidade, assim como era moderno o maquinário do seu parque gráfico e a apresentação da revista, impressa em quatro cores e papel de excelente qualidade.

Lançada por Assis Chateaubriand, O Cruzeiro foi uma das mais importantes revistas da história da imprensa brasileira e um dos principais órgãos dos Diários Associados, a primeira rede de comunicação do Brasil, que chegou a possuir 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de televisão. A partir da década de 1940, tornou-se a líder absoluta entre as revistas do país. Circulava em todo o território nacional, criando e ditando padrões e influenciando a opinião pública.

O primeiro número foi publicado em 10 de novembro de 1928, com uma tiragem de 50 mil exemplares que esgotou no primeiro dia. Com o nome inspirado na constelação do Cruzeiro do Sul e no projeto da futura nova moeda do país, representando “luz e opulência”, a revista se apresentava como a revista mais moderna do Brasil:
Depomos nas mãos do leitor a mais moderna revista brasileira. Nossas irmãs mais velhas nasceram por entre as demolições do Rio colonial, através de cujos escombros a civilização traçou a recta da Avenida Rio Branco: uma recta entre o passado e o futuro. Cruzeiro encontra já, ao nascer, o arranha-céo, a radiotelephonia e o correio aéreo: o esboço de um mundo novo no Novo Mundo. (ano 1, n. 1, 10 nov. 1928)

 O comando da revista ficou a cargo de seu idealizador Carlos Malheiro Dias e de uma equipe formada por José Mariano Filho (presidente), Jorge Chateaubriand (diretor gerente) e Frederico Barata (diretor secretário). Em 1933, Antonio Accioly Netto assumiria a direção da redação, cargo que ocupou durante a expansão e auge da revista. O conteúdo estava a cargo de uma ampla equipe de jornalistas, em escritórios em vários estados brasileiros, além de correspondentes internacionais em Lisboa, Roma, Londres, Paris, Berlim e Nova Iorque. Graficamente, a qualidade era garantida pelo equipamento moderníssimo para a época: rotativas de duas unidades, uma rotogravura rotoplana, linotipos diversos e uma bem-equipada oficina de composição.

Em O Cruzeiro colaboraram escritores e artistas renomados como Menotti Del Picchia, Graça Aranha, Viriato Corrêa, Manuel Bandeira, Humberto de Campos, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade,  Raquel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz, Afonso Schimidt, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes e Érico Veríssimo. Foi nas páginas da revista que Millôr Fernandes começou a publicar a coluna Pif-Paf, que posteriormente viraria uma publicação independente e que o cartunista Péricles lançou e popularizou o personagem “O Amigo da Onça”.

O auge da revista foi durante as décadas de 1940 e 1950, com tiragens cada vez maiores, possibilitadas pelas oito rotativas para impressão a cores e 12 impressoras novas instaladas na gráfica O Cruzeiro. De uma média de 200 mil exemplares, a tiragem aumentou para 550 mil, atingindo o ápice em 1954, a partir da edição que noticiava a morte de Getúlio Vargas: 700 mil exemplares. Era a maior revista do país.

O Cruzeiro inaugurou no Brasil a fórmula de duplas repórter-fotógrafo, já consagrada pela Paris-Match. A idéia foi de Jean Manzon, que tinha trabalhado na revista francesa e no jornal Paris Soir. As grandes reportagens viraram a marca da revista e Jean Manzon formava, junto com o repórter David Nasser, a dupla mais famosa.  A partir de O Cruzeiro, o papel da fotografia no jornalismo mudou. Se até então era um registro que ilustrava o texto, passou a ter uma importância narrativa, ocupando um espaço maior dentro das revistas.

Após a fase de maior popularidade, a revista perdeu muito do seu brilho nos anos 1970, por um conjunto de razões que incluem a concorrência com novas revistas mais modernas (como a Manchete) e a dificuldade de renovar seu modelo editorial. O Cruzeiro foi perdendo muitos de seus jornalistas para outros veículos de comunicação e sua importância no mercado. A morte de Assis Chateaubriand, em 1968, foi o golpe final. A revista ainda sobreviveu por alguns anos, sem a mesma qualidade, interrompendo sua publicação em 1975. Ainda chegou a ser relançada, em 1977, com novos donos e fora do grupo dos Diários Associados, encerrando as atividades definitivamente em 1985.

Para saber mais, consulte os artigos sobre O Cruzeiro publicados na BN Digital:  https://bndigital.bn.gov.br/artigos/acervo-da-bn-o-cruzeiro/
https://bndigital.bn.gov.br/artigos/o-cruzeiro/

Período da mostra: fevereiro a abril de 2026


Vitrine da Mostra na Sala Rodolfo Garcia (CPS)

Obras selecionadas:


O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica O Cruzeiro, ano 26, n. 47, 04 set. 1954.
O repórter Arlindo Silva estava no Palácio do Catete quando o presidente Getúlio Vargas se suicidou. Nesta matéria, ele narra os acontecimentos da madrugada e revela que foi ele quem telefonou para chamar o socorro médico. A foto principal é de Mario de Moraes. Com essa edição, O Cruzeiro bateu o recorde de tiragem, com 700 mil exemplares.
http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/93396 e http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/93397


O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica O Cruzeiro, ano 28, n. 1, 22 out. 1955.
“Os pau-de-arara, uma tragédia brasileira” foi a 1ª reportagem a ganhar o prêmio Esso de Jornalismo. O repórter Ubiratan de Lemos e fotógrafo Mario de Moraes fizeram a viagem de ida e volta entre o Rio e o sertão pernambucano em um caminhão  “pau-de-arara” e registraram as dificuldades enfrentadas pela população que fugia da seca do nordeste.
http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/94182 e http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/94183


O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica O Cruzeiro, ano 26, n. 48. 11 set. 1954.
As capas com fotos coloridas eram uma marca da revista. E como eram impressas com antecedência, neste número as reportagens anunciadas na capa não saíram na revista, substituídas pela repercussão da morte de Getúlio Vargas.
http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/93516
 O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica O Cruzeiro, ano 31, n. 6, 22 nov. 1958.
Ao comemorar 30 anos, O Cruzeiro apresentou uma montagem com diversas capas de sua história que permite observar as mudanças gráficas ao longo do tempo.
http://memoria.bn.gov.br/docreader/003581/115067

Créditos da Mostra:
Mostra O Cruzeiro
Data:  fevereiro de 2026 a abril de 2026
Local: Sala Rodolfo Garcia
Realização: Divisão de Atendimento e Curadoria de Publicações Seriadas / CPS / FBN
Curadoria, pesquisa e textos: Maria Angélica P. de O. Bouzada
Coordenação Geral: Carolina de Paula Barbosa
Preparação e montagem técnica: Stéphanie Salgado

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