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“Tipos de rua” do Rio de Janeiro do século XIX

por Maria Isabel Ribeiro Lenz
No século XIX, tempo da monarquia, era comum pessoas de todos os matizes sociais – que diferiam muito daquilo que era esperado pela sociedade – perambularem pela Corte. Mesmo sendo considerados “loucos” ou excêntricos, esses tipos populares conviviam e interagiam com a população. São inúmeros os exemplos.

O Museu Histórico Nacional preserva em seu acervo alguns registros dessas pessoas. São recortes de 12 caricaturas retratando tipos de rua do Rio de Janeiro que foram doados ao MHN em 1944 por Carlos Torres de Figueiredo. Vamos a alguns deles:

O Polycarpo era músico da Capela Imperial e todos os dias às cinco da tarde tocava serenata com seu amigo Paiva.  Ele com sua rabeca e o Paiva com um violão. Ficavam até meia-noite na rua das Marrecas executando o repertório de apenas duas músicas.

Outro tipo das ruas era conhecido pela alcunha “Não-há-de-casar”. Era o brigadeiro Montenegro, português egresso de Moçambique, que desembarcou no Brasil à procura de moça bonita e rica para casar-se. Ele passeava todo arrumado e quando via na janela de algum sobrado donzela que o agradasse, sorria e exclamava: “Que bela moça para se casar com um general!”. Os moleques da rua, para implicar com o brigadeiro, o seguiam repetindo: “Não há de casar-se!”. Nosso brigadeiro se enfurecia e distribuía pancadas...

O padre Kelé também perambulava pelas ruas do Rio de Janeiro. Seu nome era Claudino e fora aprendiz no sacerdócio. Mas logo suas manias se manifestaram. Andava apressado e suspendia os pés com se andasse na lama, sempre de batina, sapato de fivela, barrete nas mãos. Trazia embaixo dos braços um punhado de jornais que lia quando se cansava de andar. Era carola e não faltava às ladainhas na igreja do Carmo. E como não conseguia pronunciar Kyrie eleison, respondia às rezas “Kelé”, que virou sua alcunha. Os moleques o acompanhavam e gritavam: “Kelé, Kelé”...  O padre Kelé tocava violão e cantava lundus. Quando faleceu em 1875, jornais anunciaram sua morte.


Semana Ilustrada (RJ) - 1860 a 1876 - DocReader Web (bn.gov.br) 1875, edição 756

Outra figura popular que também está retratada nas figurinhas depositadas no Museu Histórico Nacional é a Forte-Lida. Viúva com algumas posses, perambulava pelas ruas puxando uma escrava com corda amarrada no pescoço. Era alta, morena cabelos grisalhos. Vestia saia de cores vivas e blusa de rendas. Penduradas no cinto balançavam uma argola e uma grande chave. Trazia também uma vara de marmelo para se defender dos moleques que implicavam com ela. Sobre seus ombros, usava um xale vermelho, do qual a molecada tirou outro apelido pelo qual era conhecida: Manta de Fogo.

Além da família imperial, as ruas do Rio prestavam reverência a um príncipe africano, o Príncipe Obá. Cândido da Fonseca Galvão se destacou na Guerra do Paraguai e como recompensa recebeu a patente de alferes no exército. No término da guerra, Cândido não voltou para a Bahia, se estabelecendo no Rio de Janeiro e se reconhecendo como o Príncipe D. Obá II da África. Seus vassalos eram os negros minas e quitandeiras da Sé, que o reverenciavam como verdadeiro soberano. O Príncipe Obá tinha uma grande estatura, usava bigode espesso e cavanhaque. Sua voz era vibrante e harmoniosa, seu olhar dominante e altivo. D. Pedro II o respeitava e o recebia no Paço.  Com o advento da República, D. Obá não foi mais recebido no Paço e Deodoro da Fonseca cassou sua patente de alferes. O príncipe negro, segundo Mello Moraes Filho, faleceu de desgosto alguns meses depois de proclamado o novo regime.  O historiador Eduardo Silva escreveu o livro o Dom Obá II d’África, o príncipe do povo, onde podemos conhecer um pouco mais de Cândido da Fonseca Galvão.

Quem passasse pelo Cais, onde hoje é a Praça XV, provavelmente encontraria João Adalberto Mathias, barão de Schindler, conhecido popularmente como o Filósofo do Cais. Descendente da antiga nobreza alemã, lutou ao lado das tropas de Napoleão.  Em 1824, depois de desilusão amorosa, aportou no Rio de Janeiro e partiu com as tropas para o Rio Grande do Sul. Chegou a morar com indígenas no RS, mas quando soube da morte de sua amada na Alemanha, voltou para a Corte na esperança de retornar à terra natal. Vestia uniforme verde e trazia à cabeça um chapéu de couro ou veludo. O Filósofo do Cais era alto, magro e vivia descalço. Pedia esmola em algumas casas, mas só aceitava moedas de cobre, que trocava por bilhetes do tesouro e os trazia sempre consigo. Andava sempre pelo Largo do Paço e em dias de lua cheia escrevia os acontecimentos de sua vida. Dormia embaixo do Arco do Teles ou nos adros da Igreja do Carmo ou São José. Cozinhava no cais e recebia comida das quitandeiras.

Podemos lembrar também de Castro Urso, um tipo vendedor de bilhetes da loteria. Ele chamava a atenção pelo tamanho – era enorme, calçava 47! – e pela feiura. Perambulava pelos cafés vendendo seus bilhetes e filando dos comensais alguma comida, o que ninguém lhe negava. Vendia também entrada para as peças teatrais e tinha acesso gratuito aos teatros para bater palmas, pois o ruído que suas palmas faziam era imenso... Castro Urso era tão popular que no carnaval de 1886 foram vendidas caricaturas com seu rosto.


Jornal do Commercio (RJ) - 1880 a 1889 - DocReader Web (bn.gov.br) 1886, edição 66.

Ainda há outros tipos conhecidos que perambulavam pelas ruas da Corte. Eram pessoas inofensivas que muitas vezes divertiam a população. Mello Moraes Filho, no livro Festas e tradições populares no Brasil, os descreveu com minúcia.


1898 – Artigo sobre livro de Mello Moraes Filho “Festas e Tradições do Brazil”
https://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=364568_08&pasta=ano%20189&pesq=%22castro%20urso%22&pagfis=29589

Link para o livro: Festas e tradições populares do Brazil - Mello Moraes Filho - Google Livros 1901.

Todavia com o advento da República os ventos mudaram.  O combate à “desordem” urbana virou política de Estado e, paralelamente às reformas das cidades, o Estado interferia na vida cotidiana das pessoas como essas das figurinhas que apresentamos acima. Gente cujo comportamento divergia do lugar comum esperado pela sociedade. Os tipos de rua, tão comum no Rio de Janeiro oitocentista, foram retirados do convívio social, confinados em nova instituição que chegou com a modernidade. Entra em cena o hospício.

Texto de Maria Isabel Ribeiro Lenzi (Historiadora do arquivo histórico Museu Histórico Nacional)


Pesquisa Daniella Gomes dos Santos (Arquivista do arquivo histórico Museu Histórico Nacional)


Referências:

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

CUNHA, Maria Clementina Pereira. Cidadelas da Ordem & Outros Escritos. [recurso eletrônico]. Campinas, SP: UNICAMP, 2022.

MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brazil. Rio de Janeiro e Paris: H. Garnier – Livreiro e Editor, 1901.

SILVA, Eduardo. Dom Obá II d’Africa, o príncipe do povo: vida tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

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