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Angelo Agostini (1843-1910)

por Maria Isabel R. Lenzi
Italiano da cidade de Vercelli, Angelo Agostini chegou ao Brasil em 1864, depois de formação artística na França. Foi o primeiro caricaturista importante de São Paulo, onde trabalhou nos periódicos ilustrados Diabo Coxo e o Cabrião.

Em 1867, mudou-se para o Rio de Janeiro, então sede do Império, onde colaborou com diversas publicações. Em 1876 fundou a Revista Illustrada, iniciativa de grande sucesso que duraria quinze anos, nela difundindo suas sátiras e caricaturas. Em 1895, o artista criou o periódico Don Quixote onde continuou a publicar seus desenhos satíricos.

Entre as páginas de Don Quixote, Agostini encartava cartazes com litografias descrevendo importantes acontecimentos de então.  Podemos considerá-lo um precursor dos quadrinhos, pois costumava reportar os fatos com desenhos e textos. Lembramos que grande parte da população era analfabeta, deste modo, o desenho do artista fazia com que a narrativa fosse entendida mesmo por aqueles que não sabiam ler.

O Museu Histórico Nacional possui em suas coleções 27 obras de Agostini. Dezoito delas dizem respeito à Guerra do Paraguai - são caricaturas e narrativas em desenhos que saíram na imprensa da época. Algumas vinham encartadas em A Vida Fluminense ou na Semana Illustrada. Ambos os periódicos contavam com a colaboração do artista.

Além dos desenhos retratando episódios da Guerra do Paraguai, o MHN preserva outras nove litografias da lavra de Angelo Agostini. Todas elas contam uma história ao público, que mesmo que não saiba ler, compreende o episódio. Uma dessas obras nos dá notícia de um triste acontecimento na baía da Guanabara ocorrido no final da tarde do dia 6 de janeiro de 1895, em uma embarcação que fazia a travessia Rio-Niterói. A barca Terceira, recém-construída – lançada ao mar na véspera – pegou fogo quando estava chegando na estação São Domingos, em Niterói. Os passageiros pediram ajuda a outra barca – a Primeira – que estava partindo da capital fluminense. Porém, apesar de o capitão querer ajudar a salvar as pessoas da barca que estava em chamas, alguns passageiros o ameaçaram, não deixando que a barca Primeira se aproximasse da Terceira, por medo do fogo e de superlotação. Muitas pessoas se jogaram na água e morreram afogadas. Algumas conseguiram se salvar a nado. Nos dias seguintes, os corpos das vítimas apareceram nas praias de Niterói. A cidade ficou de luto, missas foram rezadas e empreendidas campanhas para ajudar as viúvas e os órfãos dos mortos no incêndio da barca Terceira. A partir desse acidente, a Marinha tornou obrigatória nas embarcações a presença de boias e botes salva-vidas em quantidade suficiente para o socorro dos passageiros.

Angelo Agostini desenhou a barca em chamas, as pessoas acenando para a outra embarcação, algumas se jogando ao mar... Ao alto, o artista retratou algumas vítimas do acidente. Provavelmente se valendo de fotografias para fazer esses retratos.


Incêndio da barca Terceira: no dia 6 de janeiro

Outra litografia que chama nossa atenção saiu como encarte na Revista Don Quixote e narra o atentado contra o presidente Prudente de Moraes acorrido na frente do Arsenal de Guerra. Quem foi atingido foi o Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, comandante da tropa que retornou de Canudos vitoriosa depois de três tentativas frustradas.

O artista narra com detalhes os acontecimentos daquele 5 de novembro de 1897, na cerimônia de recepção aos soldados retornados de Canudos. Reconstitui a cena com detalhes: podemos ver o punhal na mão de Marcelino Bispo de Mello, o presidente Prudente de Morais, o Ministro da Guerra, no momento em que interveio a frente do presidente Prudente de Morais, o verdadeiro alvo do atentado.

A litografia também retrata o sepultamento do Marechal Bittencourt no Cemitério São João Batista com cerca de 30 mil pessoas e, à saída do cemitério, podemos ver a população aclamando o Presidente Prudente de Morais que saiu ileso do episódio. É possível perceber a tensão social daquele momento.


Alegoria alusiva ao Marechal Carlos Machado Bittencourt

Além das cenas, os principais protagonistas do episódio estão retratados com destaque.

Acessando os links abaixo visualize os 27 trabalhos produzidos por Angelo Agostini disponíveis no Atom, base de dados do Arquivo Histórico do MHN.

Coleção Guerra do Paraguai:

Estampas GPe013, GPe014, GPe015, GPe016, GPe018, GPe37 e GPe40

Estampas - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

Recortes GPr030, GPr087, GPr088, GPr089, GPr110, GPr130, GPr141, GPr207, GPr213, GPr228 e GPr250.

Recortes de Periódicos - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

 

Coleção Iconografia Avulsa

25B e 27B: Iconografia Avulsa B - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

100E: Assassinato do Doutor José Maria na Eleição para Prefeito Municipal do Recife - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

34F e 35F: Iconografia Avulsa F - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

13G e 79G: iconografia Avulsa G - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

20H: Attentado contra o Dr. Prudente de Moraes, Presidente da República, e assassinato do Ministro da Guerra - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

 

Coleção Família Imperial

IM78: Saída de S.S.M.M. o Imperador e a Imperatriz do Brasil do porto do Rio de Janeiro no dia 25 de maio de 1871 - Museu Histórico Nacional - Acervo Arquivístico (museus.gov.br)

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Maria Isabel Ribeiro Lenzi é doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

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