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A Bohemia: quinzenário illustrado e litterario

por Maria Ione Caser da Costa
A Bohemia: quinzenário illustrado e litterario foi um periódico publicado em São Paulo sob a direção geral de José Piza. A direção artística esteve a cargo de Victor Vergueiro Steidel (1868-1906). Figurava como sendo propriedade de uma “associação anonyma”.

A assinatura valia 24$000 para uma série de 24 números e 12$000 para compra de 12 exemplares. Uma nota ao final do expediente informava que “A Bohemia declara que não tem recebido, bem como não recebe remuneração de especie alguma com referencia ás illustrações que publica”.

O diretor artístico foi fotógrafo e desenhista. A partir de suas fotos, desenhava as vistas urbanas, criando uma série de postais que hoje servem como indicativo para conhecermos a São Paulo do final do século 19 e início do 20. A história do personagem e um olhar sobre seus postais estão no blog Lembranças de São Paulo.

O lançamento de A Bohemia foi provavelmente no mês de maio de 1896, pois a coleção existente na Biblioteca Nacional inicia com o número 3 correspondendo ao mês de junho daquele ano. Uma nota no expediente confirmava a questão da periodicidade: “A Bohemia apparecerá nos dias 1 e 15 de cada mez”. O número 4 também pertence ao mês de junho.

Os números subsequentes deixaram de ser quinzenais, apesar de a publicação continuar com o mesmo subtítulo: quinzenário ilustrado e litterario. O quinto exemplar é publicado no mês de julho e o número 6 em agosto. O sétimo exemplar não vem datado. Tudo indica, todavia, que teria sido publicado em outubro de acordo com as informações encontradas nas páginas da revista: na capa, numa foto homenageando Carlos Gomes, constam as datas de seu nascimento e morte, que se deu em 16 de setembro de 1896, e na página seis lê-se o seguinte texto: “Durante os dous mezes em que A Bohemia, andou escondida na sua tóca, quanta apereta boa e alegre fez as delicias dos habitués do Polytheanos!”.

As tipografias em que os números foram impressos também não foram constantes. O número 3 foi impresso pela Typographia Braune & Filho, que estava situada na rua João Alfredo, 14 A, os números 7 e 8 foram na Typographia a Vapor Carlos Gerke e Cia, localizada na rua Formosa, 29.

Cada exemplar de A Bohemia possui oito páginas, sendo que sua numeração é sequencial. Todos apresentam ilustrações ocupando as duas páginas centrais.

Todas as capas mantêm o mesmo padrão. O título aparecem em letras cursivas, negritadas e com um arabesco unindo as duas primeiras letras. Um traço forte sublinha o título, encimado pelo nome do diretor. Ao lado do título o desenho de um homem, de cartola, fraque, gravata, flor na lapela, charuto e bengala completa a relação com o título.

As capas são ricamente ilustradas. Trazem o desenho a bico de pena de personalidades que se fizeram presentes com suas colaborações no número editado ou ainda daquelas cujos editores prestam algum tributo, como no caso do número sete que homenageia Carlos Gomes.

Publicou contos, crônicas e poemas. Alguns colaboradores que podem ser encontrados n’A Bohemia: Amadeu Amaral, Augusto Barjona, Azevedo Barjanca, Antonio de Oliveira, Alberto Ramos, Armando d’Erse, Enzo Alvarez, Francisca Julia da Silva, Furtado Filho, Gomes Cardim, João da Ega, José Romero, José Piza, Jacomine Define, Paulo Lobo, Benjamim Mota, Furtado Filho, Julio Cezar da Silva, Wencesláu de Queiroz, Zalina Rolim e Cunha Mendes.

A seguir, o poema, então inédito, Natureza, de Francisca Julia da Silva publicado no número 5, página 34.


Natureza
(inédito)


Um continuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de azas medrosas.
A Natureza ri pelas boccas vermelhas
/tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, has-de ouvir, em noites tenebrosas
O grito dos chacaes e o pranto das ovelhas;
Brados de desespero e phrases amorosas
Pronunciadas, a medo, á concha das ovelhas...

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa successão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando o meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o tambem num chorão recurvado
Para dar sombra fresca á minha propria cova.

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