O Pasquim
< Voltar para DossiêsPaulo Markun e Manoel Canabarro
O Pasquim São Paulo
Em 1986, o Pasquim já não ditava a moda, mas ainda era uma marca do jornalismo brasileiro. Dezessete anos após ter sido criado por um grupo de jornalistas radicados no Rio de Janeiro — Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, aos quais logo se somaram outras figuras de destaque da imprensa, como Ziraldo, Millôr Fernandes, Miguel Paiva, Fortuna, Ivan Lessa, Paulo Francis, Carlos Prosperi, Claudius, Carlos Magaldi e Murilo Reis —, o semanário que transformou Ipanema na capital, ou no coração do Brasil, com cartuns irreverentes, um time de colaboradores invejável, muito humor, entrevistas inovadoras e um ataque permanente à caretice e à repressão cultural, continuava indo às bancas, sob o comando do último dos moicanos, Jaguar.
Disposto a transformar a marca numa espécie de franquia, ele foi à TV Record, em São Paulo, procurar Paulo Markun, comentarista político e coordenador de jornalismo. Aos 34 anos e jornalista desde os 18, Markun passara por redações de jornais e emissoras de TV e dirigira um jornal em Piracicaba. Ficou entusiasmado com a possibilidade de uma versão paulista do semanário. A ditadura ficara para trás, e o Brasil vivia os primeiros momentos da redemocratização, com José Sarney como presidente e o Plano Cruzado como pano de fundo.
Dante Matiussi, que era o diretor de jornalismo da Record, então sob o comando da família Machado de Carvalho, também se animou com a proposta. Para comandar a equipe, Markun convidou o jornalista Manoel Canabarro, que havia deixado a revista Veja um ano antes e fora um dos editores do jornal alternativo gaúcho Coojornal — os dois são cunhados.
Como colaboradores, o Pasquim São Paulo reuniu um time amplo e diverso: cartunistas como Laerte, Chico e Paulo Caruso, JAL, Cárcamo, Maringoni, Líbero, Gepp e Maia, Basile, Rocha, Osvaldo, Fausto, Carneiro e Orlando; humoristas como Jô Soares, Serginho Leite e Luiz Henrique Romagnoli; jornalistas como Aluízio Falcão, Arapuã, Alberto Dines, Bárbara Gancia, Carlito Maia, Fernando Morais, Carlos Nascimento, Fausto Macedo, Quartim de Moraes e Gabriel Priolli; políticos como Eduardo Suplicy, Alberto Goldman e Zé Dirceu, entre muitas outras personalidades da imprensa, da cultura e da política.
As divergências políticas eram aceitas e faziam parte da fórmula — embora o jornal não abrigasse apoiadores de Paulo Maluf e tivesse no prefeito Jânio Quadros outro alvo frequente.
Nas bancas, a performance foi respeitável: o jornal vendia pouco menos que a revista Veja, que era a mais importante revista semanal (e cujo forte era a venda de assinaturas). Mas, em termos de publicidade, o desafio era enorme: a lógica das agências de propaganda e dos grandes anunciantes era apostar nas publicações de maior circulação e menos alternativas. Desde o nascimento, o Pasquim São Paulo viveu sempre no vermelho, equilibrando-se como podia, vendendo o almoço para comprar o jantar.
Ainda assim, a experiência durou pouco mais de um ano. Graças ao empenho de Canabarro, o fim foi postergado, e a derrocada só não foi maior por conta de alguns eventos — como a festa do primeiro aniversário, um baile com show de Serginho Leite, realizada no extinto e saudoso Bar Avenida — e do apoio de publicitários e anunciantes como a cachaça 51. Magy Imoberdorf comprou a ideia de ter o ratinho Sig promovendo a bebida e a 51ª edição do jornal ao mesmo tempo, além da General Motors e do governo estadual, de Franco Montoro.
Pelo menos um embate entre colunistas foi marcante: Alberto Dines, defendendo a candidatura de Antônio Ermírio de Moraes, e Fernando Morais, a de Quércia, levaram os editores a interromper a sequência de artigos, um mais ácido que o outro.
As entrevistas com a colunista Joyce Pascowitch, então na Folha de S. Paulo, e com Boris Casoy repercutiram tanto que acabaram levando Canabarro, Markun e Matiussi a se juntarem mais adiante na criação da revista Imprensa — que ainda hoje segue circulando, sob o comando de Sinval Itacarambi Leão, o quarto sócio.
Se o Pasquim São Paulo deixou algum legado, foi este.